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A Colômbia vota dividida com a paz em jogo

O presidente Juan Manuel Santos e Álvaro Uribe medem forças nas eleições

A campanha eleitoral foi focada nas negociações com as FARC

O ex-presidente Álvaro Uribe deposita seu voto na urna.
O ex-presidente Álvaro Uribe deposita seu voto na urna. AFP

O presidente Juan Manuel Santos tentou convencer os colombianos de que há uma oportunidade real de conseguir a paz e que hoje podem respaldar esse processo com sua eleição. O uribismo e seu candidato à presidência, Óscar Iván Zuluaga, defenderam suspender esse diálogo até que a guerrilha “acabe com suas ações criminosas”. Ambos estão empatados nas pesquisas, em um ambiente muito polarizado e salpicado por escândalos que ofuscaram os outros três candidatos e deixaram de lado debates que também importam nas ruas, como a insegurança dos cidadãos, a melhora da educação e da saúde.

Santos apostou sua reeleição e sua carreira política no êxito das negociações de paz com a guerrilha. Depois de passar meses encalhada no assunto do narcotráfico, há nove dias a mesa de diálogo deu oxigênio político a Santos, com o anúncio de um novo avanço na agenda que deixa para depois das eleições o assunto central da justiça e reparação às vítimas. É o ponto mais delicado para os cidadãos e, também, a linha de confronto que o uribismo tentou atacar, apelando a uma “paz sem impunidade” e exigindo que os líderes da difamada guerrilha sejam presos. O ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), ainda muito popular, dedicou-se a criticar de modo implacável o processo e de espalhar a ideia de que Santos é um traidor castrochavista em comparação com seu herdeiro político, Zuluaga.

Santos tem um enorme apoio internacional para terminar com uma guerra que causou 220.000 mortos e quase seis milhões de deslocados. O êxito do plano –e parece claro que é a tentativa melhor encaminhada para consegui-lo–, significaria uma enorme transformação política, um primeiro passo em direção à normalidade, depois de cinquenta anos de guerra. A paz, calcula o Governo, teria um impacto direto sobre o PIB, com um aumento entre 1,5 e 2 pontos percentuais. Mas os colombianos estão divididos. Para muitos, nas cidades, o diálogo não é tão prioritário, embora a maioria queira que siga adiante, segundo as pesquisas. Um dos pontos fracos do presidente, segundo seus críticos, tem sido sua incapacidade de defender bem o processo de paz, para gerar confiança.

Nos últimos dias surgiram escândalos nas duas campanhas que sujaram o debate

Nas últimas semanas surgiram escândalos nas duas campanhas que sujaram o debate. Hackers, vazamento de informações, vídeos e jogo sujo dominaram as atenções, enquanto as propostas ficaram em segundo plano em um dos países mais desiguais da América Latina e do mundo. A campanha de Santos foi afetada por uma acusação de Uribe, de que o atual presidente havia recebido dinheiro do narcotráfico para financiar sua campanha presidencial de 2010; a de Zuluaga, por um vídeo no qual está falando com um espião da informática, sobre como utilizar informação militar secreta como arma eleitoral, algo que ele nega.

Para o jornalista e escritor Fernando Quiroz, isso mostra que não se debatem ideias, as propostas passaram a um segundo plano e os ataques protagonizaram o debate, o que confundiu o eleitorado. “Nunca tinha visto tanta dúvida das pessoas como nestas eleições, porque não se sabe, no fundo, o que os candidatos propõem. Tampouco havia visto tanta gente votar sem estar suficientemente convencida e simplesmente o faz para evitar um mal maior. É a enorme tristeza de ficar com o menos ruim”, diz.

Embora até agora as pesquisas indiquem um empate técnico entre Santos e Zuluaga, hoje será revelado o impacto da tensão eleitoral e dos escândalos. Cerca de 33 milhões de colombianos estão cadastrados para votar nas eleições, cuja expectativa é de que se realizem sem maiores problemas, depois que as FARC e o ELN, a segunda guerrilha colombiana, anunciaram um cessar-fogo em consequência da votação.