O maior opositor de Santos se declara vítima de uma montagem

O uribista Oscar Iván Zuluaga negou a autenticidade do vídeo que o mostra com um hacker investigado por espionagem

Óscar Iván Zuluaga (centro), ontem em Villeta.
Óscar Iván Zuluaga (centro), ontem em Villeta.Leonardo Muñoz (EFE)

O que parecia ser um clássico encerramento de campanha eleitoral, onde cada um dos cinco candidatos à presidência da Colômbia percorreria diferentes pontos do país procurando os últimos votos para o próximo domingo, quando acontece o primeiro turno da eleição presidencial, se tornou uma jornada agitada, por causa do escândalo protagonizado pelo uribista Oscar Iván Zuluaga. O aspirante à presidência descreveu neste domingo como “uma vulgar montagem” o vídeo que está no centro da polêmica.

A tormenta começou no sábado à noite, quando a revista Semana revelou um vídeo gravado com celular em que o candidato apadrinhado pelo ex-presidente Álvaro Uribe aparece em um escritório com um hacker acusado por promotores colombianos de tentar sabotar o atual processo de paz entre o Governo e a guerrilha FARC. Na gravação, o pirata informático fala com o uribista sobre informações de inteligência militar às quais teve acesso, relativas a chefes guerrilheiros, enquanto o candidato o escuta sem se surpreender com essas ações ilegais.

Zuluaga, ex-ministro da Fazenda de Uribe, que inicialmente disse desconhecer as atividades ilegais do hacker e alegou ter estado com ele apenas numa curta reunião, reagiu no final da manhã de domingo, quando apresentou uma curta declaração à imprensa na companhia do seu advogado, sem responder a perguntas. O candidato uribista disse que o vídeo é parte de “uma vulgar montagem preparada para manchar nossa campanha”, e se declarou vítima.

Hoje foi o último dia em que os candidatos podiam realizar atos públicos de campanha

O candidato se limitou a ler um texto de menos de quatro minutos em que nega a veracidade da gravação, apesar de ele aparecer com aquele que supostamente é o hacker interpelado, detido no último dia 6 sob a acusação de violação ilícita de comunicações, uso de software malicioso, interceptações de dados informáticos e espionagem. Ele é visto de costas, diante de nove monitores.

“A videomontagem é uma armadilha, e não é uma casualidade que seja divulgada quando cresço nas pesquisas e o candidato-presidente cai”, disse o político. A mais recente pesquisa, contratada por vários meios de comunicação e realizado pela firma Ipsos Napoleón, aponta a liderança de Zuluaga no primeiro turno, um ponto percentual à frente de Santos, o que significa um empate técnico.

Embora vários políticos, entre eles o candidato à presidência do partido Los Verdes, Enrique Peñalosa, tenham exigido do uribista que renuncie à sua candidatura por considerar que sua conduta beira o ilícito, Zuluaga ratificou que se manterá na disputa eleitoral. Insistiu nesse sentido que o vídeo é parte de “uma conduta frequente nas campanhas do assessor J.J. Rendón. Feitos similares ocorreram recentemente em campanhas no Panamá, El Salvador, México e Venezuela. Infiltrações, vídeos ilegais e falsificações fazem parte de seu modus operandi”.

Ele se refere ao polêmico estrategista venezuelano J.J. Rendón, que foi o principal assessor da campanha de Santos e que também trabalhou para Álvaro Uribe em anos anteriores. Há uma semana, um traficante acusou o marqueteiro de ter recebido 12 milhões de dólares para mediar uma proposta que levaria vários chefes de quadrilhas colombianas a se entregarem. A denúncia fez com que Rendón se afastasse da campanha.

Zuluaga tentou responsabilizar o presidente Juan Manuel Santos pelo novo escândalo, dizendo que o mandatário já recorreu no passado a esse tipo de ação. “O presidente Santos, na campanha de 2010, de maneira ilegal, imitou a voz do presidente Uribe em campanhas publicitárias para procurar seu favorecimento”, disse. Essa mesma tese de envolvimento do presidente já havia sido exposta por Uribe à imprensa local na manhã do domingo, quando se perguntou: “Um vídeo feito por quem? Um suposto hacker que trabalhou com J.J. Rendón, próximo do presidente Santos”, disse.

O candidato Peñalosa insistiu, durante o encerramento da sua campanha em Bogotá, onde realizou um passeio ciclístico, que o candidato uribista “mentiu de maneira flagrante aos colombianos, e não só isso, como também incorreu em delitos penais graves, como as interceptações ilegais, o delito de formação de quadrilha e o de utilização de informação de inteligência militar”.

A candidata da esquerda, Clara López, também em seu encerramento com um grupo de mulheres de diferentes agremiações femininas do país, disse na capital colombiana que “quem utiliza a guerra suja não merece governar o país”, fazendo referência tanto à campanha dos santistas como à dos uribistas. Também fez alusão a um ditado popular do norte da Colômbia, segundo o qual “quando as comadres brigam se conhece a verdade, e já estamos vendo qual é a verdade”, segundo ela. Em Cali, por sua vez, a conservadora Martha Luzia Ramírez evitou se referir diretamente ao escândalo protagonizado por seu ex-colega de gabinete, dizendo que a Colômbia precisa de “um projeto construído com as pessoas – ideias e propostas, não escândalos e manhas”.

Até hoje, segundo a lei colombiana, os candidatos podiam fazer atos públicos de campanha. A partir de manhã, eles devem ocorrer apenas a portas fechadas, mas os candidatos poderão continuar dando declarações à imprensa, e há forte expectativa a respeito de como serão os dois debates pela televisão, nos quais sem dúvida esse e outros escândalos voltarão a movimentar o já acalorado ambiente eleitoral.