ALEJANDRO WERNER / DIRETOR PARA AMÉRICA LATINA DO FMI

“A situação na América Latina pode ser mais difícil do que o previsto este ano”

Alejandro Werner, diretor para América Latina do FMI, acha que a região crescerá mais que as economias desenvolvidas, mas suas projeções para 2014 baixam meio ponto

Alejandro Werner, durante uma entrevista em Washington no ano passado.
Alejandro Werner, durante uma entrevista em Washington no ano passado.bloomberg

O Fundo Monetário Internacional (FMI) deu notícias agridoces em abril para a América Latina: a região continuaria crescendo acima das economias desenvolvidas, mas suas projeções para 2014 caíram em meio ponto percentual, para 2,5%. A retirada dos estímulos pelo Banco Central dos Estados Unidos (Federal Reserve-Fed) e a desaceleração das matérias-primas colocam em evidência as deficiências dos tecidos produtivos desses países. Esta semana o diretor do departamento para a América Latina, Alejandro Werner (Córdoba, Argentina), alertou que as previsões podem ser novamente cortadas e aproveitou sua participação em um seminário em Madri, promovido pela Fundación Areces, para dar a receita: reformas.

Pergunta. O FMI pede reformas estruturais às economias da América Latina para que enfrentem a desaceleração, mas estas não são de efeito imediato.

Resposta. A América Latina vem de um período muito bom nos últimos anos, fruto do trabalho nas áreas macroeconômica, financeira, estrutural e um ambiente muito favorável. Agora há uma queda do preço das matérias-primas e uma desaceleração da China. Ao mesmo tempo, a parte da América Latina que se beneficiava do maior dinamismo dos EUA, que é o México, ainda não está refletindo isso. A expectativa de crescimento médio é um ponto percentual inferior à taxa dos 10 últimos anos, mas a região deve concentrar-se em fazer as reformas para desencadear um processo de investimento mais acelerado, que contribua para a expansão num prazo mais curto.

P. Do que as previsões dependem para não sofrerem outro corte?

R. No curto prazo, as surpresas podem vir na parte negativa: no México, onde projetamos um crescimento de 3% em 2014, os dados do primeiro trimestre são um pouco mais fracos do que o esperado, porque os EUA também mostram um começo de ano mais fraco. No Brasil, a estimativa é de 1,8% e dificilmente haverá uma revisão, embora provavelmente as economias da costa do Pacífico tenham tido uma desaceleração acima do previsto. E na Venezuela e Argentina, há o efeito das medidas do início do ano. É provável que este ano a situação seja um pouco mais complicada do que mostram nossas previsões de abril. Em relação às revisões de expectativas, 2014 pode ficar um pouco mais comprometido do que o esperado, mas o futuro no médio prazo talvez seja mais favorável do que as estimativas.

P. Ainda não vimos o pior na saída de capitais?

R. Vimos um impacto muito importante devido aos anúncios da política monetária de Ben Bernanke no ano passado, quando disse que os estímulos seriam reduzidos, o que criou uma importante volatilidade e saída de capitais. Nosso cenário central é que o ajuste à alta dos juros será ordenado, como também a saída de capitais. Além disso, a maior parte dos países da região conta com bancos bem capitalizados, com elevados níveis de reserva e estruturas de dívida com prazo de amortização confortáveis.

P. As economias dependem em excesso dos EUA ou das matérias-primas. Onde pode ser encontrada a terceira perna?

R. Essa terceira perna deveria ser o crescimento do investimento derivado de fatores internos, uma economia mais diversificada, o aumento da produtividade e a concorrência interna. Por isso devem concentrar-se em educação e infraestrutura.

P. Pede-se que aumentem o gasto, mas que ao mesmo tempo sejam muito disciplinados com ele.

R. Podem fazer isso em um marco fiscal sustentável. No Chile, há um debate muito importante sobre o gasto em educação e a resposta tem sido uma proposta fiscal totalmente sustentável, para que num período de cinco anos a arrecadação sobre o PIB aumente em três pontos: dois pontos para a educação e outro ponto para melhorar a balança fiscal. E na parte de infraestrutura, muitos países aperfeiçoaram as bases de sua colaboração público-privada para reduzir a necessidade de recursos públicos.

P. É o modelo a ser seguido pelos outros países?

R. Há espaços de eficiência importantes que podem ser conquistados no espaço do gasto público. Na região vemos países que gastam entre um e oito pontos do PIB para subsidiar energia. Isso faz com que o setor empresarial use a energia de forma ineficiente e, no âmbito das famílias, o subsídio dado é muito regressivo por ser geral. É ineficiente do ponto de vista energético e redistributivo.

P. Depois desses anos de intenso crescimento, não são decepcionantes os avanços na redução das desigualdades?

R. São bons sob a perspectiva histórica da região, embora ainda tenha um desafio muito importante. É importante uma melhor distribuição da renda e a convicção de que se não há avanço na igualdade de oportunidades, será mais difícil sustentar o crescimento, criar um trabalho mais qualificado que proporcione mais expansão no futuro.