Os sindicatos turcos convocam greve em protesto pela morte de mineiros em Soma

Os trabalhos de resgate prosseguem na mina de carvão, mas desde a quarta-feira nenhum trabalhador foi retirado vivo

Um assessor de Erdogan chuta um manifestante detido por policiais. (atlas)

A tensão cresce na Turquia em torno da tragédia na mina de Soma (Anatólia), transcorridas mais de 40 horas desde a explosão numa jazida de carvão que provocou a morte de 282 trabalhadores, na maior tragédia mineira do país. Mineiros e vizinhos voluntários estão tentando nesta manhã resgatar os operários da asfixia por monóxido de carbono, que continua a ceifar vidas. Os sindicatos do setor público convocaram um dia de greve para hoje para denunciar a responsabilidade e negligência do Governo no que descreveram como “o massacre de Soma”. Os protestos se sucedem. Hoje pela manhã a polícia usou gás lacrimogêneo para reprimir os 20 mil manifestantes que protestavam na cidade de Esmirna.

São horas de dor e tensão para toda a Turquia, onde cresce a indignação popular

Enquanto novos corpos emergem pela boca da mina, diminuem as esperanças para os mineiros que continuam presos na mina e para seus familiares desesperados, reunidos nas proximidades. “Nas últimas 12 horas não foi tirado nenhum trabalhador com vida”, declarou o ministro da Energia, Taner Yildiz. “Pode ser que ainda haja umas 350 pessoas lá embaixo”, explicou à imprensa local nesta quarta-feira um mineiro que participa voluntariamente dos trabalhos de resgate. Os números oficiais falam apenas em várias dúzias de sepultados. “Há muita fumaça lá dentro. Em um lugar você vê quatro ou cinco corpos, e em outro canto há uns 10”, ele acrescentou.

São horas de dor e tensão para toda a Turquia, onde cresce a indignação popular. “Centenas de nossos irmãos trabalhadores em Soma foram condenados à morte desde o começo, ao serem obrigados a trabalhar em processos de produção altamente brutais para garantir o máximo de lucro”, diz uma declaração emitida por vários sindicatos que lançaram o chamado às greve nesta quinta-feira.

“Convocamos os trabalhadores e os amigos dos trabalhadores a se levantarem hoje por nossos irmãos em Soma”, diz o comunicado sindical, pedindo também que as pessoas vistam preto em sinal de luto pelas vítimas.

“Hoje muitos sindicatos estão em greve, mas não todos, embora deveriam estar”, disse ao EL PAÍS uma militante do Partido Comunista da Turquia, Didem Kül. “Ontem (quarta-feira) participei dos protestos em Taksim. Havia milhares de pessoas, e a polícia reagiu com violência. Fui condenar os assassinatos de Soma, mas não tinha certeza se o próximo não seria o meu.”

Vítimas da explosão em uma mina de carvão na Turquia. (reuters_live)

“Há centenas de trabalhadores mortos em condições hediondas e o Estado vai pagar 1.000 liras (1.062 reais) a cada família, sendo que há apenas dois meses veio à tona que andava escondendo milhões de dólares provenientes da corrupção em caixas de sapatos”, diz a militante. Intensificam-se os sentimentos de revolta em um país que viveu uma década de crescimento econômico acelerado, mas que continua entre os primeiros lugares nas listas de acidentes trabalhistas na Europa e no mundo, em especial no setor das minas.

Na tarde de quarta-feira o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, foi vaiado por uma multidão indignada em Soma, que pouco depois avançou contra a fachada da sede do partido do governo (AKP). Houve manifestações de protesto em muitas cidades turcas, dispersas com canhões de água e bombas de gás lacrimogêneo. Ontem, em vários pontos estratégicos de Istambul, como as estações de metrô e as praças, grupos de jovens se jogavam ao chão, representando os mineiros mortos de Soma, com carvões e capacetes amarelos.

Um assessor de Erdogan chuta um manifestante em Soma

Na quarta-feira um assessor do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, chutou um manifestante que protestava contra o governante. Yusuf Yerkel, vice-chefe de gabinete da chefatura do governo, foi fotografado dando um pontapé em um homem segurado no chão e cercado por dois militares.

O fato coincidiu com a visita de Erdogan à mina, na localidade de Soma, onde o premiê foi recriminado. De acordo com testemunhas, os militares estavam interrogando o manifestante, que teria dado socos em um dos veículos do comboio oficial. Essas fontes, citadas pelo jornal Hurriyet, falam de três ou quatro chutes que teriam sido desferidos por Yerkel.

O assessor reconheceu o fato e prometeu que se explicará num comunicado. A foto em que ele é visto chutando o manifestante circulou de forma maciça nas redes sociais, onde se alastraram os chamados por sua demissão.