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Os presidenciáveis miram o Nordeste após aumentar a chance de segundo turno

Rousseff, Neves e Campos marcam encontros na região que concentra 27% dos eleitores do Brasil

Até o ex-presidente Lula pede voto para a petista na Bahia

Aécio (centro) durante visita ao estado do Maranhão, na semana passada.
Aécio (centro) durante visita ao estado do Maranhão, na semana passada.

Quando as primeiras pesquisas eleitorais começam a demonstrar certa fragilidade da presidenta Dilma Rousseff (PT), que caiu mais um ponto percentual na último levantamento do Datafolha e aumentou as chances de segundo turno, os principais candidatos a sucedê-la, e ela mesma, rumam em direção ao Nordeste do país.

Ir a uma das regiões mais pobres e que também possui as mais belas praias brasileiras é estratégico, afinal, é lá que Rousseff obteve 15,9 milhões de votos no primeiro turno da eleição de 2010, ou 61,6% do total da região. Além disso, comparando com outras regiões brasileiras, o Nordeste é a segunda maior praça eleitoral (27% dos votantes), atrás apenas do Sudeste (43%).

É naquela região também que os levantamentos mais recentes mostram que Rousseff obteria o apoio de 52% dos 38 milhões de eleitores caso as eleições fossem hoje. Ou seja, é o terreno onde é preciso avançar para se reduzir um pouco mais o favoritismo da mandatária.

A estratégia de focar no Nordeste ficou muito clara nesta semana, quando Rousseff, o senador Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), ex-governador do estado de Pernambuco (Nordeste), incluíram eventos na região em suas agendas políticas.

Isso sem contar o principal cabo eleitoral petista, cuja sombra ainda assusta os dilmistas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O foco no Nordeste ficou muito claro nesta semana quando Rousseff, Neves e Campos colocaram em suas agendas políticas eventos na região

Rousseff esteve nesta terça-feira nos estados  Ceará, em Pernambuco e na Paraíba inaugurando trechos da obra de transposição do rio São Francisco. Na sexta-feira, ela voltará à Paraíba e vai ao Piauí, onde deve participar da formatura de alunos de escolas técnicas e da entrega de casas do programa habitacional Minha Casa Minha Vida, do governo federal.

As agendas das pré-campanhas de Neves e Campos centraram-se na Bahia na segunda-feira, onde o primeiro foi homenageado em Salvador, e o segundo reuniu-se com líderes políticos no município de Vitória da Conquista. No mesmo Estado e no mesmo dia, Lula participou de eventos políticos em uma universidade, onde fez clara campanha pela reeleição de Rousseff.

Coincidência ou não, Marina Silva, candidata a vice de Campos, também participou de eventos em Fortaleza, capital do Ceará, no dia de ontem.

A Dilma tem menos espaço de crescimento que os demais porque todo mundo já tem um juízo de valor sobre o governo dela.

Cláudio Gonçalves Couto, cientista político da FGV

Conforme especialistas, como a campanha ainda está “morna”, os pré-candidatos tentam sentir um pouco seu eleitorado em cada Estado e explorar os pontos frágeis dos adversários. No caso da oposição, a tática seria aproveitar a insatisfação com a volta da inflação e com a crise da Petrobras.

Já no caso da situação, a tentativa é destacar o que fez, lançando novas obras.

“No decorrer da campanha é mais comum que o candidato vá para regiões onde o número de eleitores indecisos é maior. Mas como está tudo no começo, talvez a oposição queira aproveitar o desgaste do governo Dilma para conseguir mais votos no Nordeste”, avaliou Cláudio Gonçalves Couto, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo.

De fato, se avaliarmos o discurso de Lula parece que foi exatamente essa a intenção de Neves e Campos. “Nunca vi baterem tanto na Dilma como estão batendo agora. Eles batem na Dilma porque acham que não é possível eleger esta mulher. E ainda mais reeleger esta mulher, para a desgraça deles”, disse Lula durante discurso em uma universidade, conforme a Folha de S. Paulo.

Cada um vai tentar costurar alianças. O acordo na esfera nacional nem sempre se repete nos Estados e os pré-candidatos estão neste momento em busca desses palanques estaduais.

Pedro Arruda, professor da PUC

Couto diz ainda que terá sucesso aquele candidato teoricamente desconhecido que conseguir se apresentar melhor ao eleitorado. “A Dilma tem menos espaço de crescimento que os demais porque todo mundo já tem um juízo de valor sobre o Governo dela. O trunfo será de quem conseguir obter os votos dos insatisfeitos com ela”, analisou.

Outro especialista no assunto vê o movimento em direção ao Nordeste de uma maneira diversa. Pedro Arruda, professor do departamento de política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que ainda é cedo para pedir voto ou “marcar território” eleitoral, já que faltam cinco meses para o pleito e a campanha no rádio e na televisão ainda não começou.

“Agora, cada um vai tentar costurar alianças políticas. O acordo na esfera nacional nem sempre se repete nos Estados e os pré-candidatos estão, neste momento, em busca desses palanques estaduais”, ponderou.

Para Arruda, os levantamentos eleitorais, por enquanto, servem mais para consumo interno. Ou seja, para os estrategistas e marqueteiros definirem onde devem pedir voto, quem são os eleitores que mais rejeitam os candidatos ou onde há mais indecisos.

A influência da Copa

Um ponto em que ambos os estudiosos concordam é com relação à insatisfação popular que pode ressoar durante o período da Copa do Mundo, independentemente da região do país. Os dois acreditam que desde o início da onda de protestos, em junho do ano passado, há um clima ruim para qualquer Governo, seja ele federal ou estadual. Por isso, ainda será necessário esperar os movimentos fora do campo para saber como o eleitor poderá se comportar.

“Vivemos um paradoxo. O Brasil avançou muito social e economicamente nos últimos anos. Até mesmo por esses avanços a sociedade cobra mais quando se para de avançar e aí surgem os protestos, que podem influenciar em qualquer eleição” , diz Couto.

“Conforme a reação aos protestos, a eleição pode mudar, mas isso não é ‘unicausal’. Os protestos nada mais são do que o reflexo de insatisfação com a segurança pública, com o transporte urbano, com a economia, com a inflação, com o desemprego...”, complementa Arruda.

O que dizem as pesquisas

Datafolha – 9/5/2014

Brasil

Dilma Rousseff 37%

Aécio Neves 20%

Eduardo Campos 11%

Nordeste

Dilma Rousseff 52%

Aécio Neves 12%

Eduardo Campos 16%

Sensus – 3/5/2014

Brasil

Dilma Rousseff 34%

Aécio Neves 19%

Eduardo Campos 8%

Ibope – 17/4/2014

Brasil

Dilma Rousseff 37%

Aécio Neves 14%

Eduardo Campos 6%

Nordeste

Dilma Rousseff 51%

Aécio Neves 8%

Eduardo Campos 10%

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