O mediador da ONU e da Liga Árabe para o conflito sírio anuncia sua demissão

Lakhdar Brahimi renuncia diante da falta de avanços nas negociações para pôr fim à guerra Ele foi nomeado mediador internacional para o país árabe depois da renúncia de Kofi Annan, em 2012

O enviado especial da ONU para a Síria, Lakhdar Brahimi.
O enviado especial da ONU para a Síria, Lakhdar Brahimi.DENIS BALIBOUSE (REUTERS)

Após quase dois anos tentando reunir o regime e a oposição sírios numa mesa de diálogo, o mediador das Nações Unidas para a Síria, Lakhdar Brahimi, conseguiu apenas uma semana de cessar-fogo em Homs, em fevereiro passado, e duas rodadas de negociação em Genebra (em janeiro e fevereiro de 2014). Mas não obteve resultados importantes no sentido de frear os violentos confrontos que já deixaram 150.000 mortos, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos.

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A demissão do diplomata argelino foi anunciada para 31 de maio, três dias antes da data marcada para as eleições sírias. Desde março Brahimi deixava entrever que, se fosse realizada uma eleição presidencial na Síria com Bashar al Assad como candidato, o diálogo entre oposição e regime, assim como os esforços realizados em Genebra, se dissipariam sem possibilidades de se repetirem numa conferência Genebra III.

Oposição e o regime se mostraram impassíveis em suas posições. A oposição recusa todo e qualquer diálogo com o regime do Assad se este apresentar sua candidatura a um novo mandato presidencial. O regime sírio reafirmou que, se houver uma transição, ela será liderada por Assad, que disputa a eleição do mês que vem contra outros três candidatos, os quais reúnem chances nulas de vitória.

Trata-se de um beco sem saída, no qual o mediador da ONU esgotou todas as suas cartadas. Aliás, apesar do simbolismo midiático obtido com Genebra I e II, poucos depositavam maiores expectativas na missão dele. Por um lado, o mediador precisou lidar com uma oposição dividida, que até se empenhou em apresentar uma aparência de união, embora tenha se mostrado incapaz de impor controle algum sobre o terreno. Do outro lado, o regime sírio, apoiado pela Rússia no Conselho de Segurança da ONU, persistiu em seu papel de único interlocutor legítimo.

A demissão de Brahimi ocorre numa conjuntura favorável ao regime sírio, que conseguiu nos últimos meses reforçar o controle militar sobre as maiores cidades sírias e sobre estradas estratégicas, enquanto o lado rebelde se viu relegado às fronteiras com os países vizinhos ou reduzido a bolsões insurgentes em regiões periféricas. A eleição de 3 de junho aponta para uma vitória de Assad.

Karim Makdisi, professor-adjunto de ciências políticas da Universidade Americana de Beirute, se mostra pessimista: “A demissão expõe por um lado o fracasso de uma mediação política por parte da Organização das Nações Unidas, que, após a saída de duas figuras de peso, como Kofi Annan e Lakhdar Brahimi, se verá obrigada a recorrer a uma figura de menor perfil. E, por outro lado, há o fracasso do plano saudita para a região, como na medição de forças contra o Irã. A mediação política perde força e demonstra o desinteresse dos Estados Unidos, absorvidos pela Ucrânia, que se impõe hoje como a prioridade número um”.

Já Najib Ghadbian, representante especial do Conselho Nacional Sírio junto à ONU, louvava os esforços realizados por Brahimi, ao mesmo tempo em que criticava a ausência de compromisso da comunidade internacional e assegurava que “a Coalizão Síria debaterá as possíveis opções para exercer mais pressão sobre o regime junto a aliados importantes na próxima reunião ministerial dos 11 países do Grupo de Amigos da Síria, em 15 de maio”.

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