Seleccione Edição
Login

Alibaba rouba a atenção de Wall Street

O gigante protagoniza o que pode se tornar a maior abertura de capital da história

Assim funciona o maior mercado ‘on-line’ do mundo

Uma empregada de Alibaba junto à tela que controla as transações
Uma empregada de Alibaba junto à tela que controla as transações

A sede do Alibaba tem muito pouco a ver com uma caverna. De fato, as gigantescas instalações que construiu nos arredores da cidade chinesa de Hangzhou surpreendem por seu design futurista, pelos gigantescos espaços iluminados nas áreas de trabalho, e pelas agradáveis zonas verdes nas quais os trabalhadores relaxam quando o tempo permite. Mas o que mais impressiona não são os pebolins nos pisos das escadas, que parecem um anacronismo em uma empresa chinesa, nem os empregados que praticam o Tai Chi Chuan para combater o estresse. É a incompreensível escala do negócio controlado pela empresa que assusta. Porque o Alibaba é o maior mercado virtual do planeta.

Sua força global se reflete na enorme tela de uma das salas de controle do quartel general. O mapa do planeta gira e vai mostrando as diferentes transações, que acontecem em tempo real. Na China são milhares, mas também no Sudeste Asiático, na América do outro lado do Pacífico, e na Europa quando desperta. As estatísticas são convincentes, e demonstram que Alibaba não tem quem o supere. Um exemplo: em 11 de novembro passado, dia dos solteiros na China, 127 milhões de pessoas lançaram uma orgia consumista na rede da empresa e gastaram 35 bilhões de yuanes (12,5 bilhões de reais) nos 171 milhões de pedidos que fizeram num catálogo com mais de 1 milhão de artigos. Nunca antes houve tantas transações num prazo de 24 horas, mas com certeza, o recorde será quebrado este ano.

De qualquer maneira, o sucesso do Alibaba não aconteceu de um dia para o outro. O grupo soube diversificar seus negócios e já conta com 24.000 funcionários distribuídos por seus diferentes segmentos, que vão desde empresas de comércio eletrônico — Taobao em C2C, Tmall em B2C, Alibaba em B2B e Aliexpress para compras internacionais controlam 80% de tudo o que se compra no ciberespaço chinês— até produtos financeiros de investimentos como o Yu’ebao, que já movimenta mais de 400 bilhões de yuanes (cerca de 142 bilhões de reais), passando pelo sistema de pagamento do grupo, Alipay, que se transformou em modelo na China.

O volume de negócio aumenta, e continua crescendo muito acima do PIB da segunda potência mundial. No ano passado, 231 milhões de clientes movimentaram 11,3 bilhões de transações no Alibaba —15% por meio de celulares—, totalizando 248 bilhões de dólares (550 bilhões de reais), uma quantidade que supera o montante da Amazon e do eBay. Com essas vendas, o Alibaba teve uma margem superior a 40% sobre o lucro líquido, o dobro do conseguido pelo Google: ou seja dos quase 6 bilhões de dólares (13,3 bilhões de reais) de lucro em 2013, cerca de 2,5 bilhões de dólares (5,5 bilhões de reais) foram diretamente para o cofrinho.

Se o comércio eletrônico chinês continuar crescendo de acordo com as previsões —a iResearch Consulting espera uma expansão anual de 27%— e alcançar um volume de 713 bilhões de dólares (1,6 trilhão de reais) em 2017, esses números podem ficar reduzidos a alguns trocados. No curto prazo, o Alibaba poderia transformar-se na primeira empresa de comércio eletrônico que movimenta transações acima de 3 bilhões de reais. É, sem dúvida, uma conquista espetacular para a companhia que nasceu há 15 anos no apartamento de seu fundador, Jack Ma, com apenas 60.000 dólares (130.000 reais)

Um empregado pratica Tai Chi Chuan na sede da Alibaba, na China. ampliar foto
Um empregado pratica Tai Chi Chuan na sede da Alibaba, na China. AP

Agora, o Alibaba decidiu dar um novo passo em sua internacionalização e aterrissar no parque de Wall Street. Na terça-feira, a empresa apresentou a documentação necessária para lançar uma oferta pública de ações (OPA), e sua estreia foi batizada pelo jornal britânico Financial Times como “a venda do século”.

No entanto, a companhia chega com um objetivo muito modesto. Segundo os documentos apresentados na Bolsa de Nova York, pretende levantar 1 bilhão de dólares (2,2 bilhões de reais). No entanto, a previsão é de que o valor aumente consideravelmente, e muitos estão convencidos de que resultará na maior oferta de ações da história, superando os 16 bilhões de dólares (35,5 bilhões de reais) captados pelo Facebook em 2012. “Abrir capital nunca foi nosso objetivo, mas é necessário cumprir nossa missão. É um posto de gasolina na metade do caminho”, disse Ma em um comunicado interno enviado a seus funcionários.

Mas nem tudo são flores. Ainda há muitas perguntas sem resposta. A principal é o preço de estreia da ação, embora as apostas indiquem um valor de mercado da empresa de 200 bilhões de dólares (444 bilhões de reais).

Muitas outras dúvidas estão relacionadas com o poder que os acionistas terão sobre a empresa —hoje é controlada pelo próprio Jack Ma (8,9%), SoftBank (34%), Yahoo (23%) e Joseph Tsai (3,6%)—, e com as restrições que a China pode impor ao investimento estrangeiro. Não por acaso, o portal MarketWatch alertou na última quarta-feira que os investidores que comprarem ações não terão nenhum controle sobre as marcas do Alibaba —o que não é permitido pela lei chinesa—, porque o que realmente estarão comprando são participações em uma empresa registrada nas Ilhas Cayman, que tem um contrato para receber os ganhos gerados pelos negócios do Alibaba na China. ˜Isso quer dizer que se os acionistas querem fazer valer seus direitos terão que fazê-lo baseados no contrato existente entre a empresa nas Ilhas Cayman e a que tem sede na China”, destaca Steven Davidoff, professor da Universidade Estadual de Ohio.

Além disso, o mercado está preocupado com o fato de que a abertura de capital do Alibaba aconteça num momento em que as empresas de tecnologia estão sobrevalorizadas, e justo quando começa a aumentar a concorrência no ciberespaço asiático. Ainda que Taobao e Tmall sejam líderes indiscutíveis, também é certo que há rivais como Tencent que encontraram a galinha dos ovos de ouro no aplicativo de mensagens instantâneas WeChat, e que estão procurando um fórmula para utilizá-la contra o Alibaba. Por enquanto, já incorporaram no serviço sua própria plataforma de comércio eletrônico — Yixun—, que pode roubar usuários do grupo de Jack Ma.

Seu fundador, o terceiro homem mais rico da China e agora presidente-executivo do Aliaba, é consciente do perigo enfrentado por sua empresa ao estrear na bolsa de valores. E reconheceu isso em seu comunicado. “Vamos entrar numa nova era de desafios”, adiantou. “Faz 15 anos, 18 fundadores se juntaram para criar uma empresa chinesa que pudesse competir globalmente, que se tornasse em uma das dez maiores empresas de Internet do mundo, e que durasse 102 anos. Agora estamos melhor do que poderíamos ter sonhado na época (...), e muitos nos elogiam. Mas também há os que nos criticam. Por isso, vocês precisam estar conscientes de que, por detrás do charme do mercado de capitais, nos espera uma pressão e uma brutalidade sem tamanho.”