Solís encerra de uma vez décadas de bipartidarismo na Costa Rica

Os costa-riquenhos iniciam nesta quinta-feira uma época de mudanças após 65 anos de governos social-democratas e democrata-cristãos

O príncipe espanhol Felipe, à direita, e o novo presidente da Costa Rica.
O príncipe espanhol Felipe, à direita, e o novo presidente da Costa Rica.

Luis Guillermo Solís Rivera dá nesta quinta-feira o golpe final no bipartidarismo de sociais-democratas e sociais-cristãos que dominava a Costa Rica desde 1949, abrindo um momento sem precedentes na história costa-riquenha: instalará um governo com origem partidária de centro-esquerda, mas regido por homens e mulheres de esquerda, centro e direita, em um cenário político que mistura a vontade popular de mudança – expressa nas urnas em fevereiro e abril deste ano – com uma crescente esperança nacional pelo futuro em curto e médio prazo.

País com a maior estabilidade política e trajetória democrática da América Latina e Caribe nos últimos 65 anos, a Costa Rica dará posse nesta quinta-feira à administração de um partido– o Ação Cidadã (PAC) – que nunca teve controle sobre o governo costa-riquenho desde que em 1948, numa sangrenta tormenta eleitoral e política, os costa-riquenhos se enfrentaram em uma guerra civil de dois meses, que transformou esta nação e terminou com o início do que hoje se conhece como Segunda República, cimentada em um poderoso Estado benfeitor.

Solís, de 56 anos, historiador, acadêmico universitário, cientista político e diplomata experiente, o 48º. presidente costa-riquenho, assume o comando fortalecido por suas contundentes vitórias eleitorais, embora sem descartar certas dúvidas pela mudança de leme.

Os partidos Libertação Nacional (PLN) – que governou por 37 anos em 10 diferentes administrações consecutivas ou alternadas – e Unidade Social-Cristã (PUSC) – uma força que, embora com outros nomes, governou por 28 anos em sete mandatos alternados ou sucessivos – tiveram as alavancas governamentais da Costa Rica sob seu controle nos últimos 65 anos, mas agora ficaram, pela primeira vez, fora do controle dos assuntos do Poder Executivo. Encurralado por acusações de corrupção, com uma agravada dívida social – mais de um milhão de costa-riquenhos, ou 20% da população, em diversas escalas de pobreza – e uma aguda ingovernabilidade, o bipartidarismo desmoronou sobre as suas próprias estruturas.

Nessas circunstâncias, o que se inicia na Costa Rica com Solís? Há possibilidade de que a democracia costa-riquenha – reconhecida por seu respeito aos direitos humanos, o multipartidarismo, sem Exército desde 1948 e com sua trajetória de pacifismo em uma região que durante a maior parte do século XX, esteve marcado por regimes militares ditatoriais, de esquerda ou de direita – caia na corrente do neoesquerdismo da América Latina e o Caribe? O que muda na Costa Rica?

“É possível que este novo governo seja mais um regresso a uma social-democracia mais tradicional do que uma mudança radical, como queriam fazer ver alguns que anseiam, sim, por um movimento na direção da nova esquerda latino-americana, que simplesmente não ocorrerá”, observou o economista costa-riquenho Roberto Artavia, analista político, consultor internacional e ex-reitor do Instituto Centro-Americano de Administração de Empresas (INCAE), a principal escola de negócios da América Latina e o Caribe.

Em uma entrevista ao EL PAÍS, Artavia recordou que “na verdade, sinto que [nesta quinta-feira] reafirma-se um dos valores mais firmes dos costa-riquenhos: a democracia eleitoral com alternância de poder. É interessante que [Ottón Solís] o fundador do partido que chega ao governo e [Luis Guillermo Solís], que acabou sendo eleito presidente”, tenham sido membros do PLN, o partido “mais tradicional”, mas do qual “se desiludiram”.

Solís sucede a Laura Chinchilla Miranda, do PLN – a primeira mulher a presidir esta nação em seus 192 anos de independência. O homem que presta juramento na tarde desta quinta-feira para governar por quatro anos, depois de ganhar por uma avalanche de votos no segundo turno, em abril, sabe que governará com uma Assembleia Legislativa (Congresso unicameral) fragmentada em minorias.

“Não acho que o novo governo se inicie sob o signo da incerteza”, assegurou o advogado e cientista político costa-riquenho Constantino Urcuyo, catedrático da Escola de Ciências Políticas da Universidade da Costa Rica. “Inicia-se com um poderoso mandato nas urnas, as expectativas são altas, assim como o apoio. O desafio de Luis Guillermo Solís reside em satisfazer essa expectativa em médio prazo, mas hoje não acho que a nota dominante seja a incerteza”, afirmou, ao ser consultado pelo EL PAÍS.

Entretanto, o PAC é minoritário – 13 legisladores – e o PLN tem uma maioria relativa de 18, num arquipélago parlamentar com um total de 57 legisladores, com as marcas de outros partidos nanicos. A única opção viável é negociar para conseguir acordos, e essa palavra – “negociar” – é de uso frequente no léxico de Solís: na década de 1980, ele atuava como um paciente negociador diplomático nas primeiras linhas do fogo político regional, integrando a equipe costa-riquenha que, num frágil tecido, conseguiu costurar e confeccionar o vestido da paz na América Central.

“Ao iniciar um novo Governo, é fundamental que o presidente da República saiba que assume uma responsabilidade completa no exercício do governo. A Unidade Social Cristã não irá impor obstáculos, mas tampouco servirá de coro ou comparsa para nenhum partido, nem para o novo Governo”, advertiu o advogado costa-riquenho Rodolfo Piza, ex-candidato presidencial do PUSC, um partido que ficou enfraquecido pela sombra da corrupção entre suas lideranças históricas e agora é o principal aliado parlamentar do PAC. Solís chamou numerosos integrantes do PUSC para ocupar postos vitais em seu governo, e já se fala de um Governo de coalizão PAC-PUSC.

Solís assumirá a presidência “por culpa” de um empurrão político dado por seu amigo Alberto Salom, ex-deputado do PAC, cientista político, catedrático universitário, proveniente dos partidos tradicionais da esquerda costa-riquenha, que o estimulou a romper com os tradicionalismos e se arriscasse na luta nas trincheiras eleitorais.

“Sim, haverá uma mudança, e uma mudança grande”, declarou Salom, entrevistado por este jornal. “As mudanças nas sociedades são mais importantes quando se originam na sociedade civil. É mentira que um governo possa mudar qualquer coisa se não for através de uma comunicação muito forte com a sociedade civil. E aqui o que está acontecendo é uma mudança na sociedade civil. Também não é apenas uma mudança do partido no poder”, frisou.

“Temos uma institucionalidade difícil de mudar, e nem tudo vai mudar tão rapidamente como muita gente gostaria. As coisas exigem tempo de cocção, estamos numa panela de cozimento lento”, alertou, ao insistir que, diante do cenário político, “é preciso uma negociação”.

“O que aconteceu aqui foi uma revolução sem derramamento de sangue, pela sabedoria deste povo que procura sempre um caminho próprio que propicie as mudanças através do diálogo e da persuasão. E está produzindo uma mudança naquilo que é o mais difícil de se mudar, que é a cultura organizacional e política dos costa-riquenhos”, sentenciou.