Feria do livro de Buenos Aires

A cumplicidade de empresários com a ditadura argentina

Uma obra sobre a participação do poder econômico no regime militar é apresentada na Feira do Livro de Buenos Aires

O ditador argentino Jorge Videla (à direita) e o militar Emilio Massera.
O ditador argentino Jorge Videla (à direita) e o militar Emilio Massera.

A Feira do Livro de Buenos Aires é um espaço para a apresentação de obras novas e também de algumas obras publicadas no ano anterior, mas que tiveram repercussão grande. É esse o caso de Cuentas pendientes. Los cómplices económicos de la dictadura (Contas Pendentes – Os Cúmplices Econômicos da Ditadura), do jornalista Horacio Verbitsky e do advogado Juan Pablo Bohoslavsky, lançado em 2013 pela Siglo Veintiuno. O livro foi apresentado neste sábado numa sala do centro de convenções mantido em Buenos Aires pela Sociedade Rural Argentina, precisamente uma das organizações patronais criticadas pelos autores por seu papel no regime militar que assolou o país entre 1987 e 1983.

Colunista do Página/12, periódico de posição próxima à do Governo de Cristina Fernández de Kirchner, Verbitsky, juntamente com os autores de diversos capítulos do livro, falou de como poderosos empresários de companhias locais e internacionais apoiaram o golpe de Estado de 1976, contribuíram com homens para a formação dos Governos anticonstitucionais e com ideias para seus planos econômicos e fomentaram a perseguição de muitos de seus empregados sindicalizados.

Verbitsky também preside o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), uma das organizações não governamentais mais engajadas nos processos legais contra os responsáveis pela ditadura. Segundo o CELS, cerca de 495 responsáveis por crimes da ditadura já foram condenados desde 2005, quando foram revogadas as anistias vigentes até então. A maioria dos condenados é formada por ex-militares e ex-policiais; também há um ex-ministro civil e um sacerdote, mas não há nenhum empresário. Verbitsky disse no sábado que, com seu livro, pretende “revelar a verdade histórica”, mas também busca “levar a julgamento e castigar os cúmplices civis”.

No livro, vários autores contribuem com enfoques diversificados em cada capítulo. É o caso do ex-chanceler argentino e atual vereador de Buenos Aires Jorge Taiana, que escreveu A Geopolítica Internacional dos Apoios Econômicos; do economista Eduardo Basualdo, com O Legado Ditatorial, O Novo Padrão de Acumulação de Capital, A Desindustrialização e O Ocaso dos Trabalhadores, e do próprio Bohoslavsky, com o capítulo Cumplicidade dos Agiotas. Vários capítulos estão englobados sob o título de Desaparecimentos A Pedido De Empresas, e outros sob os títulos Apropriação Ilegal de Empresas e Apoios Diversos, Generosos e Interessados.

Na apresentação do livro, o co-autor do capítulo A Cumplicidade das Câmaras Patronais Agropecuárias, o jornalista e economista Alfredo Zaiat, disse que “houve câmaras empresariais cúmplices do golpe, como promotoras e realizadoras”, citando entre elas a aristocrática Sociedade Rural e outras que vêm se enfrentando com o Governo de Cristina Fernández desde o conflito agrário de 2008. Editor do Página/12, Zaiat disse que as entidades patronais buscavam “liquidar todo tipo de mobilização popular e suas lideranças. Elas foram os artífices ideológicos e ofereceram seus melhores homens para a gestão”, como o ministro da Economia do regime, José Alfredo Martínez de Hoz, e o então subsecretário de Agricultura, Jorge Zorreguieta, pai da rainha Máxima da Holanda.

O deputado kirchnerista e advogado Héctor Recalde, autor do capítulo Repressão dos Direitos dos Trabalhadores, também tomou a palavra na Feira do Livro: “O modelo de relação trabalhista que incentivavam era a sujeição do trabalhador pelo medo, o pânico. Patronais multinacionais, como Ford e Mercedes-Benz, participaram de perseguições e do desaparecimento de seus trabalhadores; outras nacionais, como a Ledesma (açucareira), La Veloz del Norte (transporte) ou Vicente Massot, do periódico La Nueva Provincia, são julgadas ou denunciadas por causas semelhantes. As modificações que a ditadura impôs à lei de contrato de trabalho eliminaram 27 artigos e mutilaram 94, convertendo o direito de greve em delito penal.” Por enquanto, três ex-dirigentes da Ford e os donos da Ledesma e de La Veloz del Norte já foram denunciados na justiça, mas ainda não foram a julgamento. O processo contra a Mercedes-Benz não avançou, e Massot já foi acusado pela Procuradoria Geral. A autora do capítulo O Caso da Papel Prensa, Andrea Gualde, também falou na feira do livro sobre a suposta apropriação ilegal dessa empresa pelos jornais Clarín e La Nación. Esse processo foi aberto pelo Governo de Fernández em 2010, mas a promotoria ainda não formulou acusações criminais contra ninguém.