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A pobreza volta a crescer na Argentina

Depois de uma década de queda quase contínua do número de marginalizados, a tendência se reverteu em 2013

A recente desvalorização da moeda agrava a miséria

Carroceiro na favela de La Carbonilla, em Buenos Aires.
Carroceiro na favela de La Carbonilla, em Buenos Aires. REUTERS

Os caminhões despejam sacos de resíduos no lixão de Zárate, uma cidade industrial de 98.000 habitantes situada 95 quilômetros ao norte de Buenos Aires. Em meio a um cheiro nauseabundo e a milhões de moscas, uma dezena de homens em situação de pobreza espera, sobre um tapete de resíduos, que os sacos caiam para abri-los em seguida. Procuram calçado, roupa... qualquer coisa, tudo que a classe média descarta e eles tentam reciclar. Também guardam comida para alimentar animais, sejam cães ou porcos. “Aqui vêm mais ou menos 70 pessoas todos os dias. Quando há laburo [trabalho] fora [do lixão], são menos os que laburan dentro. Agora há mais gente dentro”, reconhece um homem de gorro que compra plásticos ou metais dos que revolvem o lixo. Aqueles que sobrevivem na chamada “queima”, onde antes o lixo era incinerado e agora é comprimido com tratores, partem ao meio-dia com objetos em suas bicicletas ou motos de volta para suas casas, pelo caminho de terra que vai até a rodovia 9, que une Buenos Aires e Rosário.

Na periferia da capital ou em Mar del Plata há lixões mais concorridos, com centenas de pessoas que nunca deixaram de ir, apesar da redução da pobreza na Argentina depois da crise de 2001-2002 e a partir dos governos kirchneristas (desde 2003). Mas o atual aumento do número de pobres removendo lixo para sobreviver coincide com a quebra na tendência de melhoria social que o país registrava nos últimos anos. Além disso, o atual agravamento da situação – sobretudo desde 2013 e particularmente em 2014 – coincide com a desvalorização do peso em janeiro e seu impacto numa inflação que alcança 33% ao ano.

A pobreza tinha caído pela metade durante o Governo de Néstor Kirchner (2003-2007), de 54% para 27%, paralelamente à recuperação da economia, do emprego, dos salários e das aposentadorias. Mas desde 2007 as estatísticas oficiais da Argentina começaram a subestimar a inflação e, consequentemente, a pobreza. O Governo de Cristina Fernández de Kirchner dizia até o primeiro semestre do ano passado que só 4,7% dos argentinos estavam em situação de pobreza. Em 2014, numa tentativa por corrigir diversos desajustes econômicos, as autoridades regularam os dados sobre a inflação. Espera-se também há duas semanas que façam o mesmo com os dados sobre a pobreza no segundo semestre de 2013, mas o anúncio dessa informação foi adiado com o argumento de que havia questões metodológicas por resolver por causa do novo Índice de Preços ao Consumidor (IPC).

Agora proliferam diversos índices alternativos para medir a pobreza. Entre os mais ajustados à realidade estão possivelmente os da Universidade Católica Argentina (UCA) e os do Centro de Investigação e Formação da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA), que responde à ala kirchnerista dessa central sindical, mas reconheceu que em 2012 a pobreza era de 19,9%. Fontes da CTA destacam que praticamente em cada um dos primeiros nove anos do kirchnerismo no poder a pobreza baixou, com a exceção de 2008, quando se estancou, mas temem que seu centro de investigação, que divulgará o índice de 2013 na próxima semana, reconheça uma alta, porque a inflação superou no ano passado o aumento salarial. Além disso, admitem que no primeiro quadrimestre de 2014 a situação social piorou, porque os preços subiram ainda mais que as folhas de pagamento. “No restante do ano será preciso ver se a inflação baixa ou os salários sobem mais”, comenta uma dessas fontes em meio a negociações nas quais se pactuam aumentos salariais entre 29% e 31%.

A UCA realiza dois cálculos sobre a pobreza. O mais moderado alerta que já faz dois anos que o panorama social começou a piorar, ou seja, depois da reeleição de Cristina Kirchner e dos posteriores controles cambiários para evitar uma desvalorização – que acabou ocorrendo, com impacto na inflação e num menor nível de atividade econômica (1% de expansão no primeiro bimestre de 2014). A porcentagem de pobres, segundo o indicador mais moderado da Universidade Católica, aumentou de 22,9% em 2011 para 24,5% em 2012 e 25,6% em 2013. Isso significa que 10 milhões de argentinos eram pobres no ano passado. A cifra teria crescido em 2014.

A divulgação dos dados da UCA e de outras fontes que situaram a pobreza acima de 30% fez com que diversos ministros do Governo de Cristina Kirchner respondessem que o índice é muito menor que em 2003. “Como é possível que haja a mesma pobreza se foram criados quase 6 milhões de postos de trabalho e juntamente com isso foram adotadas as políticas sociais de maior cobertura em toda a história argentina?”, argumentou o ministro da Economia, Axel Kicillof. Da melhora em relação a 2003 não cabem dúvidas, mas o debate agora é se a diminuição obtida no Governo de Cristina Kirchner foi de apenas dois pontos porcentuais entre 2007 e 2013, bastante menor que a conseguida nesse período por Brasil, Venezuela, Uruguai, Colômbia ou Peru.

O bispo à frente da Pastoral Social da Igreja argentina, Jorge Lozano, defendeu a estatística da UCA e disse: “Desde 2008 [ano que começou com um encarecimento internacional dos alimentos, prosseguiu com o conflito agrário argentino e acabou com a grande recessão mundial] estagnou-se a saída de pessoas da pobreza, que teve até um leve aumento”. Ele acrescentou: “Pediram a um sacerdote de minha diocese [Gualeguaychú, na província oriental de Entre Ríos] ajuda para uma família. Então ele levou dois litros de leite e, chorando, contou-me que nessa casa fazia duas semanas que os meninos não tomavam esse produto básico”. O rosto da pobreza também se vê no Obelisco de Buenos Aires, onde moradores de favelas acampam há duas semanas para exigir moradias dignas.