Bernie Ecclestone, o dinheiro, todo o dinheiro e nada mais que o dinheiro

Temido e reverenciado, o dono da Fórmula 1 se senta no banco dos réus desde quinta-feira, acusado de corrupção e suborno. Um capítulo a mais na peculiar vida de quem fez do êxito e dos milhões sua bandeira, venham de onde vierem

O dono da Fórmula 1, Bernie Ecclestone.
O dono da Fórmula 1, Bernie Ecclestone.MICHAELA REHLE (REUTERS)

Bernie Ecclestone chegou na quinta-feira ao Tribunal do Distrito de Munique sorridente e de bom humor. “Faz um dia muito ensolarado e tenho muita confiança”, disse ele aos repórteres que o esperavam. Já na sala, o poderoso chefão da Fórmula 1 continuou demonstrando bom humor. “As duas coisas. Mas gosto sobretudo de acordar na condição de divorciado”, respondeu ao juiz com ironia quando ele quis esclarecer se está casado ou divorciado porque os documentos afirmavam que Ecclestone está divorciado, mas ele achava que estava casado.

O juiz Peter Noll, o mesmo que em 2012 condenou a oito anos de prisão o banqueiro alemão Gerhard Gribkowsky por aceitar um pagamento de 32 milhões de euros (99,3 milhões de reais) de Ecclestone anos atrás, quando em 2006 o banco no qual trabalhava, o BayernLB, vendeu ao fundo de investimentos CVC o pacote de 47% da F1 que os alemães controlaram entre 2002 e 2006. Naquele julgamento ficou claro que Gribkowsky embolsou o dinheiro de forma ilegal. Agora terá de ser determinado se aquele pagamento foi, além disso, um suborno pago por Ecclestone para se assegurar de que a venda do pacote de ações do BayernLB não iria impedi-lo de continuar controlando a Fórmula 1. Ou se, como diz o magnata britânico, entregou esse dinheiro porque Gribkowsky o estava chantageando e havia ameaçado denunciá-lo “com dados falsos” ao fisco britânico.

É difícil imaginar que aos 83 anos esse homem, com uma fortuna pessoal estimada em cerca de 4 bilhões (12,41 bilhões de reais) e uma agenda que lhe permite relacionar-se habitualmente com primeiros-ministros, presidentes, príncipes e reis de todo o mundo, o grande chefão da Fórmula 1, o homem que se fez a si mesmo, que quando criança ganhou seus primeiros centavos entregando jornais e os investiu em pãezinhos que revendia aos colegas de classe, que na juventude montou um negócio de venda de peças de reposição de automóveis porque era apaixonado por carros e acabou transformando a Fórmula 1 em uma paixão de especialistas no espetáculo esportivo (talvez) mais visto do planeta, possa acabar na prisão.

Ecclestone, com suas filhas Tamara e Petra.
Ecclestone, com suas filhas Tamara e Petra.

Mas o Tribunal do Distrito de Munique é o mesmo que há pouco mais de um mês condenou a três anos e meio de prisão por fraude fiscal Uli Höness, herói da seleção alemã de futebol nos anos oitenta e presidente do clube mais poderoso do país e um dos mais poderosos da Europa, o Bayern de Munique.

Ecclestone pode ser condenado a até 10 anos de prisão. Embora um processo criminal exija um nível de provas superior ao de um processo civil ou administrativo, os precedentes imediatos não são bons para ele. Não só por que Gribkowsky, já condenado, vai testemunhar agora contra ele, mas porque as coisas não saíram muito bem para o multimilionário britânico quando há alguns meses o caso chegou, para esclarecimento de uma questão paralela, ao Tribunal Superior de Londres. Em fevereiro, a sala londrinense concluiu que os acordos entre Ecclestone e Gribkowsky não haviam causado prejuízo à empresa alemã Constantin Medien, que se havia declarado prejudicada. Mas o juiz concluiu que Ecclestone pagou “um suborno” como parte de “um acordo corrupto” com Gribkowsky.

Até agora sua defesa não foi muito convincente. Quando lhe perguntam por que, se não tinha nada que ocultar, pagou tanto dinheiro ao banqueiro alemão em vez de chamar a polícia, ele diz que, embora as acusações fossem falsas, tinha dedicado muita energia para se defender perante a Fazenda britânica e corria o risco de acabar arcando com uma fatura de mais de 2 bilhões (6,2 bilhões de reais).

Temido e reverenciado talvez na mesma medida no mundo da Fórmula 1, a figura pequena de Ecclestone suscita menos respeito fora dos circuitos. As obscenas quantidades de dinheiro movimentadas ao seu redor, o luxo e a extravagância com que vivem suas filhas e o caráter reacionário de suas ideias políticas e sociais o transformam em um personagem com o qual é difícil simpatizar.

Filho de um pescador, Bernie Ecclestone nasceu em 1930 em uma vilazinha de Suffolk e a família se transferiu para Londres em 1938. Nos anos 50 já estava envolvido com o mundo das corridas, mas seu primeiro grande passo na direção da fama e do dinheiro foi dado em 1970, quando conseguiu se transformar no agente do legendário piloto Jochen Rindt, embora ele tenha morrido nesse mesmo ano em um acidente em Monza.

O milionário com Slavica Radic, a que foi sua segunda esposa.
O milionário com Slavica Radic, a que foi sua segunda esposa.

Pouco se sabe de seu primeiro e efêmero casamento com Ivy Bamford, com quem em 1955 teve a primeira filha, Deborah. Algo, mas não muito mais, se sabe de sua longa relação com Dora Tuana Tan, uma mulher de Cingapura com a qual viveu entre 1965 e 1982. Nesse ano conheceu Slavica Radic, com quem se casou em 1984, teve duas filhas, Tamara e Petra, e se divorciou em 2009, a um custo estimado em 1,1 bilhão de dólares (2,46 bilhões de reais ao câmbio atual). Ecclestone se casou em agosto de 2012 com a brasileira Fabiana Flosi, que tinha então 36 anos.

Se de sua filha Deborah pouco se sabe, de Tamara e Petra se sabe demais. Principalmente de sua atribulada vida sentimental e seu gosto por esbanjar. Nascida em 1988, Petra é, claro, estilista de moda de não muito sucesso e em 2011 se casou com o namorado de longa data, o milionário colecionador de arte James Stunt, com quem vive em uma mansão de mais de 5.000 metros quadrados em Los Angeles. Seu casamento, em um castelo medieval ao norte de Roma, custou quase 15 milhões de euros (46,5 milhões de reais), e os convidados beberam Château Petrus a quase 15.500 reais a garrafa.

Mas a vida de Petra é terrivelmente tediosa se comparada com a de sua irmã mais velha, Tamara. Embora seu casamento na Riviera francesa em 2013 com um corretor acusado de calote, o qual havia conhecido um mês antes, Jay Rutland, tenha custado menos da metade que o de Petra, Tamara havia namorado em 2002 um rapaz ao qual anos depois denunciou por chantagem ––ele ameaçava revelar segredos de alcova– e em 2010 saiu com um tal de Omar Khyami, do qual se separou depois que Ecclestone recebeu um vídeo sobre as façanhas bélicas de Omar na cama com outras mulheres.

Tamara tentou convencer os britânicos de que sua vida era digna de ser admirada, protagonizando um programa de televisão chamado A Garota do Bilhão de Dólares, no qual condenou a imagem que as pessoas tinham dela como “um ser humano inútil, mimado, sem conteúdo e vazio”. A plataforma que lhe permitia tirar a Ferrari da garagem de sua casa de Chelsea sem ter de manobrar, seus 200 pares de sapatos e sua coleção de bolsas Birkin, algumas delas avaliadas em quase 30.000 euros (93.100 reais), não ajudou a dissipar os estereótipos que circulam sobre ela. Tamara, no entanto, acredita que o problema é que na Europa há uma cultura da inveja que impede as pessoas de admirarem as conquistas de pessoas de êxito como seu pai.

Ecclestone, com Fabiana Flosi, sua mulher atual.
Ecclestone, com Fabiana Flosi, sua mulher atual.

Quanto a ele, ninguém nega sua habilidade para conseguir dinheiro. Mais discutível é, porém, que esse êxito se baseie muitas vezes em negócios de gosto duvidoso com regimes semifeudais no Oriente Médio, embora não seja necessário ir tão longe para questionar a escolha de seus parceiros nos negócios.

Também causam alvoroço algumas de suas opiniões. Bernie Ecclestone é o homem que acredita que as mulheres, e em especial as mulheres que querem pilotar carros, “deveriam se vestir de branco, como os outros eletrodomésticos caseiros”. É também o homem que acredita que, o que quer que tenha feito, a Hitler não se pode negar que tinha “o dom de comando e capacidade para conseguir que as coisas fossem feitas”. Algo que, na sua opinião, não se pode dizer das democracias. E há apenas algumas semanas se alinhou com as posições homofóbicas de Vladimir Putin e assegurou que não é o único: “90% das pessoas estão de acordo com isso”.