Os mosquitos transgênicos estão livres para combater a dengue no Brasil

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança aprovou a comercialização no Brasil da variante OX513A do Aedes Aegypti, um inseto macho que impediria o ciclo biológico da espécie

Um mosquito Aedes aegypti.
Um mosquito Aedes aegypti.GUSTAVO AMADOR (EFE)

O Brasil acaba de autorizar o uso de mosquitos Aedes Aegypti geneticamente modificados com o propósito de dar um passo crucial no combate à dengue, após o registro no ano passado de 1,5 milhão de casos diagnosticados e 545 mortes no país. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), um órgão dependente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, aprovou neste mês por 16 votos a favor e um contrário a comercialização no Brasil da variante OX513A do Aedes Aegypti, um inseto macho com dois genes adicionais que não permitiriam dar continuidade ao ciclo biológico da espécie. Depois da manipulação genética, o mosquito poderá procriar, mas seus descendentes morreriam antes de chegar à fase adulta. O objetivo principal dessa técnica é reduzir a população do Aedes Aegypti, o principal transmissor da dengue ao ser humano mediante uma simples picada. No entanto, algumas organizações alertam que não existem provas científicas que endossem esta tese e do risco biológico que poderia supor a erradicação do inseto.

A companhia britânica Oxitec será a encarregada de iniciar a produção em massa do Aedes Aegypti OX513A após três anos de experiências em colaboração com a organização social brasileira Moscamed. A decisão do Governo brasileiro se apoia em duas experiências desenvolvidas na cidade de Juazeiro, no interior do Estado de Bahia, onde a liberação em massa de mosquitos transgênicos provocou, segundo os pesquisadores, uma diminuição de 81% e de 93% da população do Aedes Aegypti. Os exemplares liberados sobrevivem entre 2 e 4 dias, de forma que a população da espécie cresce artificialmente de maneira exponencial para depois despencar. Os machos transgênicos não picam e só as fêmeas têm a capacidade de transmitir a dengue.

No entanto, a CTNBio advertiu que a liberação em massa do Aedes Aegyptis deve ser acompanhada de um controle exaustivo da população de outra espécie transmissora, a Aedes Albopictus, “devido ao risco de que esta ocupe o nicho ecológico gerado pela supressão do Aedes Aegypti”. Essas observações já estão em andamento em uma terceira experiência desenvolvida em Jacobina, uma localidade de 80.000 habitantes também baiana, e onde a Moscamed está libertando milhões de mosquitos transgênicos para analisar o comportamento do Albopictus. Segundo os pesquisadores, já existem evidências de que é necessário libertar 500 mosquitos transgênicos semanais por habitante para garantir uma diminuição da população do Aedes.

“Como cientista, não posso afirmar que o risco é zero, da mesma maneira que uma vacina também não tem uma eficácia de 100%. O que posso dizer é que o projeto funciona e que o potencial deste inseto geneticamente modificado é muito bom. É importante que tomemos algumas precauções, como realizar todos os controles de qualidade na produção. Não podemos lançar no mercado mosquitos com deficiências, ou deixar escapar fêmeas. Seria como vender leite contaminado”, explica a bióloga molecular especializada em mosquitos e pesquisadora do projeto, Margareth Capurro.

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil tem 321 cidades em situação de risco e 725 em estado de alerta ante uma possível epidemia. Todos os anos, no período de chuvas registrado a partir de março, incontáveis municípios brasileiros entram em um tipo de histeria coletiva gerada pela explosão da dengue, que provoca vômitos, febre e dores musculares, e contra o qual ainda não existe nenhuma vacina de eficácia comprovada. A grande preocupação reside em que sua variante hemorrágica pode levar à morte. Até agora, os únicos meios de prevenção se resumem a evitar o acúmulo de água parada (que se convertem em criadouros para o Aedes Aegypti), o uso de repelentes contra a picada de insetos ou a pulverização de pesticidas, que podem oferecer riscos à saúde humana.

Depois da luz verde da CTNBio, que se limita a reforçar a segurança da comercialização do Aedes Aegypti, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) terá de aprovar o registro comercial do produto e controlar sua saída ao mercado. Segundo Capurro, a libertação do mosquito transgênico “não persegue a erradicação da espécie, senão a redução de sua população a níveis que minimizem a transmissão da dengue”. No entanto, a cientista lembra que a mesma espécie, que tem sua origem em Cingapura e chegou ao Brasil a bordo de barcos e aviões, foi erradicada no Brasil na década de 50 mediante o uso de inseticidas. Sua reintrodução ocorreu nos anos 80.

Segundo o diretor-executivo da Oxitec, Hadyn Parry, “o perfil ambiental benéfico e sua excelente eficácia comprovada fazem com que o mosquito Oxitec seja uma nova e valiosa ferramenta para complementar os esforços das autoridades sanitárias de todo o mundo na luta contra os mosquitos que transmitem a dengue”.

"Não há dados que demonstrem que esse mosquito reduza a incidência da dengue”, contradiz Gabriel Fernandes, assessor da organização brasileira de agricultura familiar e agroecologia AS-PTA. "Ineficazes e perigosos, os insetos transgênicos da Oxitec são uma má vitrine para as exportações britânicas para o Brasil. Uma tentativa desesperada de apoiar a biotecnologia britânica e de recompensar os investidores de capital de risco não deve cegar os Governos do Reino Unido e do Brasil ante os riscos dessa tecnologia", assegura Helen Wallace, diretora da organização britânica GeneWatc.