Putin nega a Obama que a Rússia esteja incentivando as desordens na Ucrânia

O presidente russo pede a seu homólogo que intervenha junto a Kiev para que não utilize a força no leste ucraniano

O presidente russo, Vladimir Putin.
O presidente russo, Vladimir Putin.ALEXEI NIKOLSKY (AFP)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, negou categoricamente a seu homólogo norte-americano que Moscou esteja por trás dos ativistas pró-Moscou que estão causando desordens no leste da Ucrânia. De acordo com a versão do Kremlin sobre a conversa por telefone que ambos os líderes tiveram nesta segunda-feira, o dirigente russo teria pedido a Barack Obama que intervenha junto ao Governo de Kiev para que este deixe de utilizar a força contra os manifestantes dessa região do país. A Casa Branca, que apontou diretamente a Rússia como a principal instigadora das desordens na Ucrânia, não ofereceu ainda a sua versão do telefonema.

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Longe de assumir alguma responsabilidade, Putin assegurou que as acusações sobre o envolvimento de seu país são “especulações baseadas em informação imprecisa” e atribuiu a principal causa da crise à incapacidade do Governo interino ucraniano, que o Kremlin não reconhece, de assumir a missão de manter a paz e a segurança no país.

“As atuais autoridades ucranianas devem pensar primeiro em como envolver todas as principais forças políticas da região em um processo transparente para o desenvolvimento de uma nova Constituição que garanta os direitos fundamentais e as liberdades de todos os seus cidadãos, uma estrutura federal e seu status de país não alinhado”, demandou o presidente russo. Os pedidos de Putin têm sido defendidos por seu ministro de Assuntos Exteriores, Serguei Lavrov, nas diferentes reuniões realizadas ao longo das últimas semanas com seus homólogos dos EUA e da União Europeia, John Kerry e Catherine Ashton, respectivamente.

A Casa Branca acusou nos últimos dias o Kremlin de apoiar os ativistas pró-Rússia, denunciando uma pauta similar à que derivou na anexação da Crimeia. O próprio secretário de Estado encaminhou a Lavrov essa convicção no último sábado, durante outra conversa por telefone. No domingo, o Departamento de Estado publicou em sua página de internet alguns itens que considera como provas do envolvimento russo nos ataques a edifícios governamentais na região de Donetsk. Entre eles estão o fato de que os invasores possuem uniformes do Exército russo e que as agressões nas principais cidades do leste da Ucrânia sejam simultâneas e calculadas. Sem contar as denúncias do Governo de Kiev da participação de membros dos serviços de inteligência de Moscou nessas operações.

Putin quis também transferir a carga da responsabilidade a Obama, ao pedir que trate de dissuadir o presidente ucraniano, Alexander Turchinov, de lançar o Exército contra os manifestantes pró-Moscou, em cumprimento ao ultimato que lançou no domingo. Nesta mesma segunda-feira, o mandatário norte-americano elogiou a contenção demonstrada nas últimas semanas pelo Governo ucraniano durante outra conversa telefônica, desta vez com seu homólogo francês, François Hollande.

Ambos os mandatários coincidiram em afirmar que a “Rússia enfrentará novas consequências se continuar com sua atitude”, de acordo com a Casa Branca.

Desde que eclodiu a crise na Ucrânia, Obama e Putin se falaram meia dúzia de vezes. A duração e o tom dos telefonemas variaram, mas nenhuma serviu para atenuar a tensão na região. A última, em 28 de março último, parece ter aberto um tímido sentido de aproximação, já que foi Putin quem defendeu a busca de uma “solução diplomática”. Desde então, Kerry e Lavrov se reuniram sem chegar a avanços, as tropas russas têm se acumulado na fronteira com a Ucrânia e homens uniformizados tomaram vários edifícios governamentais das principais cidades do leste do país seguindo o mesmo padrão que há um mês culminou na anexação da Crimeia.

Obama alabou a contenção demonstrada nas últimas semanas pelo Gobierno ucranio durante outra conversa telefônica que manteve com seu homólogo francês, François Hollande

Nas últimas semanas, a cada uma das ações desestabilizadoras da Rússia na região de Donetsk, os EUA responderam com insinuações sobre a cumplicidade do Kremlin em relação aos insurgentes pró-Moscou e com ameaças de novas sanções, mas a tensão só aumentaria. O Governo segue defendendo a eficácia das medidas de punição, argumentando que seu impacto se faz notar na economia russa, com um rublo em queda constante e um crescimento da desconfiança dos investidores internacionais. No entanto, no curto prazo, as multas já não estão conseguindo o efeito de dissuasão pretendido pela Casa Branca, que é o de que Moscou abandone a Ucrânia, retire suas tropas da fronteira e permita a realização de eleições no país sem transtornos.

Nesta manhã, a União Europeia consentiu em ampliar a lista de membros do Kremlin e afins como alvos de sanções, mas evitou estender os castigos aos setores energético e industrial russos. A Casa Branca segue afirmando que está seguindo de perto o desenvolvimento dos acontecimentos na Ucrânia para determinar quais novas medidas aplicar e, embora não descarte as multas energéticas, não parece que vá adotá-las sem a anuência de uma Bruxelas reticente ante a sua dependência da Rússia.

O porta-voz da presidência, Jay Carney, também reconheceu nesta segunda-feira que o diretor da CIA, John Brennan, esteve durante o fim de semana na Ucrânia, como denunciavam as autoridades russas, mas apenas como parte de uma visita rotineira aos parceiros europeus e não para provocar Moscou. A tensão vai além do leste da Ucrânia. Nesta segunda-feira, o Pentágono informou sobre manobras aéreas de aviões russos a uma distância muito próxima de um dos destroyers que a armada norte-americana possui no mar Negro. Carney tratou de minimizar o episódio, embora tenha acusado o Exército russo de dirigir ações “provocativas e pouco profissionais”. Negando que esses incidentes possam ser um prelúdio de uma nova guerra fria, o porta-voz da Casa Branca deixou claro que “Rússia e EUA vão seguir trabalhando naquilo que seja de mútuo interesse, como as negociações sobre o programa nuclear do Irã”.

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