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A Rússia exporta 27% das armas adquiridas no mundo

Moscou se torna o segundo maior fornecedor global, atrás dos EUA

Um tanque russo no desfile do Dia da Vitória em Moscou em 2008. Ampliar foto
Um tanque russo no desfile do Dia da Vitória em Moscou em 2008. REUTERS

A Rússia se consolida no mundo como um grande exportador de armas. A indústria bélica do país não se limita apenas a abastecer o seu próprio Exército – um mercado potencializado por um intenso programa de rearmamento em médio prazo –, como também impulsiona suas vendas além das fronteiras nacionais. Segundo um relatório publicado em março pelo Instituto Internacional de Estocolmo para Pesquisas da Paz (SIPRI, na sigla em inglês), entre 2009 e 2013 a Rússia aumentou para 27% a sua participação no mercado bélico internacional, apenas dois pontos percentuais a menos que os EUA, o maior exportador mundial.

O aumento das exportações russas “se deve principalmente à grande quantidade de material bélico adquirido pela Índia e às relações comerciais com os países que faziam parte da União Soviética, exceto as repúblicas bálticas [Estônia, Letônia e Lituânia], membros da OTAN, e que por isso não têm relações com a Rússia nesse âmbito”, explica por telefone Siemon T. Wezeman, pesquisador do SIPRI.

Entre 2008 e 2013, Nova Délhi aumentou seu gasto militar em 11%, sendo hoje o maior importador do mundo. Do total de aquisições militares indianas, 75% procedem da Rússia.

Já a venda para as antigas repúblicas soviéticas na Ásia Central atende à “vontade de Moscou de criar as condições para rebater o fortalecimento dos grupos terroristas afegãos”, afirma Wezeman.

O aumento das exportações russas, no entanto, vai além da Ásia. O fato de os Estados Unidos terem imposto “um embargo de facto” à venda de armas para a Venezuela transformou a Rússia no primeiro fornecedor para o país latino-americano, uma vez “Washington impede também a venda de armas europeias fabricadas com componentes produzidos nos EUA”, observa o pesquisador.

Moscou impulsionou suas vendas também na África. Segundo os dados de outro relatório sobre gastos militares publicado na segunda-feira pelo SIPRI, 91% do armamento adquirido pela Argélia entre 2009 e 2013 procedia da Rússia.

O país magrebino, junto com Gana e Angola, é o principal protagonista da elevação do orçamento militar no continente mais pobre do planeta, que subiu 81% entre 2004 e 2013 – apesar de a África do Sul ter diminuído seu gasto em defesa. Trata-se do aumento mais significativo em nível global.

Argel aumentou seu orçamento em 176% desde 2004, enquanto no mesmo período seu PIB cresceu 31%. Uma escalada militar que fez com que “Marrocos aumentasse seu gasto por medo de um vizinho tão ameaçador”, afirma por telefone Sam Perlo-Freeman, diretor do programa sobre gasto militar do SIPRI. Em Angola, o orçamento militar subiu em 2013 para 4,8% do PIB. Em 2002, quando o país acabava de sair da guerra civil, não chegava a 3%.

Perlo-Freeman vincula a ascensão do gasto militar, tanto na África como em outros continentes, ao aumento das rendas derivadas da exportação do petróleo. Um dos motivos desta relação é que “a venda de petróleo bruto gera uma entrada de receita nos cofres públicos que é alheia à arrecadação de impostos e que pode ser investida rapidamente, já que a defesa é parte do orçamento público”.

O pesquisador atribui esse crescimento também a razões políticas: “Na Arábia Saudita e na Argélia o rearmamento representa uma estratégia do Governo para garantir a fidelidade do Exército”.

Em outros países, entretanto, a lógica do rearmamento está ligada ao fato de essas economias se apoiarem quase exclusivamente em seus recursos naturais, sem que haja planos de desenvolvimento industrial e produtivo. “O Chade assegurou que usaria os lucros da exportação de petróleo para projetos de desenvolvimento. Não cumpriu o prometido, e o Banco Mundial deixou de apoiar os planos de construção de gasodutos dos quais participava”, afirma o pesquisador do SIPRI.

Em outros casos, entretanto, o aumento do gasto militar está ligada à crescente participação em operações de paz. Gana, muito ativa nesse âmbito, aumentou seu orçamento militar em 243% entre 2004 e 2013. “Frequentemente, esses países recebem como reembolso dos seus gastos em operações internacionais mais do que desembolsam, e reaplicam esse dinheiro [na compra de armamento]”, esclarece Perlo-Freeman.