“A expectativa é tão grande que às vezes me pergunto se posso lidar com isso”

Entrevista com Luis Guillermo Solís, presidente eleito da Costa Rica e porta-voz este ano da CELAC

Luis Guillermo Solís, presidente eleito da Costa Rica.
Luis Guillermo Solís, presidente eleito da Costa Rica.Roberto C. Sánchez

Luis Guillermo Solís não acreditou que pudesse receber tantos votos e se sente um pouco culpado por duvidar. Com o 1,3 milhão de costarriquenhos, este acadêmico de 56 anos se põe à frente de altíssimas expectativas de mudança de distintos setores neste país estancado entre seus êxitos, suas ambições e suas falhas, tanto econômicas como sociais. Ele se põe também à frente da política internacional, como mandatário neste ano em que a Costa Rica ocupa a presidência pro tempore da Comunidade de Estados da América Latina e do Caribe (CELAC). Essa é a especialidade deste ex-diretor regional da Secretaria Geral Ibero-americana (SEGIB), que se define como um “homem de diálogo”, embora alerte que isso tem seus limites com a vizinha Nicarágua. Daniel Ortega não será convidado à sua cerimônia de posse no dia 8 de maio.

Pergunta. O que muda nos seus planos políticos depois desse resultado esmagador?

Resposta. Isso me obriga a assumir com muito mais força o compromisso com a mudança. Se antes já estava comprometido, agora tenho de fazê-lo com mais determinação. Recebi um mandato esmagador que não deixa margem para não fazer o que me estão pedindo. É quase um grito o que estou recebendo.

P. Mudam as prioridades ou as margens políticas?

R. As prioridades são as mesmas e essa votação em certo sentido está ratificando as prioridades. A mudança está, sim, nos tempos. O problema é que algumas dessas decisões e nem todas as demandas das pessoas, complexas como são, têm a ver com o Poder Executivo.

P. A ansiedade popular representa um problema para suas primeiras decisões?

R. As pessoas não estão tão ansiosas pelos detalhes, mas pelos resultados, e eu ainda não sou o Presidente em exercício. Com sua confiança, as pessoas me deram uma responsabilidade. Disseram-me: ‘Precisa de 1 milhão de votos? Tome 1 milhão e 300 mil’. Estão me pedindo que mude as coisas com contundência. Por exemplo, pedem-me que reduza o preço da luz (a tarifa industrial é o triplo da dos Estados Unidos) e então estou pedindo opções, três ou quatro, para fazer isso logo no começo.

P. A essas alturas de seu projeto político, não deveria saber já como baratear a energia?

R. Por isso tenho uma equipe de economistas e especialistas em energia. Nós propusemos algo que as organizações de consumidores não aceitaram. Então, estamos buscando outros métodos.

P. Sempre vai encontrar setores contrários a seus planos.

R. Claro, estamos envolvidos com nossas próprias lógicas. No ICE (Instituto Costarriquenho de Eletricidade) são a favor de manter zero na cogeração de eletricidade e zero na exportação de energia, ou em termos que não se tornam rentáveis. O setor privado quer uma abertura total e diz que nenhuma outra opção é suficiente. E tenho consumidores industriais e domésticos pedindo que baixemos já as tarifas. O que eu quero é ver todas as opções.

P. Caímos aqui nos tema das altas expectativas que incidem sobre os seus ombros. Muitos setores querem que o novo governo, esse que conseguiu encantar na campanha, solucione seus problemas particulares.

R. Isso é certo em parte, mas há pessoas que estão pedindo soluções com um olhar mais amplo e um horizonte de mudança mais longo, com acordos nacionais que, sabe-se, não serão imediatos e levarão anos, como a reforma necessária no sistema educacional. As pessoas entendem isso. O que não querem é a imobilidade.

P. Seu estrategista de campanha dizia que o ambiente político, de polarização e desencanto, estava propenso para um outsider e que o senhor era o mais parecido. O senhor se vê como um outsider?

R. Não, de modo algum. Seria um exagero dizer que sou um outsider, mas me considero, sim, um político não tradicional, ou pelo menos um político não profissional. Não tenho vivido da política. Quando participei da política foi a política que viveu de mim. Quando estive no PLN não me endividei uma barbaridade financiando um partido que não me pagava salário como secretário geral, Nunca fui deputado nem participei de consultoria dessas de partido... foi mais o contrário, fiquei mal depois de dois anos de trabalho ali.

P. Um político não tradicional que era um candidato inviável e acabou com um apoio esmagador. Como se explica isso?

R. O povo atendeu ao chamado que fizemos de maneira totalmente disciplinada. Na verdade, às vezes me sinto culpado por ter duvidado de que efetivamente iria fazer o que finalmente fez (resultado eleitoral de 78% contra 22% dos governistas). O interessante no povo da Costa Rica é que vai votar com lucidez, sem que ninguém o pressione ou o atemorize, com total consciência do que está fazendo. Eu me sinto muito honrado, muito comprometido e, às vezes, um pouco aturdido. O peso dessa expectativa é tão grande que às vezes me pergunto se poderei lidar com isso.

P. Como se resolve essa questão sobre se poderá lidar com isso?

R. A equipe me ajudará a fazer as coisas. Então eu me respondo que, sim, poderemos, porque não vou estar só, eu insisti na ação e na participação dos cidadãos para conduzir essa incumbência de maneira criativa e diferente de como foi feito até agora, não com um critério vertical burocrático, mas mais horizontal e com a ação cidadã.

P. Será mais complexo o processo de tomada de decisões.

R. Não necessariamente. O complexo é realizar as consultas, mas as decisões é o Poder Executivo que toma com a autoridade que lhe corresponde.

P. Pode entender que, pela campanha e o resultado eleitoral, no exterior o senhor é visto como um Fujimori que cruza o caminho tradicional do país?

R. Um Fujimori de modo algum por várias razões. Aqui não temos o fenômeno do terrorismo que explicou no Peru a escolha de Fujimori, diante da incapacidade dos partidos tradicionais de controlar o Sendero Luminoso. Segundo, havia no Peru uma corrupção rampante que aqui não temos nem de longe. Terceiro, Fujimori não só não era conhecido como também não tinha partido. Eu chego com o PAC, que é um partido estabelecido, que participou antes em três ocasiões e se transformou em um ator da política na última década, com uma estrutura frágil, sim, mas com valores mais conhecidos apesar de sua juventude (13 anos). E o mais importante: a índole do candidato. Fujimori era um ditador e sempre foi, desde o princípio foi autoritário.

P. E como é o senhor, então?

R. Sou um homem muitíssimo mais dialogante. Minha índole é a de um negociador, que busca trabalhar em equipe e que escuta antes de resolver. Não sou um indivíduo que se lança de saída contra as barricadas.

P. As pessoas estão confiando às cegas no senhor?

R. A pessoa é o que pode mostrar. Eu em política não fui mais do que o secretário geral de um partido (PLN) e funcionário duas vezes no Ministério de Relações Exteriores. A minha track record (trajetória) como dirigente político é bastante curta e não serve de prova. O que serve para dar garantias é a minha vida, sem acusações de atos indevidos, dedicado à vida acadêmica, seriedade, rigor... e daí deveria derivar a confiança em mim. Como lhe disse, sou um político não profissional e isto talvez implique riscos, mas o argumento que dou a meu favor é que esses personagens que nos governaram têm todos um track record do caralho; todos passaram antes por 40 instituições e deixaram o país como deixaram.

P. Essa “ação cidadã” que o senhor quer impulsionar, como aplicá-la sem ser populista?

R. O populismo parte de um fator que não se concebe no conceito de “ação cidadã”, que é a transferência do poder de decisão às pessoas em troca de algo. É um intercâmbio de decisões em troca de favor político, e eu não quero isso. Quero um governo responsável que escute as pessoas e lhe devolva esse apoio em obras de interesse comum. Isso não seria populismo, mas um processo de governo que responda às pessoas.

P. Não teme um efeito como o de Obama, ser depositário de altas expectativas que acabam, em boa parte, truncadas pelo sistema?

R. Poderia ser. A administração pública é carnívora e há uma série de dinâmicas burocráticas que podem acabar transformando algo que era uma nova ideia em um beco sem saída algo

São 16h12 e a entrevista é interrompida. Sua assistente lhe informa que estão lhe telefonando do Palácio de Miraflores, na Venezuela. Nicolás Maduro está do outro lado para cumprimenta-lo. Vai perguntar-lhe a data da cerimônia de transferência do cargo e sobre a esmagadora quantidade de votos que hoje o converteram no dirigente eleito com o maior apoio na história nacional. Mencionarão algo sobre a CELAC. Solís se retira da mesa e se afasta três metros em direção à janela. Vê que está chovendo depois de quatro meses sem chuva neste país chuvoso. Isto tem algo a ver com o custo da eletricidade. Foram cinco minutos de diálogo.

P. Falávamos de se absorvido pelo sistema…

R. Bom, estamos criando condições institucionais e partidárias para que isso ocorra. Muito vai depender da equipe que eu tenha.

P. O senhor tomará posse em um estádio de futebol doado pela China. Não é um sinal significativo para quem diz acreditar muito no simbólico?

R. Não, de forma alguma, é um imóvel do governo da Costa Rica. Esse estádio foi construído há anos (quatro). Eu não veria nenhum significado geopolítico no Estádio Nacional.

P. As doações da China não têm nenhum significado geopolítico?

R. Minha intenção é manter as melhores relações com a República Popular da China, mas não tenho necessidade de estar dentro do estádio para anunciar isso. A posse, se não fosse por outras razões, preferiria que ocorresse no teatro Melico Salazar (centro de San José). É uma questão de pragmatismo. Não temos outros lugares onde fazer atividades magnas com dignidade e as facilidades adequadas para a logística e a segurança.

P. O senhor convidará primeiro os presidentes da América Central.

R. Sim, vou visitá-los para fazer os convites pessoalmente.

P. Mas pulando a Nicarágua.

R. Sim porque o presidente Ortega referiu-se à Costa Rica em termos que não são aceitáveis, com pretensões de soberania sobre Guanacaste (província do Norte) e invadiu território costarriquenho. Isso não o torna um amigo. Quero manter distância enquanto não tenhamos soluções claras da Corte Internacional de Justiça.

P. Mas o senhor se diz um homem de diálogo.

R. Mas há limites. Quando se trata de ferir a soberania, não devemos passar esse limite. Enquanto continuarmos com o risco de ter essas reiteradas ameaças, não convém uma relação pessoal em nível de presidentes.

P. Não haverá então uma mudança na forma de lidar com o conflito com a Nicarágua?

R. Eu insisti em que esta é uma decisão de cunho pessoal, mas a relação binacional não deveria se ver afetada por um desacordo entre o presidente Ortega e eu. Essa seria uma diferença (com o governo atual). Temos que melhorar ao máximo as relações e lidar com a agenda binacional de forma inteligente.

P. O desenvolvimento da Costa Rica aposta nas exportações, na atração de investimento estrangeiro e de turistas. Qual a marca do país que o senhor quer projetar?

R. Acho que a Costa Rica tem suficiente pedigree para mostrar na América Latina, sempre e quando corrijamos algumas das discussões que se converteram em fardos pesados do modelo de desenvolvimento que estamos implementando, que têm a ver fundamentalmente com pobreza, inequidade, corrupção e com o manejo da administração pública. Temos uma administração pública pouco eficiente. Se conseguirmos superar essas lacunas, a Costa Rica continuará sendo exemplar pela estabilidade de seu sistema político, em sua vocação ambiental e em seus princípios habituais no âmbito internacional. A Costa Rica foi durante muitas décadas um modelo relativamente excepcional e não precisa de paradigmas que não sejam os próprios.

P. O senhor tem o desafio de convencer o setor empresarial.

R. Pode ter certeza de que um governo do PAC encabeçado por mim não poria em risco os investimentos privados.

P. Atreve-se a se colocar uma meta de crescimento para a economia costarriquenha que ultrapasse 4%?

R. Eu gostaria da cifra mágica que sempre se invoca como o mínimo para garantir a sustentabilidade do investimento na Costa Rica, que é 6%. Mínimo.

P. Vê isso possível?

R. Temos uma tarefa interna pendente, mas também há outros fatores. Enquanto nossos mercados mais fortes (Estados Unidos e Europa) não se recuperarem e não possamos reativar o turismo, que está tão ligado à capacidade dessas economias se recuperarem, será difícil, mas minha aspiração são esses 6%.

P. Por que a Costa Rica, que hoje cresce menos de 4% e tem um déficit de mais de 5%, com sua economia pequena e dependente de mercados em crise, pede para entrar na OCDE?

R. A entrada na OCDE nos daria um marco de referência que poderia facilitar muitos investimentos mediante a aplicação de boas práticas do modelo produtivo nacional, o que nos tornaria uma economia mais moderna e competitiva. A questão é quantos recursos vamos ter de investir para entrar; poderíamos estar acelerando demasiado os tempos para ter acesso à OCDE. Eu gostaria de analisar com mais calma os procedimentos e as obrigações que se assumem para não colocar pressão sobre este país que tem ainda prioridades como sanar a pobreza extrema e reativar a economia interna.

P. Seu governo vai se integrar à Aliança do Pacífico (com Peru, Colômbia, Chile e México). O senhor disse a EL PAÍS em fevereiro que o país deveria participar dela.

R. Antes de assumir o governo poderei conhecer em detalhes as posições da Aliança do Pacífico em dois assuntos particulares que são muito sensíveis: a redução de tarifas aduaneiras para certos produtos industriais e agropecuários. Até agora não pude ter acesso a essas informações. Se isso lesar setores estratégicos tentaremos modificar algumas cláusulas.

P. Já há setores advertindo que serão prejudicados, como os empresários industriais e os agropecuários, que pedem que se rejeite rotundamente a Aliança do Pacífico.

R. Eu ainda não chegaria a esse ponto porque quero saber em detalhes o que diz o tratado e as avaliações que foram feitas pelo Ministério do Comércio Exterior, que esteve negociando a questão.

P. E o Acordo de Associação Transpacífico (TPP em inglês) com países asiáticos?

R. Já isso não. Não me vejo fazendo essa negociação sem ter resolvido antes a questão da Aliança do Pacífico...

Novamente interrompe sua assistente. Agora quem o chama é Enrique Peña Nieto para felicitá-lo pelo México e também para lhe perguntar a data da cerimônia da posse. Já parou de chover. Não parece arriscado pensar que as altas expectativas sobre Luis Guillermo Solís não vêm apenas dos cidadãos costarriquenhos, agora que a Costa Rica preside a CELAC.

P. O que o senhor pode esperar da CELAC?

R. Para mim, a CELAC é uma organização que abre um espaço inédito na América Latina. Eu a considero da maior importância. É uma conquista ter encontrado um espaço para que a região delibere por si mesma com todos os tipos de governos; é um espaço plural e temos na Costa Rica a responsabilidade de administrá-lo como presidência pro tempore. Já há reuniões programadas, algumas da máxima importância como o encontro entre CELAC e os BRIC em Recife, em julho. Acho que será a minha primeira intervenção como presidente da CELAC num encontro que reunirá o Brasil, a África do Sul, a China, a Rússia e a troika da CELAC (Cuba, Costa Rica e Equador).

P. O senhor sabe da preocupação de Washington pela evolução que possa ter a CELAC, como um espaço que pode reduzir o peso de outros onde os EUA tem protagonismo, concretamente a Organização dos Estados Americanos (OEA)

R. Não são mecanismos adversários, mas complementares. Eu me atrevo a dizer que a OEA é insubstituível porque é depositária do direito internacional americano com as normas sobre os Direitos Humanos, crianças, mulheres, a luta contra as armas nucleares. Não se pode comparar com um fórum estritamente político como a CELAC. Para a Costa Rica, não são fóruns excludentes.

Luis Guillermo Solís apresenta nessa segunda-feira sua equipe de governo e, portanto, o ministro da Presidência (Casa Civil), que será chave para se comunicar com os setores políticos e sociais, e o de Relações Exteriores, embora se espere que Solís se aproprie das tarefas da política externa. Também há expectativas com relação à sua equipe econômica e ao titular de Obras Públicas e Transportes, um dos setores que concentra as insatisfações dos costarriquenhos.