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ELEIÇÕES MUNICIPAIS NA FRANÇA

Os socialistas franceses sofrem uma derrota histórica nas eleições municipais

A centro-direita arrebata o Partido Socialista em dezenas de grandes cidades e conquista vários redutos históricos

A Frente Nacional ganha ao menos oito prefeituras, o melhor resultado de seus 42 anos

Anne Hildalgo, futura Prefeitura de Paris.
Anne Hildalgo, futura Prefeitura de Paris. REUTERS

O segundo turno das eleições municipais na França confirmou neste domingo as piores previsões para François Hollande e o Partido Socialista. Com uma abstenção recorde, próxima a 38%, quase quatro pontos mais que em 2008, e uma elevada porcentagem de votos nulos, os primeiros resultados oficiais apontam um monumental voto de castigo para os socialistas, que conseguiriam manter Paris, mas perdem dezenas de cidades importantes – Toulouse, Bastia, Pau, Tours, Angers, Reims, Quimper, Saint-Étienne... – às mãos da centro-direita. A aliança conservadora UMP com os centristas da UDI e do MoDEM aparece nas urnas como a vencedora indiscutível, e ajuda à direita a se recuperar das derrotas sofridas nas eleições presidenciais e legislativas de 2012.

A Frente Nacional se transforma pela primeira vez em uma imponente força política local ao conseguir ao menos oito prefeituras das 15 as que concorria no segundo turno, um resultado que passa a ser o melhor de seus 42 anos de história e um indubitável êxito pessoal de Marine Le Pen, já que o partido não conseguiu nenhuma prefeitura em 2008. A ultradireita vê limitada a ressonância de seu crescimento ao não conseguir se impor em Perpinhã, Avignon – onde ganha a candidata do Partido Socialista – e Forbach, três cidades que por terem caído nas mãos de Le Pen teriam se transformado no símbolo de uma nova era.

O descontentamento do eleitorado com o Executivo socialista e a falta de popularidade recorde de seu líder, François Hollande, se manifestaram nesse segundo turno com mais nitidez que há uma semana. Os maus resultados da primeira votação não conseguiram mobilizar os eleitores de esquerda nas grandes cidades e o PS sai ferido das eleições municipais da metade do mandato. Paris registrava às sete da noite uma abstenção de 45% ainda que pesquisas previam que a gaditana Anne Hidalgo ganharia com 54% dos votos a batalha da capital contra a aspirante da UMP, Nathalie Kosciusko-Morizet.

As nove e quinta de noite (na França), Hidalgo anunciou em seu conta no Twitter que será a primeira prefeita da capital da França, mas que essa boa notícia parecia, junta a vitória em Avignon contra o candidato da Frente Nacional, o único consolo de uma caminhada dramática para os socialistas, que compareceram sérios e cabisbaixos ao fechamentos dos colégios eleitorais.

A porta-voz do Governo, Najat Vallaud-Belkacern, admitiu que os resultados eram “maus e decepcionantes” e prometeu que o Gabienete baixará os impostos às famílias para promover uma política de mais justiça social, ainda que não quis esclarecer quando Hollande abrirá a inevitável crise do Governo.

De sua parte, Ségolène Royal, ex–candidata presidencial, e com legítimas aspirações a formar parte da nova equipe de Governo, disse que as urnas haviam enviado “uma advertência muito severa, que deve ser escutada”.

O líder da frente de Esquerda, Juan-Luc Mélenchon, afirmou que “a política de Hollande, sua virada à direita, sua aliança com os patrões e sua submissão às políticas de austeridade europeias desembocaram em um desastre”. Em janeiro, Hollande abandonou o discurso e a estratégia que o levaram a ganhar as eleições presidenciais e abraçou sem constrangimento as receitas neoliberais oferecendo um pacto pelo emprego aos empregadores e um corte de gastos públicos de 50 bilhões em três anos.

A lista de grandes cidades que oscilam do PS à centro-direita tingem claramente de azul a cor do mapa eleitoral por todo o país, e inclui bandeiras históricas do socialismo como Roubaix, Angers, Toulouse, Limoges (nas mãos da esquerda desde 1912), Quimper e Bastia. O PS perde também o domínio das listas de centro-direita Saint-Étienne, Reims, Anglet e Pau, onde se impõe o dirigente centrista, Fraçois Bayrou, com 63% dos votos.

A estes desastres há que somar a inapelável catástrofe sofrida pelo candidato socialista em Marsellha, que continua nas mãoes da UMP, e a vitória de um candidato dissidente do PS em La Rochele. Estrasburgo, Lille e Dijon resistem à mudança do clima de opinião e permanecem em poder da esquerda. Em Grenoble, os ecologistas registram sua maior vitória, também à custa de seus aliados no Governo PS.

O afundamento dos socialistas é especialmente significativo porque a centro-direita não chegava à nomeação em uma situação especialmente próspera. A União por um Movimento Popular (UMP) está dividida, não tem um líder claro e viveu uma impressionante série de escândalos nas últimas semanas: suposto desvio de fundos do presidente do partido, Jean-François Copé; gravações falsas do assessor oficial Patrick Buisson a Nicolas Sarkozy; e escutas judiciais ao ex-chefe do Estado, envolvido em seis casos de corrupção.

Copé reivindicou a ampla vitória dos seus aliados afirmando que a França havia vivido uma “onda azul”. O líder, rebatido pela metade fillonista do partido, se encorajou e exigiu de Hollande uma mudança na política fiscal e mais concretude na luta contra a estagnação. Além disso, se vangloriou de ter conseguido o maior triunfo em uma eleição municipal do partido fundado em 2002. “O primeiro partido da França é a UMP”, disse.

A renovada mensagem populista, patriota e anti-sistema de Len Pen sai também reforçada, e sua aspiração de liquidar o bipartidarismo parece começar a se confirmar. O FN aspirava ganhar uma quinzena de prefeituras, e obteve ao menos oito – o número mais alto de sua história – segundo as primeiras estimativas. Sua conquista mais chamativa é Béziers, há 20 anos nas mãos da UMP, que terá como prefeito o indescritível jornalista Robert Ménard, um antigo presidente de Jornalistas sem Fronteiras passado à extrema direita com Marine Le Pen.

A presidenta do FN se felicitou pelo resultado e anunciou que seu partido terá ao menos 1.200 vereadores. Outras cidades onde o FN governará são Fréjus, Cogolin, Viliers-Cotterets, Le Luc, Beaucaire e Hayange, que com Hénin-Beaumont, a cidade do norte vencida no primeiro turno, medirão o grau de responsabilidade de um partido que se declara pronto para governar.

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