As escolas públicas das comunidades ensinam as tradições locais

A dificuldade é o acesso ao Ensino Médio, o que faz com que muitos alunos desistam de terminar os estudos

Crianças a caminho da escola, em barco.
Crianças a caminho da escola, em barco.B.B.

Em 2011 as escolas das comunidades, que abrangem apenas o primeiro grau, ganharam mais atenção da prefeitura de Oriximiná. Concursos públicos foram abertos, professores contratados, verba da merenda recalculada, estrutura melhorada. Anízia Garcia dos Santos é uma das coordenadoras da escola pública que atende as comunidades do Abuí e do Paraná. Conta que possuem “160 alunos matriculados” e que três vezes por semana têm o projeto Mais Educação, onde as crianças participam de atividades extra-curriculares, como capoeira, letramento (apoio pedagógico), horta e dança. O benefício, segundo Anízia, é a perda da timidez e “o contato com as raízes, pois aprendem o lundum (dança africana), o carimbó (dança indígena) e as lendas quilombolas”.

Um dos grandes desafios da coordenadora da escola municipal que atende as comunidades do Abuí e do Paraná, Anízia Garcia dos Santos, é conscientizar os alunos sobre a necessidade de estudar e se capacitar, para que ocupem posições onde a maioria é branca. “Sabemos que as empresas daqui precisam de mão de obra qualificada e mostramos a situação para eles, na esperança de que se interessem”, diz. Mas a maioria termina o 9º ano e ficam em casa, ajudando os pais. Ademar Cavalcanti, consultor de mineração, concorda com Anízia e admite que “os trabalhadores começam no desmatamento mas têm dificuldade de se manter em outras fases do processo, porque têm defasagem de aprendizado e muita dificuldade em matemática”. Há apenas duas escolas estaduais que oferecem o ensino médio e estão em Oriximiná, o que dificulta o acesso dos estudantes que não têm família que lhes receba nem condições para se manter na cidade.

Além das dificuldades financeiras e de transporte, as famílias patriarcais com filhos numerosos são o principal empecilho para o estudo desses jovens. A maioria diz querer que o filho estude, mas admitem que é muito difícil deixá-lo ir à cidade grande. As histórias sobre finais infelizes abundam: o filho de fulana andou em más companhias e terminou preso, teve outro que ficou viciado em crack, o beltrano acabou morto em acidente de carro pela bebida, entre outros casos. Desta maneira, os pais receiam em soltar seus filhos no mundo, por medo de que não voltem vivos. Aqueles que desistem do estudo, inicialmente por saudade, dizem, e retornam para ajudar os pais na roça, são os mais valorizados pelas famílias, algo que não contribui para que se motivem a sair dali.

Outra razão para interromper os estudos, no caso das meninas, é a gravidez. Ainda que a escola cumpra o papel de orientar e fornecer preservativos, muitas casam cedo e, ao ter filhos, são impedidas por pelo menos por quatro anos de voltar a estudar, porque não existem creches. Anízia conta que teve dois casos como este e que decidiu “permitir que trouxessem os bebês e amamentassem durante as aulas”, já que era a única forma de não perder aquelas alunas. Muitos filhos nascem das mãos de parteiras, que ainda existem nas comunidades. O hospital mais próximo está a três horas em barco rápido e algumas vezes falta gasolina para completar a viagem de lancha.

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