Eleições municipais na França

Os socialistas franceses pedem uma mudança para Hollande

O presidente tem as mãos atadas diante do desastre eleitoral que se prevê

O socialista Patrick Mennuccien em uma coletiva de imprensa nesta terça-feira.
O socialista Patrick Mennuccien em uma coletiva de imprensa nesta terça-feira.BORIS HORVAT (AFP)

Se a eleição municipal de 2008 é vista hoje como o princípio do fim da era Nicolas Sarkozy, o primeiro turno da de 2014 se converteu em um enorme quebra-cabeça para François Hollande e para a maioria socialista que governa a França desde 2012. O ministro do Trabalho, Michel Sapin, que é um bom amigo do presidente, enfatizou na terça-feira que “é necessário mudar” e “ter em conta a mensagem de raiva” que as urnas enviaram, enquanto prefeitos, assessores e deputados expressavam seu medo, em alguns casos verdadeiro pânico, que o voto de castigo sofrido pelos socialistas no domingo passado piore ainda mais nas eleições europeias de maio e constitua um desastre similar ao que sofreu o Partido Socialista (PS) em 2002, quando a Frente Nacional (FN) se colou no segundo turno das presidenciais.

Sapin atribuiu os maus resultados do PS e o forte crescimento do Frente Nacional a um “descontentamento” expresso de duas formas diferentes: "Alguns eleitores mostraram isso ficando em casa, e outros votando na FN”. Segundo o ministro, “evidentemente faz falta mudar, evoluir”. Mas isso só será feito após o segundo turno, ainda que o horizonte das eleições europeias de 25 de maio seja ainda mais terrível que o das municipais: as sondagens colocam a ultradireita como a força mais votada, e os socialistas em terceiro lugar. Alguns membros da maioria já temem, inclusive, que os verdes superem o PS e este chegue quarto ao quarto lugar.

A expressão francesa “remaniement” (ou crise de Governo) é um clamor no partido já há alguns meses, com o inacessível, germanófilo e frio primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, na mira de todas as críticas. Mas Hollande não moveu uma palha. Preferiu mudar de política a mudar de nomes. E agora tem as mãos atadas até depois das eleições para o parlamento da União Europeia. A virada neoliberal de janeiro, que ofereceu um pacto ao patronato e prometeu a redução de impostos para as empresas e um corte extraordinário da despesa pública de 164 bilhões de reais em três anos, deve ser apresentado ao Parlamento nas próximas semanas. Grande paradoxo: o presidente indeciso é refém de sua única decisão firme.

A rejeição ao homem que há dois anos prometeu fazer da juventude e da justiça social as prioridades de seu mandato já não se mede só nas péssimas pesquisas de popularidade, que o situam em 18% e com perspectiva de queda. Em sua primeira prova eleitoral depois da vitória, 61% dos jovens de 18 a 24 anos e 55% dos que têm entre 24 e 35 anos decidiu pela abstenção. Se a isso se somam os que votaram na Frente Nacional, a capacidade para autocombustão de Hollande estabelece níveis recordes.

Até Anne Hidalgo, que saia como clara favorita para ser a primeira prefeita de Paris, pediu ao Governo que reaja e avance. Rodeado de neoliberais, refugiado no Palácio do Eliseo e na política internacional, ansioso por fazer os deveres impostos por Angela Merkel, o social-democrata Hollande renunciou suas promessas e perdeu o apoio do povo que votou nele em 2012.

O presidente da Assembleia Nacional, Claude Bartolone, fez ontem uma análise sem concessões: “Em todo o país, a juventude nos abandonou, as classes populares nos deram as costas, as classes médias nos evitaram e as periferias e o campo se meteram debaixo da terra."