Ucrânia ordena a retirada de todas as suas tropas da Crimeia

O presidente do país assegura que a decisão foi tomada para proteger a vida dos militares e de suas famílias

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O Governo de Kiev ordenou nesta segunda-feira a retirada de todas as tropas ucranianas que ainda permaneciam na Crimeia, assumindo o que para todos é uma esmagadora e cômoda vitória da Rússia e colocando fim, teoricamente, a uma atuação muito criticada pelos próprios oficiais, que culpam as novas autoridades ucranianas de tê-los abandonado. Mas ao meio-dia desta segunda-feira (local), essa ordem de retirada ainda não havia chegado à península e dezenas de uniformizados esperavam instruções para abandonar seus postos aquartelados em suas unidades, todas elas sob controle do Exército russo.

Ao redor das bases e quartéis já não há impressões das autodefesas crimeanas que rondavam as instalações militares; também não há das tropas e dos blindados russos, e a bandeira da Federação tremula em todas as unidades no lugar da ucraniana. Com a tomada russa de uma base naval em Feodosia, nesta manhã, Kiev perde o pouco que lhe restava da frota na Crimeia, embora dois navios auxiliares ainda estejam por lá. A julgar pelo grande domínio russo, será questão de horas para que a entreguem.

“Todas as unidades ucranianas na Crimeia já estão sob controle russo. Todos os leais a Kiev se renderam, salvo dois barcos no lago de Donuzlav [perto de Eupatória, oeste da Crimeia], cuja dotação segue o comando e sem planos de abandonar”, explicava em Simferopol na primeira hora da tarde desta segunda-feira Alexei Mazepa, porta-voz do Exército ucraniano na Crimeia. “Ainda não recebemos a ordem oficial de retirada de Kiev, mas supomos que será questão de horas, hoje ou amanhã”.

Dos cerca de 20.000 oficiais que Kiev tinha dispersados na Crimeia, em torno de 80% são locais, com família e residência na península. O restante estaria esperando a ordem de retirada para regressar ao continente, informa o porta-voz. Para isso, se garantirá “o alojamento das famílias dos militares que hoje se veem obrigadas a deixar suas casas [na Crimeia] sob pressão russa”, anunciou nesta manhã o presidente interino da Ucrânia, uma mensagem que, segundo vários militares ucranianos consultados em Simferopol, chega tarde e a duras penas consegue salvar a situação do Governo depois de semanas de inatividade. O comunicado é feito, além disso, depois da perda durante o fim de semana de quase toda a frota e da importante base aérea de Belbek.

Os dois barcos não resgatados seguem cercados pela Armada russa desde 10 de março em uma estreita faixa de água salgada cuja saída resulta inviável depois do afundamento de duas embarcações próprias pela marinha russa para fechar a saída ao mar para eles.

Começam os cortes de energia

Além da situação das tropas, o que preocupa para valer na Crimeia é garantir o fornecimento de eletricidade e água depois de várias horas de cortes descontinuados de luz na península, desde a tarde do domingo até a manhã desta segunda-feira.

“Temos de eleger o melhor caminho para dar serviço a Crimeia”, disse nesta segunda-feira o primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, que apontou a necessidade de negociações internacionais para resolver essa questão. “A Crimeia recebe em torno de 80% de sua eletricidade da Ucrânia, 85% da água e boa parte do gás que consome”, lembrou Medvedev.

O vice-primeiro ministro crimeano, Rustan Temirgaliyev, convocava para esta manhã uma conferência de imprensa sobre a introdução oficial do rublo a partir de hoje —uma circulação mais lenta e escassa do que o esperado—, mas desviou sua atenção para os cortes de luz, que classificou como intencionais. “Das três estações que abastecem a Crimeia, os ucranianos nos disseram que uma ficou danificada ontem à noite e que deveram consertá-la. Não acreditamos nessa versão, foi um apagão intencional. Não obstante temos 900 geradores, suficientes para garantir o funcionamento de hospitais e escolas, e contaremos em breve com nove pequenas estações móveis procedentes de Sochi. Neste momento só são registrados transtornos na citada estação”, explicou Temirgaliyev.

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