Um mês após o início dos protestos, oposição e governo marcham em Caracas

As autoridades venezuelanas responsabilizaram a oposição pelas mortes durante as manifestações e minimizaram as denúncias de torturas atribuídas às forças de segurança

Manifestantes anti-governo bloqueiam uma praça de Caracas.
Manifestantes anti-governo bloqueiam uma praça de Caracas. (REUTERS)

Faz um mês que começaram os protestos estudantis contra o Governo de Nicolás Maduro. Naquele 12 de fevereiro, Dia da Juventude na Venezuela, passeatas foram realizadas em várias cidades exigindo a libertação de três estudantes do Estado de Táchira (nos Andes venezuelanos, fronteira com a Colômbia). A participação de multidões nas passeatas surpreendeu. Na principal dessas concentrações, em Caracas, milhares de pessoas caminharam da praça Venezuela até as imediações da sede da Procuradoria Geral da República. Lá aconteceram as duas primeiras vítimas mortais entre as 21, pelo menos, contabilizadas até agora – além de 300 feridos e 1.300 detenções.

A direção do movimento estudantil de oposição não deixou a data passar em branco. Para esta quarta-feira, convocou a outra passeata que, originalmente, deveria partir da própria praça Venezuela e se deslocar até a sede da Defensoria do Povo. A chefa desse organismo, Gabriela Ramírez – uma ex-deputada e militante do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) –, desconcertou boa parte da opinião pública no sábado, ao apresentar um relatório sobre os protestos em que não só atribuiu a maioria das mortes a grupos de oposição como também pareceu minimizar, sem nenhuma investigação, as denúncias sobre torturas e maus tratos praticados por corpos de segurança, como a Guarda Nacional, contra detidos. Até 40 casos foram descritos pelo Fórum Penal Venezuelano (FPV), uma organização não governamental constituída por advogados.

A passeata, que pretendia exigir o fim da impunidade para assassinos e torturadores, deparou-se com um primeiro obstáculo antes mesmo de se realizar. O Governo estabeleceu como ponto de honra impedir a passagem das manifestações de oposição para o município Libertador (centro-oeste de Caracas). Uma marcha “das panelas vazias”, no sábado passado, e uma dos médicos, na segunda-feira – quando na Venezuela se comemora o dia dessa profissão – já haviam sido bloqueadas por piquetes de agentes antimotins mobilizados para contê-las. Os organizadores da passeata oposicionista de hoje mudaram seu ponto de partida para o bairro de Bello Monte, no município Baruta (região metropolitana da capital), governado por um prefeito de oposição. Mas, até o momento da redação deste texto, noticiava-se a presença de soldados da Guarda Nacional e agentes da Polícia Nacional que fechavam os principais acessos à parte central de Caracas.

“Que me chamem do que quiserem”, disse o presidente Maduro na véspera, durante a estreia do seu programa semanal de rádio, En Contacto con Maduro, “mas as passeatas da direita não passarão para Caracas”. O mandatário, que não assistiu à posse de Michelle Bachelet no Chile para cuidar da situação doméstica e evitar as provocações que, segundo ele, a “direita múmia” preparava em Santiago, estabeleceu como condição para a realização das manifestações de oposição na capital venezuelana o fim das chamadas guarimbas – barricadas que fecham vias urbanas em Caracas e outras cidades – e a incorporação dos líderes oposicionistas à Conferência Nacional de Paz, que o Governo iniciou com grande alarde propagandístico. “Não entrará nenhuma passeata em Caracas enquanto a MUD se negar a dialogar”, disse ele, num ultimato à aliança opositora.

Pouco antes, em obediência antecipada a essa ordem, o prefeito governista do município Libertador, Jorge Rodríguez, anunciou que a marcha não seria autorizada. Simultaneamente, o Governo improvisou um último recurso para impedir a mobilização opositora: organizou sua própria marcha “de jovens pela paz e pela vida”, que seguirá um trajeto muito similar ao original dos adversários, da praça Brión, em Chacaíto, até a praça Morelos.

Diante dessas novidades, parecia provável que a marcha virasse uma simples concentração ou, em outro cenário, gerasse confrontos ao tentar se deslocar.

No domingo à noite faleceu em San Cristóbal, capital de Táchira, o estudante universitário Daniel Tinoco, de 23 anos, um dos líderes das revoltas nessa cidade, que havia sido baleado no peito. Segundo versões de testemunhas presenciais, o assassinato teria sido cometido por um civil pertencente, supostamente, aos chamados “coletivos”, grupos de choque pró-governamentais que atuam em coordenação com os corpos de segurança.

Para reprimir essa onda de protestos, que chega ao seu primeiro mês, o governo revolucionário apelou à que parecia, segundo rumores até agora sem confirmar, sua última linha de defesa, constituída por esses grupos paramilitares, de ferocidade aparente e duvidosa disciplina. Na maioria das vezes foram utilizados como ferramenta de dissuasão, quando aparecem em turba, atirando para cima ou contra lugares desabitados, para intimidar. Mas em outras ocasiões, como no domingo em San Cristóbal, participam diretamente do ataque aos manifestantes.

Em paralelo, outra atuação controvertida foi a da polícia política, Sebin (sigla do Serviço Bolivariano de Inteligência). Agentes desse corpo foram os autores das primeiras duas mortes em Caracas, em 12 de fevereiro passado. Diversos registros em vídeo, captados por cidadãos, forçaram o governo a admitir que agentes do Sebin – que, segundo o presidente Maduro, haviam desobedecido uma ordem de aquartelamento – dispararam contra os manifestantes no bairro de La Candelaria, perto da sede da Procuradoria, na capital.

Nesta sexta-feira, em um confuso incidente, morreu a tiros uma agente do Sebin, Glidis Chacón, de 22 anos. O veículo no qual Chacón e alguns colegas se deslocavam, na zona leste de Caracas, foi interceptado a tiros por agentes da Polícia Municipal de Chacao, um reduto da oposição, que haviam sido avisados por cidadãos de que nesse veículo era transportada uma pessoa recém-capturada na rua. O suposto sequestrado era afinal um líder dos protestos diários da área de Altamira, David Urbina, de 30 años, a quem – segundo relato posterior do ministro do Interior, Miguel Rodríguez Torre – os detetives da polícia política haviam detido “em situação de flagrante delito”.

Entretanto, a gravação de uma câmara de segurança de um edifício próximo, difundida pelas redes sociais, desmentiu em parte a versão oficial. Nas imagens se observa quando pessoas vestidas à paisana lutam na rua com um transeunte, obrigando-o a subir em um veículo sedã sem distintivos, no que pareceria um sequestro ou uma detenção irregular.

Até agora, Urbina permanece detido. O oficial de polícia municipal que disparou contra os policiais à paisana também está na prisão.

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