Dilma delega à Unasul uma solução para a crise na Venezuela

Presidenta diz que o ministro Luiz Alberto Figueiredo fará a interlocução, e compara situação venezuelana com o estresse vivido por Fernando Lugo, deposto há dois anos no Paraguai

Rousseff, na posse de Bachelet nesta terça-feira.
Rousseff, na posse de Bachelet nesta terça-feira.Roberto Stuckert Filho / PR

Cercada por jornalistas em Vinã del Mar, litoral chileno, Dilma Rousseff mostrou-se extremamente à vontade para falar sobre o entusiasmo de ter outra mulher, Michelle Bachelet, no comando de um país no continente sul-americano. “É o século das mulheres. E para nós, um momento de muito orgulho”, respondeu bem-humorada a mandatária brasileira, que saiu-se muito bem ainda quando questionada sobre a crise com seu principal partido aliado, o PMDB, que briga por mais espaço nestes últimos meses do Governo. “O PMDB só me dá alegria”, brincou.

Mas, quando o assunto em pauta foi Venezuela, Rousseff “terceirizou” a responsabilidade para seu chanceler, Luis Alberto Figueiredo, que representará o Brasil na reunião da União das Nações Sulamericanas (Unasul) nesta quarta-feira, junto com os representantes dos outros países que integram a organização. Segundo a presidenta, eles vão “fazer a interlocução pela construção de um ambiente de acordo, de consenso, de estabilidade lá na Venezuela”.

Quando a pergunta foi sobre a necessidade de manter a ordem democrática no país parceiro do Mercosul, Rousseff optou pela via genérica. “Sempre nós vamos procurar a manutenção da ordem democrática”, disse a mandatária, que lembrou o período de estresse vivido pelo ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, destituído em 2012, depois de uma crise aberta depois de um confronto entre policiais e camponeses, que resultou em 17 mortes.

Os observadores mais atentos poderiam interpretar aqui um ato falho de Rousseff, ao comparar o estresse paraguaio de dois anos atrás, com a Venezuela de hoje, que contabiliza mais de 20 mortos, fruto da falta de traquejo para lidar com a tensão social, que cresce à medida que faltam insumos básicos para a população nos supermercados e hospitais, por exemplo. Fotos publicadas em alguns jornais brasileiros hoje mostram o confronto de médicos, em Caracas, com policiais. De avental branco, parecem se defender de agressões da força repressora por reclamarem da falta de material básico para trabalhar.

Diante dessas evidências, fica difícil disfarçar a indignação com o que acontece além da fronteira. Até o brasileiro mais desconectado da política internacional se pergunta qual é a real postura que o Brasil assume perante os excessos lá fora. Para alguns, o silêncio é exatamente a prova de que há um claro desconforto no Governo. “É melhor não falar quando todo mundo está dizendo outra coisa. Antes o Governo falava tanto que era amigo de Chávez, que o fato de não se pronunciar é a prova de que há um desconforto”, observa José Augusto Castro, presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB). Para ele, o Mercosul tornou-se um bloco ideológico, o que explicaria tanto cuidado para escolher as palavras, ou preferir o silêncio.

Mas, como lidar com o desconforto econômico que uma crise do gênero transfere para os exportadores brasileiros? O país exporta, prioritariamente, alimentos de primeira necessidade para a Venezuela, como carne bovina e de frango, e leite em pó. O comércio para lá caiu 14% em janeiro deste ano, comparado com o mesmo mês de 2013. E tudo indica, segundo Castro, que esta não é uma queda pontual. A falta de divisas venezuelanas deve “roubar” 1 bilhão de dólares em vendas este ano, segundo projeção da AEB.

As dificuldades da terra de Hugo Chávez têm fragilizado a balança comercial brasileira há algum tempo. Com o caixa apertado, o Brasil tem perdido espaço, por exemplo, para a China na venda de manufaturados para os venezuelanos, uma vez que os chineses podem antecipar pagamentos. “Nós não temos a mesma capacidade financeira”, lembra Castro. Desta forma, a Venezuela torna-se mais um parceiro problemático para o Governo brasileiro, mas isso não pode ser dito com todas as letras. Os números, porém, não mentem. O país bolivariano tem pendências com o Brasil desde que Chávez começou a ficar doente, dois anos atrás. Desde então, quando o mandatário se ausentava para cuidar da saúde, os trâmites burocráticos, de pagamento de fornecedores, por exemplo, ficavam em segundo plano. Corre à boca pequena que os venezuelanos teriam uma dívida pendente de 2 bilhões de dólares com o Brasil.

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