IMPASSE UCRANIANO

Rússia e Estados Unidos abrem uma via de diálogo para a crise ucraniana

Moscou se recusa a falar com as novas lideranças de Kiev, mas aceita continuar negociando. O ministro russo de Relações Exteriores, Serguei Lavrov, esteve com John Kerry

Reuters-LIVE! / Reuters (reuters_live)

Com uma tática "morde e assopra", e brincando de gato e rato com a comunidade internacional, a hábil e hermética diplomacia de Vladimir Putin manteve sua estratégia de guerra fria na Ucrânia, embora tenha deixado aberta a porta para uma solução dialogada. Apesar dos valentes esforços dos Estados Unidos, da França, da Grã-Bretanha e da Alemanha para reunir o ministro de Assuntos Exteriores russo com seu homólogo ucraniano, Moscou se recusou a se sentar com o novo Governo de Kiev, o qual considera ilegítimo, e afirmou ter alcançado um acordo com os EUA para resolver a crise, pacto que a delegação norte-americana desmentiu de forma categórica pouco depois.

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, explicou, em coletiva de imprensa, que ficou definida, com os ministros de Exteriores russo e ucraniano, a manutenção de "intensas conversas" nos próximos dias. "É muito importante resolver a questão pelo diálogo, trabalhamos para uma solução", declarou Kerry depois de se reunir com o ministro russo Serguei Lavrov, a quem voltará a ver nesta quinta-feira em Roma. O secretário de Estado descarta que este aceite se reunir com seu homólogo ucraniano em Paris e acrescentou que tem "algumas ideias" para resolver a crise e que se consultará a respeito com o presidente Barack Obama.

Lavrov negou também que as milícias russas que ocupam os locais estratégicos da península da Crimeia estejam sob o comando de Moscou, evitando assim a possibilidade de ordenar uma retirada de seus soldados do extremo sul da Ucrânia.

Paris viveu uma longa e frenética jornada diplomática, que acabou no início da noite e com sintomas de distensão –especialmente, a conversa entre Putin e a chanceler alemã Angela Merkel para normalizar a situação–, mas sem o esperado sinal de degelo, já que o Ocidente não conseguiu que o ministro russo de Exteriores se sentasse para negociar com as autoridades de Kiev, um governo pró-europeu, surgido da insurreição popular e considerado ilegal por Moscou.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da França confirmou a este jornal que o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, o ministro russo Lavrov e seu homólogo ucraniano Andrei Deshchytsia visitaram a sede da pasta à noite. Mas, ao ser perguntado se os enviados dos países do leste tinham se visto, o porta-voz disse: “Não sei”. Uma fonte ocidental confirmou mais tarde à agência France Presse que Lavrov deixou o Quai D’Orsay sem ver Deshchytsia.

Pouco antes, Lavrov declarou, depois de se reunir com Kerry e vários ministros europeus, que a Rússia e os Estados Unidos tinham entrado em acordo “para ajudar os ucranianos a colocar em prática os acordos de 21 de fevereiro”, em referência ao plano patrocinado pela União Europeia que prevê que a ex-oposição ucraniana, hoje no poder, realize negociações de paz com o deposto presidente pró-Rússia, Viktor Yanukovich. Nem meia hora depois, um porta-voz do secretário de Estado dos EUA negava oficialmente a existência de tal acordo, e acrescentava de forma categórica que este não “existirá sem um envolvimento direto do Governo ucraniano nas negociações”.

Lavrov deixou o Quai D’Orsay enquanto os representantes dos EUA, Alemanha, França, Ucrânia e Grã-Bretanha seguiam debatendo uma solução para a crise com a chefa da diplomacia europeia, Catherine Ashton.

A ambiguidade e a linguagem dúbia marcaram uma jornada carregada de paradoxos e de sinais contraditórios. Enquanto a Europa tratava de diminuir o tom sobre a aplicação de multas a Moscou e punha o foco sobre a criação de um grupo de contato multilateral para buscar uma saída negociada, Bruxelas prometia uma ajuda financeira ao novo Governo pró-Europa de Kiev –11 bilhões de euros (35,1 bilhões de reais) em troca de um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI)–, e o novo ministro das Finanças ucraniano provocava um terremoto nos mercados financeiros do país ao declarar que espera renegociar uma parte de sua dívida com seus credores.

Em Bruxelas, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Rússia realizaram também conversas, em meio ao temor de que um confronto entre forças ucranianas e russas na Crimeia possa provocar uma eclosão de violência ou estender a presença militar da Rússia a outros territórios do leste do país. O secretário-geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, anunciou a suspensão do planejamento da primeira missão militar conjunta com a Rússia e de todas as reuniões militares ou civis com esse país.

Na península da Crimeia, de maioria e língua russas, a tensão continuava forte. O enviado especial do secretário-geral da ONU, Robert Serry, foi retido por um grupo de homens armados após uma multidão exasperada cercar o carro em que estava, segundo informou um responsável do ministério de Exteriores ucraniano. Embora a ONU tenha assegurado que o diplomata holandês havia sido colocado em liberdade, a Reuters confirmou que o enviado de Ban Ki Moon teve de abortar sua missão e abandonar a Crimeia depois de ser libertado.

Pela manhã, em Madri, o chefe da diplomacia russa transladou ao Governo autônomo da Crimeia a responsabilidade de autorizar a visita de uma missão de observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Depois de assinalar que não é à Rússia, e sim às autoridades ucranianas, quem corresponde “convidar” a missão internacional, sublinhou que a Rada (o Parlamento de Kiev) não controla a totalidade de seu território, em alusão à Crimeia. A OSCE aprovou, a pedido de Kiev, o envio à Ucrânia de uma missão de observação formada por 35 militares desarmados, mas ainda não está claro se poderão visitar a península de maioria russa.

Lavrov se eximiu também de toda a responsabilidade sobre as chamadas “forças de autodefesa” –milícias uniformizadas e perfeitamente equipadas que tomaram os centros nevrálgicos da Crimeia–, alegando que Moscou não tem nenhuma autoridade sobre elas nem pode ordenar sua retirada, apesar de todas as testemunhas confirmarem que se tratam de tropas regulares russas, embora não levem insígnias.

Com relação aos militares da Frota do Mar Negro, assegurou que permanecem aquartelados e só tomaram “medidas de alerta” ante a piora nas condições de segurança. Isso sim, acrescentou, —em linha com o sustentado na passada terça-feira por Putin, que não descartou o uso da força como último recurso— a “Rússia não vai permitir um banho de sangue nem atentados contra a vida e a integridade” da população russa da Ucrânia.

Em uma coletiva de imprensa conjunta com seu homólogo espanhol, José Manuel García-Margallo, Lavrov não poupou críticas aos países ocidentais, a quem acusou de alentar um “assalto armado ao poder” para derrocar por métodos inconstitucionais o presidente Viktor Yanukovich. “Os maus exemplos são muito contagiosos e temos de ser consequentes com todas as ações”, declarou.

Lavrov assegurou que uma saída à crise passa pela aplicação do acordo que Yanukovich alcançou em 21 de fevereiro com a oposição (sob os auspícios dos ministros de Exteriores da Alemanha, da França e da Polônia) e que previa a formação de um Governo de unidade nacional, a reforma da Constituição e o adiantamento das eleições. “Não se tem de ser esperto, não há de se enganar ninguém”, acrescentou, em alusão ao não cumprimento desse pacto por parte da oposição.

Em Paris, depois de participar no Eliseu de uma reunião internacional sobre o Líbano, Margallo assinalou que sua impressão é a de que “Lavrov tem vontade de chegar a um acordo” sobre a Ucrânia. “(Ele) Prometeu que em nenhum caso se trata de buscar uma anexação da Crimeia ou de outra parte da Ucrânia, nem forçar um referendo de autodeterminação que seria contrário à Constituição ucraniana e aos tratados internacionais", explicou o ministro espanhol.