Análise
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Diante do vazio geoestratégico

A crise ucraniana surge de uma correlação de fragilidades no cenário internacional que afeta os Estados Unidos, a União Europeia e também a Rússia

Tropas uniformizadas e sem identificação montam guarda em Balaklava, nos arredores de Sebastopol, na Ucrânia
Tropas uniformizadas e sem identificação montam guarda em Balaklava, nos arredores de Sebastopol, na UcrâniaAndrew Lubimov (AP)

O vazio de poder interno engoliu Yanukovich na sexta-feira, 22 de fevereiro, em um movimento ainda sem explicação e talvez inexplicável, logo depois de assinar um acordo com a oposição intermediado pela União Europeia com a participação da Rússia. O vazio de poder, mas em escala internacional, também está engolindo em poucas horas a integridade territorial do país, com a ocupação da península da Crimeia por tropas russas, ignorando as advertências da Organização das Nações Unidas, de governos europeus e de Washington.

Os Estados Unidos, a solitária superpotência que liderou e venceu a guerra fria, se encontra trancada em uma política externa reticente, em que prefere que sejam outros que se sentem na cadeira do motorista, inclusive quando não dirigem da forma que eles gostariam, como está acontecendo com os europeus no caso da Ucrânia. Obama se viu obrigado a destacar que a invasão russa da Crimeia terá consequências, porque ele sabe que seu silêncio as teria tido, e muito maiores, como uma forma de aquiescência incompreensível com Moscou. A crise com a Rússia acontece poucos dias depois de o secretário de Defesa, Chuck Hagel, ter anunciado a redução do Exército à dimensão anterior à Segunda Guerra Mundial, quando Washington lavava as mãos para o que acontecia fora de seu continente.

A UE também se encontra ocupada em completar o edifício do euro mediante uma união bancária trabalhosamente construída, com o objetivo de impedir a repetição de uma crise das dívidas soberanas como a que esteve a ponto de acabar com a moeda única. Nem a política externa, nem os organismos de segurança dos europeus, incluindo a Aliança Atlântica, se encontram preparados para abordar uma crise como a da Ucrânia em sua própria fronteira. Segundo um dos ministros de Relações Exteriores mais relevantes do grupo, os europeus têm superestimado a atratividade de suas ofertas comerciais e financeiras à Ucrânia e avaliado incorretamente a efetividade e os instrumentos de ação firme de uma superpotência como a Rússia.

EL PAÍS

Os dois países europeus melhor preparados militarmente, que são França e Reino Unido, não têm aparecido formando parceria como em outras ocasiões, como fizeram na Líbia em 2011, fundamentalmente pela inibição de Londres, cada vez mais desinteressada dos assuntos continentais: David Cameron está mais preocupado com a chegada de imigrantes da Europa oriental e com a devolução de poderes da UE do que com as demandas europeias que chegam da Ucrânia. O cansaço geoestratégico demonstrado pelos EUA depois das duas guerras no Iraque e no Afeganistão também afeta a todos os países da UE, concentrados em sua desafeição pela política e pela construção europeia e varridos por seus populismos e a xenofobia e as políticas contra a imigração. As hipotéticas ampliações e os tratados de associação só interessam aos países vizinhos diretamente envolvidos, como é o caso da Polônia com a Ucrânia.

Por isso teve de ser o chamado Triângulo de Weimar, criado em 1991 por Paris, Berlim e Varsóvia, e inicialmente pensado a serviço da integração da Polônia, o que se ocupou mais diretamente na UE do acompanhamento e resolução da crise ucraniana. Os três ministros de Relações Exteriores, o francês Laurent Fabius, o alemão Frank Walter Steienmeier e o polonês Radoslaw Sikorski, estiveram negociando com Yanukovich, o enviado especial de Putin e a praça Maidan na noite infernal em que os revolucionários caíam como moscas sob o fogo dos franco-atiradores. Todos eles deram declarações nas horas posteriores a um acordo que primeiro pareceu bem-sucedido e em poucas horas se tornava inútil, com a fuga e deposição do presidente. Segundo Fabius, “é preciso evitar a todo custo, tratando-se da Ucrânia, que seja obrigada a escolher entre a Rússia e a UE”. Segundo Steienmeier, “a Rússia é um país europeu e deve continuar sendo”. E segundo Sikorski, “o espírito do acordo deve ser respeitado”. É evidente que todos os fatos transbordaram, o acordo e seu espírito, e que agora há novos fatos no território da Ucrânia, principalmente na Crimeia, o que anula as declarações e as boas intenções.

Apesar da exibição de poder militar realizada nas últimas horas, também a Rússia se encontra em um momento especial de fraqueza, que em seu caso a conduz fatalmente a ocultar-se na velha trincheira da guerra fria. Moscou está movimentando suas peças de xadrez com cautela e na surdina, com o propósito de atenuar as violações da lei internacional decorrentes de uma invasão de um país soberano. Há uma longa experiência no Kremlin com relação a intervenções militares no território imperial, desde a Hungria em 1956 até a Geórgia em 2008, e em cada uma delas foram utilizados instrumentos distintos, mas que correspondem todos a padrões semelhantes, seja a bandeira do internacionalismo comunista, seja a solidariedade com os cidadãos russos de todo o antigo império: uso de tropas sem distintivos ou paramilitares, chamados por parte das autoridades locais e dos líderes depostos e apelos à segurança e aos interesses russos, bem claros no caso da frota do Mar Negro, com sede em Sebastopol.

Aquele império que, segundo Kissinger, avançava a cada ano desde Pedro, o Grande (1721) o equivalente a um território como o da Bélgica, encolheu agora até situar-se em 1654, quando seu pai, Alexis I, o segundo dos Romanovs, uniu a Rússia e a Ucrânia. O êxito dos Jogos de Inverno de Sochi ou o protagonismo diplomático na crise síria e na negociação nuclear com o Irã não permitem esconder o contínuo retrocesso territorial, a debilidade demográfica e a perda de influência mundial desde o desaparecimento da União Soviética, quando se produziu, nas palavras de Putin, “a maior catástrofe geopolítica do século XX”.

Com a URSS, o império territorial que deslanchou no tempo de Ivan, o Terrível chegou a seu zênite histórico e agora está se aproximando a toda velocidade de seu ocaso. A Crimeia, a península agora disputada, tem exatamente o tamanho da Bélgica. A Ucrânia é o berço e ao mesmo tempo o vínculo europeu da Rússia. Irrenunciável para seu nacionalismo e imprescindível para sua vocação ocidental e para agir como contrapeso à inacabável dimensão asiática. Nem a guerra nem a fragmentação nem sequer a bancarrota que se anuncia na Ucrânia convêm aos interesses da Rússia. Mas é difícil que o senhor do Kremlin não se sinta impelido a transformar o pesadelo da decadência no sonho improvável de uma grandeza restaurada, mesmo que o dano que cause aos ucranianos, aos europeus e a si mesmo com o uso da força seja muito maior do que os presumíveis bens que quer defender.

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