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O avanço do populismo marca o debate do Conselho para o Futuro da Europa

Felipe González alerta para “os que querem queimar a casa na qual todos vivem para ficar com o terreno”

González, Monti e Berggruen, durante coletiva de imprensa. Ampliar foto
González, Monti e Berggruen, durante coletiva de imprensa.

O ex-primeiro-ministro italiano Mario Monti não duvidou nem por um segundo: “O avanço do populismo em muitas partes da Europa é a nossa principal preocupação”. Assim ele apresentou o debate do Conselho para o Futuro da Europa em sua terceira reunião desde a sua criação, em 2011, após dois encontros anteriores em Berlim e Paris antes de chegar ao de Madri, que vai até esta sexta-feira. Monti atua como presidente desse fórum promovido pelo Instituto Berggruen para a Governança, cujo objetivo é discutir maneiras de obter uma Europa mais forte e resistente.

O Conselho, que reúne 26 políticos, acadêmicos e empresários de destaque da Europa e dos Estados Unidos, alerta para o perigo que significa a ameaça do populismo nas eleições europeias de maio. Por um lado, o grupo reconhece o perigo acarretado pelas mensagens políticas que simplificam as coisas em um mundo complexo. Lemas que culpam a imigração pelo desemprego ou a União Europeia pelo retrocesso do Estado do bem estar estão impregnando facilmente cidadãos desencantados pelos ajustes econômicos. Mas, por outro lado, o Conselho também considera que o avanço do populismo pode ter um efeito reativo que torne a União um espaço mais unido e democrático.

Aos europeístas “falta um sonho. Os outros o têm. Que termine o euro, que se rompa a União… Nós o perdemos. Antes o tínhamos. Em 1984: as quatro liberdades; 1994: o euro; 2004: a ampliação para o Leste. E agora? Agora não construímos nenhuma perspectiva desse tipo. O sonho precisa ser a união política”, disse o também ex-primeiro-ministro italiano Enrico Letta em sua intervenção como palestrante. Letta apelou aos europeístas para que deem à sua mensagem um caráter épico, de grandeza; sentimentos aos quais de fato recorrem com grande destreza os movimentos nacionalistas, e que tão boas perspectivas eleitorais lhes oferecem para as eleições europeias. A narrativa épica, como bem disse o ex-presidente do Governo espanhol (premiê) Felipe González minutos antes de começar o fórum, “é a principal ferramenta dos nacionalistas”, e salientou que por isso é necessário alertar às pessoas que por trás dessa mensagem “não há nada”.

González atacou com veemência os populismos. Só querem “queimar a casa na qual vivemos todos para ficar com um casarão que acreditam ser deles”, disse. González acredita que todas as tentativas de recuperar a mensagem nacionalista, até em casos tão díspares como o da Catalunha e o da Escócia, são afinal uma regressão ao postulado de que “sozinhos estamos melhores”, que a história já demonstrou ser errôneo.

Letta seguiu a linha dura de González em seu discurso: “O que é o populismo na Europa?”, perguntou-se. “É algo profundamente anti. Não é nunca a favor de nada. É sempre anti. É heterogêneo. Mas sabemos que é antiautoridade, antieuro”, respondeu. “Há alguns fatores que estimularam a dinâmica populista. A imigração, que em muitos países provocou mudanças sociais profundas; o aumento do desemprego juvenil; e a internet, que expõe um desafio não só à autoridade, e sim à própria ideia de autoridade. Antes os poderes públicos tinham o monopólio da informação, por isso era fácil ter a autoridade. Hoje ninguém tem o monopólio da informação”, afirmou.

“Pela primeira vez nos aproximamos de eleições europeias em que a diferença mais importante não será esquerda e direita, e sim ser pró e anti-Europa. Sempre foram eleições nacionais camufladas. Agora são verdadeiramente europeias, e um grande risco para o futuro da Europa. Qual pode ser seu impacto sobre as instituições europeias e o crescimento? Primeiro sobre o Parlamento europeu: haverá uns 20-25% de deputados antieuropeus. Também será preciso tomar cuidado com o obstrucionismo. Tenho certeza de que ele acontecerá, em uma Câmara que não está acostumada a isso. Outro risco são os ataques ao mercado interno, à concorrência. Uma das consequências é o aumento do protecionismo. É a resposta mais fácil”, disse Letta.

“Possivelmente este é o momento mais difícil na construção europeia”, havia admitido previamente Pascal Lamy, presidente do Notre Europe e membro do Conselho. “O apoio da opinião pública está num nível mínimo. A opinião pública considera que a Europa não atende às suas expectativas. A ideia de que juntos fazemos melhor perdeu força. Isto é um fato. O que podemos fazer para sair dessa erosão? O problema principal é o desemprego juvenil. Deram-se alguns passos. Faz falta ir muito mais longe. Que mais fazemos juntos? No começo, a paz. Agora, não está claro. Não temos um relato próprio. Possivelmente possa ser este: a missão da UE é civilizar a globalização, como me disse uma vez um diplomata asiático”.

O Conselho propõe estender três pontes para unir mais a Europa. A primeira é para afastar os cidadãos das garras do populismo, através de uma melhor comunicação e uma maior eficiência das instituições europeias. A segunda é para acabar com esse mal entendido psicológico entre o norte e o sul da Europa. Os países do sul europeu demonstraram que são capazes de executar políticas para recuperar a confiança dos mercados. A terceira é entre o Reino Unido e o resto da Europa, tentando atrair ao espírito competitivo anglo-saxão para o resto do continente e facilitar a convivência com Londres.

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