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CRISE NA UCRÂNIA

Crimeia quer decidir seu futuro na Ucrânia com um referendo

Grupos armados ocupam o Parlamento e o Governo da região pró-Rússia depois da revolta em Maidan

Os deputados convocam uma consulta para criar uma confederação

Manifestantes pró-Europa e pró-Rússia se enfrentam na Crimea.

O Parlamento de Crimeia, região ucraniana pró-Rússia, foi ocupado na quinta-feira pela manhã por cinquenta homens armados e com máscaras que se apresentaram como "defensores dos cidadãos russos" da localidade. Após a invasão, a assembleia desta península do mar Negro votou a favor de um referendo sobre uma proposta de estrutura confederativa para a relação de Crimeia com a Ucrânia.

A Rada aprova Yatseniuk como primeiro-ministro

A Rada Suprema (Parlamento) aprovou nesta quinta-feira por maioria a candidatura de Arseni Yatseniuk para o cargo de primeiro-ministro do Governo da Unidade Nacional na Ucrânia, que se encarregará de dirigir este país até as eleições presidenciais do dia 25 de maio.

Yatseniuk reconheceu que o país "se encontra à beira do colapso político e econômico", defendeu sua integridade territorial e defendeu um Acordo de Associação com a União Europeia (UE).

Crimeia é uma sede da frota russa do mar Negro e a única república autônoma da Ucrânia que, pelo resto, é um Estado unitário centralizado. A população de Crimeia, ao redor de menos de 2 milhões de pessoas, está formada em sua maioria por habitantes que falam russo e que se sentem mais próximos a Moscou que Kiev. O triunfo do novo regime é visto nestes setores como uma ameaça às instituições locais, que caíram de forma progressiva em relação às que foram outorgadas em 1992 depois da desintegração da URSS - e ainda poderiam desaparecer mais, caso os planos dos nacionalistas do Oeste do país (partido Liberdade) se realizem. Crimeia, um florescente feudo tártaro na órbita do Império Otomano, foi conquistada pelo Império Russo no século XVIII mas em 1954 o líder soviético Nikita Kruschev transferiu a Crimeia da Rússia para a Ucrânia, quando estes dois territórios eram apenas dois das 15 repúblicas federadas da URSS. Os mascarados, de uniforme e armados, que chegaram pela manhã à Simferopol, eram cem: cinquenta deles ocuparam o Parlamento e outros cinquenta o Conselho de Ministros. Os deputados ficaram sem seus celulares e nem os auxiliares do parlamento nem os jornalistas puderam assistir a sessão, na qual 61 legisladores (dos 63 presentes), votaram para celebrar um referendo sobre o futuro status da península no dia 25 de maio, coincidindo com as eleições presidenciais. A pergunta aprovada, o que parece abrir uma porta à estrutura de confederações, é: "Está pela independência estatal da República Autônoma de Crimeia no conjunto da Ucrânia sobre uma base de tratados e acordos?". Na Ucrânia os referendos locais não estão contemplados pela lei.

Os assaltantes, que falam russo e têm aspecto eslavo, não disseram em momento algum a quem representavam e ficaram no parlamento depois que os deputados concluíram a sessão. O cônsul russo em Simferopol e o chefe do Governo da Crimeia, Anatoli Mogiliov, tentaram em vão convencê-los que saíssem do edifício, mas os assaltantes se negaram a polemizar ou a manter contatos e colocaram a bandeira russa sobre o edifício do parlamento. Mogiliov deixou o cargo e foi substituído por Serguéi Axiónov, o líder da Unidade Russa (um dos pequenos partidos que defendem os interesses dos russos locais).

Existem diversas versões sobre a origem dos assaltantes. Segundo uma delas, seriam tropas de intervenção especial, as BERKUT de Sebastopol, a principal base da Frota Russa. Outras versões indicam que na Crimeia estão os restos das BERKUT de distintas regiões da Ucrânia, após a abolição de sua estrutura pelos novos dirigentes. São "homens que estão desmoralizados e se sentem traídos" e não veem onde podem se encaixar agora "porque tudo o que sabem fazer é usar armas e agora foram despedidos e inclusive podem ser processados", explicava ao EL PAÍS uma fonte no leste da Ucrânia.

Ao redor do edifício do parlamento foi organizada uma manifestação a população russa local e os tártaros permaneceram em suas casas. A população tártara foi deportada por Stalin da Crimeia até a Ásia Central em 1944 e, depois da desintegração da URSS, serviram para neutralizar os russos para as autoridades ucranianas.

Desde Kiev, o presidente interino Alexandr Turchínov advertiu a Rússia que qualquer movimento da frota do mar Negro fora da base de Crimeia será considerado uma "agressão militar". A advertência ocorreu enquanto a Rússia estava no segundo dia de exercícios militares nos quais seus caças estavam em "alerta de combate". As primeiras decisões das novas autoridades em Kiev assustaram os russos da Crimeia, principalmente sobre a abolição de uma lei sobre as línguas regionais. Alguns dos políticos do novo regime são conscientes de que se precipitaram e tentam acalmar os ânimos. Turchínov falou que uma nova lei equilibradas das línguas será aprovada urgentemente mas suas palavras suscitam pouca confiança entre os setores pró-Rússia, que vivem a política de "ucranização"como uma medida contra sua identidade, à margem que na prática muitos sejam bilíngues e alternem facilmente entre um idioma e outro.

Qualquer movimento russo fora da base de Crimeia será considerado uma "agressão militar".

Alexander Turchínov

O parlamento de Crimeia está formado por 100 deputados, dos quais a maioria era do partido das Regiões (82 deputados antes da saída de Yanukovich) e o resto, vários grupos pró-Rússia (sendo "Soyuz" o mais numeroso) e um grupo de tártaros. O plano de confederações é menos radical que o plano de restituir a Crimeia à Rússia, tal como propuseram alguns deputados antes de que o regime mudasse. Os deputados haviam pedido a Yanukovich que tomasse medidas extraordinárias e que atuasse de forma decidida e ao presidente Vladmir Putin e ao parlamento russo pediram que se constituíssem "garantias que o estatuto de autonomia de Crimeia não fosse violado". O serviço de Segurança da Ucrânia iniciou uma investigação para saber se o pedido dos deputados de Crimeia pode ser considerado uma amostra de separatismo.

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