O primeiro-ministro italiano Renzi vai à guerra

O novo chefe de Governo recebe o desprezo de Letta e o ceticismo dos poderosos, incluindo de Napolitano, em seu juramento

Renzi (direita) cumprimenta Letta, em Roma.
Renzi (direita) cumprimenta Letta, em Roma.TONY GENTILE (REUTERS)

Em um país onde a cortesia é uma das belas artes, esse aperto de mão fugaz entre Enrico Letta e Matteo Renzi, esses olhares que lutam para não se cruzar, esse gelo entre o primeiro-ministro executado e o primeiro-ministro executor —ambos toscanos, ambos do Partido Democrático (PD), ambos de origem democrata-cristã— marcou uma manhã em que dois Estados plantados sobre uma terra antiga e bela colocaram em cena, de forma simultânea, o teatro do poder. Na basílica de São Pedro, um papa nomeava 19 novos cardeais —os príncipes da Igreja— sob o olhar sorridente de outro papa que afastou-se devido aos conflitos pelo poder há um ano, em uma renúncia histórica. No Palácio de Quirinal, um presidente da República mais velho que o mais velho dos papas presidia pela terceira vez em apenas dois anos uma cerimônia de formação de um novo Governo, liderado desta vez por um jovem de 39 anos com o descaro suficiente para incluir —estamos falando da Itália— oito mulheres em um Executivo de 16 pessoas, entre elas uma grávida de oito meses e outra à frente do Exército. A guerra está apenas começando.

Porque é exatamente isso, uma guerra, o que Matteo Renzi propôs como programa de Governo. Faz tanto tempo que as portas para o crescimento estão fechadas na Itália —o PIB atual é inferior ao de 10 anos atrás— que não basta colocar óleo nas fechaduras, e sim derrubá-las direta e rapidamente. De tal forma que Renzi, que justificou seu ataque mortal contra Letta pela lentidão de seu governo para agir, pretende realizar uma reforma por mês. “Em fevereiro”, anunciou antes mesmo de saber quantos votos de apoio terá para formar seu Gabinete, “levaremos a cabo um trabalho urgente junto ao Parlamento sobre as reformas constitucionais e eleitorais. Em março, vamos nos aprofundar na reforma trabalhista, e em abril na da administração pública; em maio, vamos reformar o fisco”. O até agora prefeito de Florença tem total ciência de que não tem muito mais tempo. Nem tanto porque os governo na Itália durem em média um ano —68 governos nos últimos 70 anos—, mas sim porque, apesar de seu aspecto de bom moço, de suas origens democratas-cristãs e de sua capacidade de lidar com uns e com outros, ele não é nem de um nem de outro. Ele é apenas dele mesmo, e no momento em que parar de pedalar vai tomar um tombo.

Quem sustenta Renzi? Não é já um enviado dos chamados “poderes fortes”, esse triângulo de interesses invisível, mas muito eficaz, que com os vértices nas finanças, na Igreja e na presidência da República preferiu antes o perfil de Mario Monti, um tecnocrata de prestígio internacional, ou de Enrico Letta, um político italiano da velha guarda, algo difícil de enquadrar Matteo Renzi. Talvez nunca se saiba o que aconteceu nas duas horas e 45 minutos de reunião do primeiro-ministro com o presidente Giorgio Napolitano na tarde de sexta-feira. Uma reunião da qual Renzi saiu rouco e feliz, mas da qual tanto ele como mais tarde o presidente ofereceram alguns dados para interpretar o que está por vir.

O primeiro é que Renzi é duro na batalha. Diante de Napolitano, de quem se diz que não perde a calma nem à beira do Apocalipse, conseguiu defender um Executivo em que se pode identificar claramente os traços do primeiro-ministro e aqueles, muito poucos, em que não houve outra solução a não ser transigir. Napolitano estava decidido a deixar sua impressão digital em ao menos dois ministérios, o da Economia e o das Relações Exteriores. Queria no primeiro Pier Carlo Padoan, antigo chefe dos economistas da OCDE, e para o segundo Emma Bonino. Tanto é que nos últimos dias o único posto praticamente definido nas discussões ministeriais que despertam tantas paixões na Itália era para a política veterana. Napolitano conseguiu emplacar Padoan, mas não Bonino.

O segundo dado —e muito importante— que se pode extrair da reunião de Napolitano e Renzi é que o presidente ancião —o Rei Jorge para alguns devido à sua intromissão excessiva na política italiana— decidiu lavar as mãos sobre o futuro do país. Depois de nomear Monti e Letta, Napolitano apresentou-se ao lado deles aos jornalistas para deixar uma imagem de que estavam ungidos por ele. Renzi não só não foi acompanhado, como também ele e o presidente —talvez por acordo mútuo— destacaram que o novo Governo da Itália é de responsabilidade única e absoluta do jovem político toscano. Renzi disse: “Sejamos claros. Este governo responde somente a mim. Se nos equivocarmos é culpa minha. Somente minha”. A sua maneira, Napolitano também quis deixar claro que este não era exatamente o Governo que ele gostaria. Um governo que se afasta de antigos compromissos: Angelino Alfano, ex-aliado próximo de Silvio Berlusconi, ou Maurizio Lupi, ministro do Transporte, um homem forte da ultracatólica Comunhão e Libertação. Mas que resgata para a política gente tão comum e tão valiosa como Maria Carmela Lanzetta, de 56 anos, farmacêutica de profissão e ex-prefeita de Locride, que teve a farmácia queimada em 2001 pela ‘Ndrangheta por sua luta contra a máfia, que teve o carro atacado em 2012 e que em 2013 deixou a prefeitura por sentir-se abandonada pela classe política. Só soube que Renzi a queria como ministra dos Assuntos Regionais dez minutos antes de ter seu nome divulgado publicamente: “Estava na farmácia. Ainda estava com o jaleco. Disse que sim porque meu país está em dificuldades e é necessário ajudar”.

Assim Renzi tem formado seu governo. Com doses de intuição e telefonemas. Como se fosse o jovem citado em uma canção de seu ídolo Jovanotti: “Sou um cara de sorte, porque me deram um sonho de presente”.

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