O ETA encena diante dos verificadores a entrega de parte do arsenal

O grupo entrega um documento com o inventário das armas A comissão considera "verossímil e significativo" este passo prévio ao desarmamento completo Em seus 46 anos de vida, cessou na atividade criminosa em três períodos muito curtos O ministro: "A Guarda Civil e a polícia nos bastam para verificar se deixam as armas"

(reuters_live)

A organização terrorista ETA anunciou que está pondo "fora de uso operativo uma quantidade de armas" que fazem parte do seu arsenal, através da denominada Comissão Internacional de Verificação (CIV), que assinalou que este processo é "verossímil e significativo".

"A intenção é pôr fora de uso o arsenal como passo decisivo para deixar as armas", indicou Ram Manikkalingam, o porta-voz da comissão, que mostrou um documento com o inventário do armamento entregue pelo ETA. A Comissão de Verificação é uma entidade não reconhecida pelo Governo espanhol, cuja intervenção foi solicitada unilateralmente no ano passado para mediar o processo de paz.

"Temos um inventário das armas confiscadas e catalogadas, agregou o porta-voz, que anunciou que também havia gravado imagens desta parte do arsenal. Minutos depois, a BBC havia difundido o vídeo em que se vê os supostos membros do ETA encapuzados e os membros da Comissão Internacional de Verificação (CIV). Os quatro estão atrás de uma mesa na qual se expõe parte do arsenal que supostamente havia sido inutilizado. Além disso, um dos encapuzados entrega um documento, que se supõe ser o comunicado do grupo.

Em concreto, segundo o inventário realizado, o ETA deixa fora de uso 16,5 quilos de explosivos, quatro armas (um fuzil, um subfuzil e dos revólveres), 300 balas e uma granada, além de temporizadores e 180 metros de cordão detonante. Os explosivos são 4,5 quilos de pólvora, oito quilos de sódio, outros quilos de cloreto de sódio e dez gramas de  nitromanita.

Manikklalingham leu primeiro em castelhano e depois em inglês o comunicado com estas reflexões em um ato no hotel Carlton de Bilbao. "Há um ano a CIV constatou os avanços significativos no País Basco e manifestou sua intenção de que os esforços fossem intensificados", assinalou o porta-voz, que lembrou que em 2013 o grupo manifestou sua intenção de dar início ao fim do terrorismo.

A atividade terrorista do grupo deixou seu histórico negro com 831 mortos e milhares de feridos. Em seus 46 anos de vida, cessou as atividades criminosas em três períodos muito curtos (1970-1971; 1999 e 2004-2005).

"Este comunicado é mais do mesmo e entendo que é mais encenação do ETA", assinalou o ministro do Interior, Jorge Fernández, na coletiva de imprensa do Conselho de Ministros, antes de que se conhecesse o conteúdo do comunicado. "A Guarda Civil e a polícia nos bastam para verificar se realmente estão deixando as armas", disse.

O Governo basco, por sua vez, valorizou o passo dado. "É um pequeno passo, não é suficiente, mas é necessário para o fim do ETA", considerou o lehendakari (chefe do Governo basco), Iñigo Urkullu.

No dia 20 de outubro de 2011, a organização terrorista publicou um comunicado anunciando que decidira pelo "cessar definitivo de sua atividade armada”. Desde então, o ETA deixou de praticar atentados. Em seu último comunicado, neste mesmo mês de fevereiro,  o grupo anunciou sua intenção de fazer “contribuições significativas para alimentar esse processo, sem demora”, o que muitos interpretaram como o preâmbulo do início do desarmamento definitivo. O grupo faz questão de reivindicar o diálogo com os Governos espanhol e francês para alcançar o que denominam “uma resolução integral” para o conflito, onde pretendem tratar assuntos relacionados ao seu desarmamento, com os presos que continuam nos cárceres e com os foragidos.

Há apenas dois meses, o coletivo de presos do ETA publicou um comunicado em que, depois do cessar da luta armada, se comprometiam a “utilizar vias e métodos democráticos”, reivindicando uma mudança da política penitenciária para “priorizar o fim da dispersão” de presidiários. O comunicado concluía: “Por tudo isso, poderíamos aceitar que nosso processo de volta para casa – com prioridade ao nosso translado a Euskal Herria- se efetivasse utilizando vias legais, ainda que isso, para nós, implicitamente implique na aceitação de nossa condenação. Compartilhamos que tanto a lei quanto a sua aplicação cumprem uma função essencial perante ao futuro, já que têm de ser utilizadas para fortalecer os passos que tenham de se dados”.

Os presos do ETA se declaravam dispostos “a estudar a possibilidade de que o processo que culmine” com sua volta a casa “se efetue de maneira escalonada, mediante a compromissos individuais e em tempo prudencial”. Ao mesmo tempo, assumiam “toda” sua “responsabilidade sobre as consequências derivadas da atividade política no conflito político” e se mostravam dispostos a analisar a responsabilidade” da cada um deles “dentro de um processo acordado que reúna as condições e garantias suficientes”.

O comunicado dos presos não fez mudar a política penitenciária do Governo espanhol sobre a aproximação de presidiários ao País Basco, uma medida que o presidente do País Basco Iñigo Urkullu reivindicava em nome do Governo basco sem aceitação ainda.

A esquerda independentista renunciou em 2011 a apoiar a violência terrorista como instrumento de ação política e se apresentou às diferentes eleições realizadas desde 2011, conseguindo quase uma centena de prefeituras em Euskadi e Navarra e o Governo do Conselho Provincial de Guipúzcoa.