O protesto em frente ao Parlamento da Ucrânia é dissolvido com confrontos

26 pessoas morreram e centenas ficaram feridas, segundo a o Ministério da Saúde

As forças de segurança da Ucrânia, incluindo a Berkut, unidade de intervenção especial, iniciaram ontem uma operação destinada a dissolver a manifestação permanente da praça da Independência, conhecida como Euromaidan, ou simplesmente Maidan. Durante os confrontos, que começaram na terça-feira de manhã, morreram ao menos 26 pessoas, segundo o informe do Ministério da Saúde. Das centenas de pessoas feridas, 241 foram hospitalizadas, entre elas 79 policiais e cinco jornalistas. O Ministério do Interior, em um comunicado, fazia referência a nove policiais mortos. Na jornada de violência morreu o primeiro jornalista, Viacheslav Veremii, da publicação ucraniana Vesti.

Abre-se assim um novo capítulo na crise política e social que estourou na Ucrânia em novembro passado, quando milhares de pessoas saíram à praça para protestar, inicialmente contra a reversão do rumo pró-Europa por parte do presidente Viktor Yanukovich, e quase imediatamente depois contra o próprio presidente e o regime que ele encarna. Em seguida, Yanukovich tentou ganhar tempo, e para isso demitiu o governo do primeiro-ministro Mikola Azarov, o que não foi suficiente para acalmar os manifestantes, que exigem novas eleições presidenciais e uma alteração da Constituição para restringir os poderes do chefe de Estado.

O metrô deixou de funcionar no centro da cidade, decisão percebida mais tarde como sendo destinada a isolar os manifestantes da praça da Independência. Os acessos de veículos a Kiev foram restritos, aparentemente para evitar a adesão aos protestos de grupos de apoiadores que saíram na terça-feira de várias regiões da Ucrânia com destino à capital.

As principais figuras da oposição discursaram na manifestação e exortaram os cidadãos a permanecerem unidos e pacíficos diante das forças de segurança. Antes da ofensiva policial, eles haviam convidado diplomatas estrangeiros a irem à praça, enquanto por telefone o comissário (ministro) europeu Stefan Fülle e a chefe da política externa da UE, Catherine Ashton, conclamavam ao diálogo. Aparentemente, os diplomatas ocidentais não conseguiram entrar em contato com o presidente Viktor Yanukovich.

As ações policiais foram precedidas de um ultimato formulado em um comunicado conjunto pelo Conselho de Segurança de Ucrânia e o Ministério do Interior. Essas instituições haviam exortado os líderes da oposição a acalmarem os manifestantes e a voltarem para a mesa das diálogo. Em seu comunicado, elas afirmavam que “os extremistas da oposição passaram dos limites” e acusavam “líderes da oposição de orientarem esses delitos”. “Não podemos permitir que a escalada deste conflito continue. Os cidadãos comuns se dirigem às autoridades e exigem que elas imponham a ordem e devolvam a estabilidade e a paz à Ucrânia”, afirmava o comunicado. O Conselho de Segurança e o Ministério do Interior disseram também que se veriam “obrigados a atuar com dureza se a desordem continuar”, e davam um ultimato para que a violência parasse, ou do contrário seriam “obrigados a impor a ordem com os métodos contemplados pela lei”. Antes de intervirem, os agentes esperaram duas horas após o prazo declarado.

Declarações feitas por Yuri Miroshnichenko, representante do presidente Yanukovich na Rada, foram vistas como sinais das hesitações e apreensões no campo governamental. Miroshnichenko disse ao canal a cabo Gromadskogo TV que o chefe de Estado não desejava um desenlace violento e compreendia que a dissolução do Maidan não resolveria nada. Miroshnichenko disse que seria preciso fazer de tudo para que o conflito fosse resolvido pacificamente, e admitiu que a concentração de veículos blindados não contribuía para acalmar os ânimos. Miroshnichenko confirmou que Yanukovich conversou com Aleksandr Turchinov, adjunto da ex-primeira-ministra Yulia Timoshenko, que cumpre pena de 7 anos da prisão na cidade de Carcóvia. Deputados do Partido das Regiões disseram ontem à noite que Yanukovich só pretende dialogar com os líderes da oposição quando tiver concluído a operação de dissolução do Maidan. Da tribuna da Rada, Yuri Lutsenko, ex-ministro do Interior, exortava os membros das forças de intervenção especial a não serem “escravos” de Vladimir Putin. Em uma entrevista com o canal 5 da TV local, pertencente ao político e oligarca Petr Poroshenko, o ex-presidente georgiano Mikhail Saakashvili declarou que “um novo Tiannamen” está acontecendo no centro da Europa, e que Putin comprou o direito a dissolver o Maidan em troca dos 3 bilhões de dólares desembolsados como parte de um crédito de 15 bilhões concedido à Ucrânia. O canal 5, que exibia ao vivo a operação de dissolução do Maidan, interrompeu a transmissão abruptamente, embora outras emissoras continuassem mostrando os acontecimentos.

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