A Casa Branca pede que se investigue a violência na Venezuela

EUA acham que a expulsão de seus diplomatas demonstra a falta de seriedade de Maduro para abordar a situação que se vive o país O Governo da Colômbia, país que teve um canal de TV canal bloqueado na Venezuela, pediu calma às forças políticas do país

Apoiadores do opositor Leopoldo Lopez em marcha desta terça.
Apoiadores do opositor Leopoldo Lopez em marcha desta terça.CHRISTIAN VERON (REUTERS)

A Casa Branca mostrou sua preocupação pela violência ocorrida na Venezuela durante os protestos cidadãs na contramão do Governo que preside Nicolás Maduro e pediu que se faça uma investigação imparcial sobre o emprego da força durante as manifestações. Depois de instar o Executivo venezuelano para que garanta o exercício do direito de manifestação e a liberdade de expressão de todos seus cidadãos, o porta-voz da presidência chamou de falsas as acusações contra os três diplomatas norte-americanos expulsos do país sul-americano considerando a medida mais um exemplo da “falta de seriedade” da Administração chavista no momento de “enfrentar a grave situação vivida no país”.

“Estamos acostumados que o Governo venezuelano trate de distrair a atenção da opinião pública sobre suas próprias ações responsabilizando os EUA ou outros membros da comunidade internacional pelo que ocorre dentro de seu país”, assinalou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney durante a coletiva de imprensa diária. No domingo à noite, Maduro anunciou a expulsão da Venezuela de três diplomatas norte-americanos aos quais acusou de promover e dirigir a manifestação estudantil do último dia 12 de fevereiro que detonou a onda de protestos que aconteceram em toda a nação desde então. O Departamento de Estado, na segunda-feira, e Carney, um dia depois, ressaltaram que essas denúncias são “falsas e sem fundamento”.

Embora não tenha se referido especificamente à prisão do líder opositor venezuelano, Leopoldo López, Carney enfatizou a inquietude dos EUA ante os “ataques do Governo e de grupos afins” contra os manifestantes e pediu a Maduro que “promova o espaço político necessário” para que todos os cidadãos possam ter sua voz. “Pedimos ao Governo da Venezuela que trabalhe para que atenda às queixas de seu povo através de um diálogo real e sincero”, assinalou.

O secretário de Estado, John Kerry, demosntrou a mesma preocupação e fez o mesmo pedido neste fim de semana durante sua viagem a Ásia. "Nos assustam, especialmente, os relatórios sobre as prisões por parte do Governo da Venezuela de manifestantes opositores”, assinalou. Kerry já advertiu sobre a debilitação das instituições democráticas na Venezuela em novembro do ano passado durante um discurso feito na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA). A delegação dos EUA diante desta instituição está trabalhando com o resto dos Estados membros para promover uma declaração que solicite o diálogo no país, segundo assinalou o Departamento de Estado.

Para além da promoção do diálogo e do pedido de uma investigação internacional e independente sobre o acontecido na Venezuela nos últimos dias, não parece que os EUA se vá se envolver de maneira mais direta no conflito entre o chavismo e a oposição. “O futuro da Venezuela corresponde aos venezuelanos decidir”, sublinhou Carney.

Os quase 20 anos de chavismo arrefeceram as relações entre Washington e Caracas, enquanto os laços petrolíferos (EUA são os principais importadores de óleo cru da Venezuela) permitiram que elas não fossem totalmente rompidas. A Administração de George W. Bush optou por manter com o Governo do falecido Hugo Chávez uma política de indiferença para evitar alimentar as provocações anti-imperialistas do chavismo, uma estratégia mantida por seu sucessor, Barack Obama. “Às vezes os pronunciamentos dos EUA mais prejudicam”, reconhece a EL PAÍS Maruja Tarre, antiga diplomata venezuelana, experiente em resolução internacional de conflitos e assessora de comunicação do candidato opositor Henrique Capriles nas últimas eleições presidenciais venezuelanas.

A posição dos EUA é menos morna do que as manifestadas por México ou Colômbia e, ao censurar a repressão por parte do Governo e grupos afins, se posiciona do lado da oposição e não do Executivo chavista, diferentemente dos membros de Mercosul, que no fim de semana descreveram em um comunicado os atos de violência na Venezuela como “tentativas para desestabilizar a ordem democrática” do país.

Colômbia

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, também não escondeu sua preocupação pelo que vem acontecendo nas ruas da Venezuela nos últimos dias. “Da Colômbia, queremos fazer um pedido de calma, um pedido para que se estabeleça canais de comunicação entre as diferentes forças políticas da Venezuela para garantir a estabilidade do país e o respeito às instituições e as liberdades fundamentais”, disse o mandatário durante a entrega de veículos para a Polícia no Caribe colombiano.

Segundo Santos, tudo o que acontece na Venezuela - bom ou mau - tem repercussões na Colômbia, e ele se mostrou disposto a ajudar para “manter a paz na Venezuela”, propondo o diálogo como saída democrática. “Fazemos votos para que se respeitem e se fortaleçam os princípios democráticos e pedimos ao Governo e à oposição que dialoguem sem olhar o passado, para que possa haver uma reconciliação política”, acrescentou.

As declarações foram feitas após ele agradecer a Maduro seu apoio ao processo de paz entre seu Governo e as guerrilhas das FARC desde novembro de 2012. Santos também falou de cuidado “tanto no discurso como nas ações políticas” e pediu que os protestos, “aos quais todo mundo tem direito”, aconteçam sem que se produzam atos violentos. No entanto, o governante aproveitou para fazer um chamado para que se respeitem os direitos humanos dos colombianos que residem na Venezuela, já que ocorreram deportações. “Dizem eles que seus documentos são tirados e depois os deportam”, agregou.

Na sexta-feira passada, a Chancelaria colombiana lamentou a morte de três pessoas depois da manifestação de 12 de fevereiro. E, como o fez hoje Santos, a chanceler María Ángela Holguín pediu o diálogo “aberto e respeitoso”. Nem ela nem Santos se pronunciaram sobre o bloqueio ao sinal do canal internacional de notícias por televisão NTN24, de propriedade do colombiano Carlos Ardila Lulle e cuja sede central é Bogotá, que transmitia ao vivo o que estava ocorrendo em Caracas no dia do protesto.

Sobre o episódio, o presidente Maduro disse que foi uma decisão de Estado. “Tomei a decisão de tirar esse canal fascista do ar. Que vá com seu veneno ao diabo”, expressou o governante em um discurso no último sábado. O presidente da Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), William Castillo, disse que enquanto o site do canal internacional NTN24 continuar com suas “tentativas de apoiar ativamente a desestabilização”, seguirá bloqueado.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, também se manifestou e pediu que os organismos regionais, como a UNASUR, e os movimentos sociais da América Latina defendam “as revoluções democráticas da aberta conspiração” alentada pelo “ império dos Estados Unidos” à administração de Maduro, em declarações a uma emissora regional e difundidas por canais oficiais bolivianos.

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