maría corina machado | deputada da oposição

"O apoio da América Latina a Maduro é inconcebível e inaceitável"

Uma das dirigentes da oposição na Venezuela critica a indiferença internacional diante da situação de violência em seu país e defende que os protestos continuem

A deputada María Corina Machado fala aos manifestantes em um protesto contra Nicolás Maduro, no último dia 16 de fevereiro.
A deputada María Corina Machado fala aos manifestantes em um protesto contra Nicolás Maduro, no último dia 16 de fevereiro.C. G. R. (REUTERS)

A deputada María Corina Machado é uma das figuras mais combativas e firmes contra o chavismo na Venezuela. Seu discurso apaixonado e direto voltou a ganhar protagonismo neste dias de protestos contra o Governo de Nicolás Maduro, um depois do outro desde o dia 12 de fevereiro, quando uma manifestação estudantil acabou com três pessoas mortas, mais de uma centena de feridos e dezenas de detidos. Machado fala com EL PAÍS em conversa telefônica enquanto se prepara para a acompanhar um dos líderes mais influentes da oposição venezuelana, Leopoldo López, na marcha que ele mesmo convocou para esta terça-feira, em que planeja se entregar para o Ministério do Interior e Justiça, que o acusa de ser o principal instigador das últimas demonstrações de repúdio ao executivo.

Machado e López surgiram como os principais líderes de um setor do antichavismo que adota o confronto nas ruas como estratégia para derrubar Maduro, contrastando com a postura menos beligerante defendida pelo último candidato presidencial da oposição, Henrique Capriles. A deputada defende com veemência a importância da "luta pacífica", que vêm demonstrando nos últimos dias seus compatriotas em diversas cidades da Venezuela, e lamenta, até com mais intensidade, a indiferença da comunidade internacional.

Pergunta. Como estão os ânimos da oposição após o discurso deste fim de semana do presidente Maduro?

Resposta. Estamos mais certos, mais firmes, mais unidos e mais decididos a seguir nossos jovens estudantes. Ontem (domingo) foi um dia extraordinário em termos de mobilização cidadã em todo o país. Vocês não podem ver as imagens porque os meios de comunicação estão absolutamente submetidos à censura e à autocensura, mas de modo espontâneo, do meio-dia até a noite, não só em Caracas, mas em todos os povoados e zonas rurais, os venezuelanos foram às ruas de forma pacífica, cívica e espontânea para expressar seu apoio aos nossos jovens. Se ouviu, durante todo o discurso do senhor Maduro, o panelaço como sinal de protesto e repúdio contra o atropelo desencadeado por este regime e sua repressão brutal.

P. A senhora defende que a rua é a única opção na Venezuela. Como se pode ganhar nas ruas contra o Governo de Maduro?

R. Os venezuelanos estão há muitos meses nas ruas. No ano passado, foram mais de 5.000 protestos. Os setores mais humildes do país protestam por razões econômicas, pelos salários precários, a falta de produtos de primeira necessidade, a situação horrorosa em que se encontra a saúde e, também, pela insegurança e a violência desenfreada. Nos últimos dias, vimos como estes protestos reivindicativos se justaram a um protesto político, que tem na sua essência as mesmas reivindicações, é o mesmo protesto econômico e social. O que propomos é que, diante de um regime que persegue, reprime, tortura e censura, a sociedade possa enfrentá-lo com articulação e organização cidadã em diferentes planos de luta e um deles, fundamental, é a manifestação massiva e cívica nas ruas.

P. Podemos estar diante da Primavera Árabe venezuelana?

R. Os venezuelanos temos dado, nos últimos anos, evidências contundentes de nossa vocação democrática e disposição para lutar. Agora estamos dando um novo passo rumo à transição democrática. As demonstrações do poder cidadão e sua disposição para lugar de maneira cívica e pacífica comoveram o país, e as tentativas do Governo de provocar para gerar violência acabaram deixando as pessoas mais indignadas e desmascararam o regime.

A solidão da Venezuela

P. Em junho do ano passado, a senhora denunciou neste jornal o silêncio das democracias latinoamericanas após um triunfo que teria sido fraudulento de Maduro. O que você opina sobre a indiferença de importantes aliados da Venezuela, como a Colômbia, e do apoio dos principais membros do Mercosul, como Brasil e Argentina, ao Executivo venezuelano após as manifestações dos últimos dias em seu país?

R. Como venezuelanos, consideramos inconcebível e inaceitável. Pensar que a Unasul se reuniu de forma emergencial porque o avião de Evo Morales foi detido por 13 horas, pensar que fez o mesmo por um levante policial contra o presidente Correa. E, na Venezuela, grupos próximos ao regime reprimem, assassinam e torturam estudantes e nem Unasul nem CELAC nem a OEA convocaram uma reunião de emergência, é a traição máxima às cláusulas democráticas destas instituições e às solidariedade dos povos da América Latina. Estamos à espera de uma voz de apoio firme, clara e inequívoca aos estudantes e cidadãos que estão sendo agredidos por este Governo e contra a repressão dirigida pelo Estado, contra a perseguição política, a censura e o bloqueio dos meios de comunicação que hoje temos na Venezuela. A quem levantamos nossa voz, com a segurança de que teremos seu apoio, é aos latinoamericanos, aos europeus e aos cidadãos do mundo. Todos têm de entender que, nessas horas, precisamos do respaldo internacional.

P. A senhora também pediu aos Estados Unidos mais clareza com respeito à Venezuela, mas há quem considere que sempre que Washington interveio de maneira mais explícita acabou dando asas ao chavismo. Concorda com essa opinião?

R. Para mim, esta é uma chantagem que acaba inibindo muitas pessoas de boa vontade e dando uma desculpa a outros, que têm posições muito cômodas de ignorar o que está acontecendo aqui e que, provavelmente, estão apostando que o Governo, pela força ou pelo desgaste, consiga calar e fazer sucumbir a população venezuelana. Pois saibam que não vão nos dividir e não vão nos calar. Podem nos prender e nos neutralizar, mas virão outros depois de nós.

Risco de oposição dividida

P. A senhora fala que não irão dividi-los, mas justo nestes dias está se falando de uma fratura na oposição venezuelana. Acha que a diferença de visões na estratégia contra Maduro pode prejudicar a coalizão oposicionista?

R. Nós somos uma coalizão democrática e nosso propósito comum é derrotar um regime que levou a Venezuela à ruína, à violência e ao confronto. Mas unidade não significa unanimidade e, por isso, temos diversas abordagens estratégicas e táticas, algo compreensível e que demonstra maturidade política. Agora, nos últimos dias, diante da convocação dos estudantes, todos os membros da Mesa da Unidade Democrática elevaram suas vozes em apoio a eles, a grande mobilização de 12 de fevereiro teve o apoio de todos os membros da Unidade e o próprio Henrique Capriles compareceu. Quero pedir a todos que entendam que nesta hora todos os membros da Unidade, ainda que haja diferenças, estamos juntos e isso é o principal que devemos transmitir aos venezuelanos e ao mundo.

P. Capriles erra ao achar que somente nas urnas se pode derrotar o chavismo?

R. A resposta do Governo, com uma repressão brutal ao direito de manifestação pacífica, é um elemento que valida nossa posição de que não é possível baixar a cabeça ou ignorar a natureza deste regime.

P. Que consequências podem ter para as mobilizações a possível detenção de López na manifestação desta terça-feira?

R. Leopoldo não cometeu delito algum. Nós acompanhamos os protestos dos jovens e temos insistido no caráter pacífico e cívico delas. Quem empregou a violência contra os cidadãos foi o regime e seus grupos paramilitares criminosos. Nós vamos acompanhar Leopoldo e, aconteça o que acontecer amanhã (terça), seguiremos com ele. Se fizerem algo, se o prenderem, estarão prendendo todos os venezuelanos. Se fizerem o mesmo comigo, que já anunciaram que será o próximo passo, depois de mim virão outros e serão outros que continuarão o processo. O que deve ficar claro para o mundo e o regime cubano é que aos venezuelanos não nos farão desistir.

P. A senhora demonstrou no passado que não se deixa intimidar pelo Governo ou os deputados governistas. O que teme María Corina?

R. Tenho medo da indiferença de alguns atores de enorme responsabilidade nos meios de comunicação, nos setores intelectuais, em alguns setores econômicos e na comunidade internacional que, subestimando a força do povo venezuelano e violando os valores que nos animam ou traindo estes valores, optaram pela indiferença. A eles eu digo, quem acredita que se abster nestas horas é o mesmo que permanecer neutro, se equivoca. O que estão é colaborando com um processo de destruição.

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