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Copa do Mundo 2014

Curitiba escapa de um vexame mundial

A FIFA ratificou a cidade como sede da Copa apesar do atraso nas obras do estádio. A exclusão teria abalado a imagem do país

Operários trabalham nas obras da Arena da Baixada.
Operários trabalham nas obras da Arena da Baixada. REUTERS

Acabou a ameaça de um vexame histórico, após um mês de intenso suspense. O município brasileiro de Curitiba foi ratificado nesta terça-feira pela FIFA como cidade-sede da Copa do Mundo. Com o estádio mais atrasado entre os cinco que ainda faltam ser entregues, a capital do Estado do Paraná (Sul do país), escolhida pela Espanha para se concentrar durante o torneio, recebeu um novo sinal verde após o próprio anúncio original de sua escolha, em 2009. A decisão, agora, é definitiva. Não haverá tempo para uma mudança de rumos até o Mundial.

“Curitiba reconfirmada como sede da #Copa2014, com base nas garantias financeiras, compromisso de todas as partes e progresso feito”, afirmou o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, em sua conta no Twitter à tarde. “Será uma corrida apertada contra o tempo e o esforço coletivo de todas as partes envolvidas em Curitiba deve continuar em ritmo forte”, completou. Horas depois, no entanto, ele reclamaria publicamente de que a mensagem teria sido postada antes da hora, e que, pelo visto, não tem “controle sobre o próprio Twitter”.

O novo prazo para a inauguração da Arena da Baixada, estádio escolhido pela capital paranaense para a Copa, é 15 de maio. Antes dessa data deverão ser realizados dois eventos-testes, um no final de março e outro em abril. A FIFA, que agora espera receber o estádio dois meses antes do Mundial, trabalhava com 31 de dezembro do ano passado como prazo final para a entrega de todas as arenas que ainda faltavam para o evento.

Na manhã desta terça-feira, o consultor especial da FIFA para estádios, o arquiteto suíço Charles Botta, se reuniu com os representantes da organização local. Depois do encontro, seguiu para o estádio acompanhado de uma equipe técnica, a fim de visitar as obras e emitir um parecer. Valcke foi comunicado do resultado dessa avaliação antes da coletiva de imprensa de que participaria para comentar a decisão, e que teve como pano de fundo o início do congresso técnico da entidade em Florianópolis, também na região sul do país.

Nessa coletiva, o secretário-geral destacou que Curitiba entendeu a “pressão” colocada para que houvesse a aceleração das obras. Um dos pontos considerados chave foi a garantia dada à entidade de que não faltarão recursos para isso. Um novo pedido de financiamento junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já foi protocolado pela agência de fomento do governo estadual, com a expectativa de liberação nos próximos dias de 65 milhões de reais (27,1 milhões de reais) apenas para as obras no estádio.

O secretário-executivo do Ministério do Esporte brasileiro, Luis Fernandes, declarou que o suspense envolvendo a Arena da Baixada deixa uma lição aos organizadores. “Teria sido melhor ter os estádios prontos em dezembro? Claro que sim. O que está acontecendo agora, por causa do atraso, é que atividades que seriam feitas em sequência estão sendo feitas em paralelo, como a instalação dos assentos. Mas no final teremos um estádio bonito, eficiente.”

Ele pediu também que a aceleração no ritmo das obras não seja relaxado daqui para frente. “O monitoramento vai ser intensificado”, avaliou. Ainda de acordo com Fernandes, desde a última visita houve a finalização da instalação do gramado, da cobertura principal, de ajustes na estação principal de abastecimento de energia elétrica para o estádio e a aceleração da colocação dos assentos (cerca de 15 mil). “A própria imagem visual do estádio hoje é totalmente diferente de três semanas atrás”, acrescentou.

Para que os novos prazos em Curitiba sejam respeitados, uma nota divulgada pela FIFA estima ainda que as obras na Arena da Baixada contarão agora com um mínimo de 1.500 operários. Desde a visita técnica anterior da entidade ao estádio do Atlético Paranaense, no fim de janeiro, haviam sido contratados cerca de 300 trabalhadores extras para as obras da arena, somando-se aos 1.000 que já estavam no local.

As atividades nas áreas elétrica e de tecnologia da informação, por exemplo, tiveram seus horários estendidos. As próprias horas que antecederam a visita de Botta nesta terça-feira foram marcadas por um ritmo intenso no canteiro de obras e por uma forte movimentação dos organizadores locais nos bastidores a fim de manter Curitiba na Copa.

Essa aceleração nas obras se seguiu a uma própria ameaça de exclusão feita por Valcke em 21 de janeiro. Na ocasião, além de colocar esta terça-feira como prazo limite para uma definição sobre a manutenção de Curitiba entre as cidades-sedes, ele afirmou que o estádio estava “atrasado e definitivamente fora dos prazos (...) para o melhor uso pela FIFA e pela Copa”.

O custo da exclusão de Curitiba seria muito maior que o de uma confirmação. Não há precedentes de exclusão de uma cidade-sede por atrasos às vésperas do Mundial. Além do abalo inevitável à imagem do Brasil como um país capaz de realizar grandes eventos, haveria transtornos com o planejamento das seleções, a hospedagem dos torcedores e a transferência dos ingressos, que já começaram a ser vendidos. Consumidores que se considerassem lesados pela decisão da FIFA poderiam ir à Justiça para reaver valores ou quantificar outros danos.

A falta de propósito de um estádio privado –mas que contou com financiamento público– para se adaptar ao chamado “padrão Fifa” e, assim, poder sediar a Copa, também seria colocada em xeque. O principal motivo dos atrasos nas obras foi justamente a dificuldade para a liberação de recursos. A previsão orçamentária atual para a reconstrução da arena está em cerca de 326,7 milhões de reais (136,2 milhões de dólares). O custo inicial era de 184 milhões de reais (76,2 milhões de dólares), mas ficou claro que essa quantia não daria conta do recado. E tudo isso em um ano eleitoral no Brasil, tanto para o governo estadual como para o federal.

Com capacidade prevista para aproximadamente 42.000 espectadores, a Arena da Baixada sediará quatro jogos da Copa, todos na primeira fase: Irã x Nigéria, em 16 de junho; Honduras x Equador, dia 20; Austrália x Espanha, dia 23; e Argélia x Rússia, dia 26.

O suspense em Curitiba acabou. Resta agora saber se o enredo não será um drama até a Copa.