Napolitano pede a Renzi que forme um governo na Itália

O secretário do Partido Democrata aceita "com reservas" o encarrego do chefe de Estado, pelo que se tomará um tempo para fazer suas consultas

Matteo Renzi em conferência de imprensa nesta segunda-feira pela manhã.

O secretário do Partido Democrático (PD), Matteo Renzi, de 39 anos, aceitou nesta segunda-feira “com reservas” a missão que o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, lhe conferiu para formar um novo governo, afirmou a presidência da República. Isso significa que Renzi levará um tempo para consultar outras forças políticas que entrarão na coalizão para só depois comunicar ao presidente a sua resposta definitiva.

Há dois pré-requisitos indispensáveis para que Renzi possa formar um governo. O primeiro é que deve formar uma equipe de ministros à altura de alguém que está em tão alta estima. E o segundo é inventar um programa de governo que mantenha o apoio do partido Novo Centro-Direita (NCD), de Angelino Alfano, sem causar deserções nas próprias fileiras. E é aqui, bem aqui, onde a brilhante carreira de Matteo Renzi começa a sofrer os primeiros contratempos.

Se não bastasse, Renzi está bem ciente que, embora tenha deixado o veredicto das urnas para mais tarde, as eleições europeias são em 24 e 25 de maio e nesta ocasião poderá ver se os italianos voltarão a confiar na política ou se, como mostram as pesquisas, decidirão apostar na proposta de total mudança do Movimento 5 Estrelas (M5S), de Beppe Grillo.

Mas isso, especialmente no caso da Itália, é ter muita confiança. O primeiro desafio – ao qual Renzi dedicou toda esta segunda-feira em Florença – é formar uma equipe de governo capaz de emitir os primeiros sinais de mudança. E já nisso, de acordo com a imprensa italiana, o candidato a primeiro-ministro começou a dar murro em faca.

Aparentemente, tanto o escritor Alessandro Baricco como o conselheiro da empresa de óculos Luxottica, Andrea Guerra, lhe disseram não. Que uma coisa é a amizade e outra é usar o prestígio profissional nas areias sempre movediças da política italiana. Tampouco parece provável que Renzi decida recorrer às figuras históricas da centro-esquerda, tanto que sua chegada à política nacional foi precisamente um apelo para enviar as antigas glórias ao ferro-velho. Só o respeitado professor Romano Prodi, duas vezes primeiro-ministro da Itália e ex-presidente da Comissão Europeia, parece querido por Matteo Renzi, mas falta saber se isso é recíproco.

É certo que um ou outro ministro de Letta permanecerá na equipe de Renzi, como a ministra das Relações Exteriores, Emma Bonino, envolvida em uma difícil negociação com a Índia sobre o destino de dois marinheiros italianos presos naquele país depois de matarem dois pescadores ao, aparentemente, confundir a dupla com piratas. Nos planos não aparece, no entanto, Cécile Kyenge, corajosa ministra da Integração e uma das mais determinadas apostas de Letta para tentar limpar as brasas do racismo enraizado na Itália. Seria, portanto, muito grave que Renzi tirasse a ministra em troca do voto circunstancial da Liga Norte.

O programa eleitoral é a próxima questão espinhosa. Ou, quase melhor, uma série de medidas que deixem claro ao mundo inteiro desde o primeiro minuto que Renzi chegou, de verdade, para mudar a Itália. Meio brincando, meio sério, Matteo Richetti, um dos deputados mais próximos ao secretário do PD, diz que não é difícil imaginar qual será o programa do novo governo: “É muito simples. Basta levar em consideração tudo o que a política disse e não fez nos últimos anos”.

Não é nenhuma loucura. Os italianos, que acompanham com paixão e grande frustração as vicissitudes da política, podem citar os eternos desafios pendentes para um alinhamento do país: uma nova lei eleitoral – a atual não é apenas inconstitucional, mas uma chave para o desgoverno –; a eliminação do Parlamento com duas câmaras – convertendo o Senado em uma câmara de representação regional, reduzindo o número de senadores de 315 para 150 e deixando-os sem remuneração -; medidas eficazes para a criação de empregos com base em dois pilares: a redução da pressão fiscal – uma das mais elevadas da Europa – e a luta contra uma burocracia gigante realmente incapacitante. Porém há muitos mais. Renzi sabe que sua luta não será credível se não cercear os privilégios de certos sindicatos – advogados, cartorários, farmacêuticos e taxistas – que são considerados intocáveis e, na verdade, são. Mario Monti, que tentou essa batalha, pode atestar.

Isso que o primeiro-ministro tecnocrata teve, pelo menos em seus primeiros meses, o apoio de todo o espectro político. Renzi não terá essa sorte. Não só Angelino Alfano, secretário do Novo Centro-Direita (NCD), começou a colocar obstáculos, advertindo sobre sua relutância em apoiar uma virada política mais à esquerda, mas uma dúzia de deputados do PD já estaria pensando o mesmo, porém ao contrário: de abandoná-lo caso decida negociar com a centro-direita. Não demorará muito para Renzi comprovar que, na endiabrada política italiana, uma coisa é dizer, e outra é fazer.

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