Maduro corta o transporte nos redutos da oposição em Caracas

O presidente venezuelano anuncia durante uma marcha a suspensão dos serviços de metrô e ônibus para os municípios no leste da capital, liderados pela oposição

Simpatizantes do presidente Maduro, no protesto deste sábado.
Simpatizantes do presidente Maduro, no protesto deste sábado.Carlos Garcia Rawlins (REUTERS)

Nicolás Maduro impôs a lógica do bloqueio no conflito político venezuelano, ou, como o próprio presidente prefere expressar, na sua luta contra o fascismo. Em resposta a três dias de agitação estudantil nas ruas, com protestos que deixaram três mortos, 70 feridos e cerca de 200 detidos, o presidente venezuelano decidiu suspender os serviços de metrô e ônibus para os municípios da região metropolitana a leste de Caracas, como Sucre, Chacao e Baruta, uma região de classe média e governada por prefeitos da oposição.

Três importantes estações de metrô no leste da capital venezuelana – Chacao, Altamira e Los Cortijos – permanecem fechadas desde sexta-feira. Mas o que parecia até este sábado ser uma medida de precaução para proteger as instalações do sistema contra tumultos e focos de violência tomou outra forma nas palavras do mandatário.

Maduro, que não deu prazo para suspender a medida, nem a forma prática de implementá-la – a linha principal do metrô atravessa o vale de Caracas de leste a oeste – justificou sua decisão citando os danos que manifestantes da oposição teriam causado em equipamentos e estações do metrô. Ao sitiar esses municípios, além do efeito exemplar de punição, o herdeiro político de Hugo Chávez também tem o objetivo, na prática, de dificultar a mobilização dos manifestantes, por um lado, e anular o apoio que a população, agora sujeita a dificuldades imprevistas, vinha oferecendo a eles. O presidente, que por muito tempo foi motorista de ônibus e dirigente do sindicato da categoria, enumerou com toda propriedade as rotas urbanas e suburbanas que deixariam de funcionar.

Este anúncio tão beligerante ocorreu, paradoxalmente, no fim de uma “Marcha pela Vida e Paz”. Milhares de partidários do governo tomaram neste sábado o trecho desde a Praça Venezuela de Caracas até a central Avenida Bolívar, local onde tradicionalmente as forças políticas mediram suas forças. Desta vez, embora não houvesse uma campanha eleitoral – algo raro para a Venezuela – o governo chavista se viu em meio a uma agitação popular depois que estudantes da oposição convocaram desde quarta-feira protestos em massa em pelo menos doze das principais cidades do país.

Como instrumento para a pacificação, Maduro mostrou a sua proclamada “mão de ferro” em um comício no fim da marcha. Gritou contra o líder do partido opositor Vontade Popular (VP), Leopoldo López, contra quem o Judiciário, acionado pelo governo, decretou uma ordem de prisão sob a suspeita de ele ter sido o instigador dos distúrbios desta semana. “Covardinho, porque nem sequer chega a ser covarde, que é o que os fascistas são”, disse Maduro referindo-se ao ex-prefeito do município de Chacao, que teria passado à clandestinidade. “Não haverá nenhuma fraqueza com o fascismo, daremos rua para quem pede rua”.

Maduro também tachou de “cúmplices” os líderes da Mesa da Unidade Democrática, como Henrique Capriles Radonski ou Ramón Guillermo Aveledo, que, de acordo com sua opinião, não se separaram com claridade da conduta violenta que acomete a ala mais radical da aliança opositora. Foi ainda mais longe e advertiu que esses setores estariam recrutando “pistoleiros” para atentar contra a sua vida.

Ele aproveitou a crise dos últimos dias na ordem pública para reunir seus partidários – ultimamente fragmentados por disputas internas – em torno da força gravitacional da polarização. “Na Venezuela não há três, quatro ou cinco opções”, delimitou, “apenas há duas que se enfrentam. Uma é dos que sabotam a economia, tiram comida do povo, manipulam os jovens. E a outra é a dos que queremos trabalhar, dos patriotas”.

No entanto, o presidente surpreendeu quando demonstrou certa distância de aliados fiéis, mas incontroláveis do chavismo: os chamados grupos “paramilitares” que servem de batalhões de choque em áreas populares e na rua. “Se alguém que veste camiseta vermelha (a cor do chavismo) puxar uma arma na rua para atacar outro, esse não é chavista!”, afirmou diante de um público mais ou menos despreocupado, ao qual pediu, caso a parábola não tivesse sido suficientemente explícita, que levantasse as mãos em sinal de aprovação. “Vocês entendem o que eu quero dizer?”.

As vítimas fatais dos distúrbios desta semana foram três homens assassinados por disparos de bala. Um dos mortos, Juan Montoya, era líder reconhecido dos grupos “paramilitares” do 23 de Janeiro, um bairro de classe trabalhadora a noroeste de Caracas, famoso por sua tradição mais que cinquentenária de grupos insurgentes. Montoya encarnou por um tempo o papel de Comandante Murachí de los Carapaicas, um grupo armado no bairro. Em 2008, ele participou de um ataque a bomba contra a sede do sindicato Fedecámaras pelo qual passou um tempo na prisão. Os grupos paramilitares homenagearam Montoya na sexta-feira durante seu velório.

Esses “grupos” participaram ativamente da repressão às manifestações estudantis dos últimos dias em Caracas, Mérida e outras cidades venezuelanas. Agora, com os ânimos esquentados pela morte de Montoya, eles pedem justiça em um caso que as autoridades policiais ainda não resolveram. Contidos com dificuldades pelo governo, esses grupos despertam receios nas forças armadas, incluindo as autoridades que são partes inseparáveis do chavismo. “Há pessoas que pensam ser mais revolucionárias por saírem com um fuzil”, disse Maduro, em sua crítica mais velada aos grupos.

A marcha pró-governo não serviu só como resposta aos dias anteriores de agitação, mas também comemorou a apresentação, menos de 24 horas antes, do “Plano de Pacificação” com o qual o governo revolucionário prometeu resolver a grave situação de insegurança que aflige os venezuelanos. De fato, em plena noite do Dia dos Namorados (14 de fevereiro), entre invocações ao amor, cânticos e ritos ecumênicos, o herdeiro político de Hugo Chávez recebeu o documento do ministro do Interior e Justiça, o general Miguel Rodríguez Torres.

Durante a cerimônia, Maduro disse que sua casa natal, em Los Chaguaramos, no sudoeste de Caracas, havia sido alvo nas últimas horas de assédio de grupos da oposição. “Eu não vou permitir que isso aconteça e que ataquem famílias só por serem chavistas”, advertiu. Ele também anunciou que, no âmbito do plano, será criada uma brigada secreta com tropas militares e policiais “para combater o narcotráfico e os assassinatos por encomenda que nos chegam da Colômbia”.

O evento da sexta-feira, Dia do Amor e da Amizade na Venezuela, aparentemente entusiasmou o presidente até o ponto em que, durante seu comício na avenida Bolívar, afirmou que o slogan dos revolucionários venezuelanos é “festejar e triunfar”. Mas, enquanto ocorria a cerimonia de apresentação do plano de paz em um parque histórico no centro da cidade, transmitida pela rede nacional de rádio e TV, esquadrões antichoque lançavam gás lacrimogêneo, jatos de água e atiravam contra manifestantes mais ao leste da capital na tentativa de dissolver o último reduto dos rebeldes estudantis na Grande Caracas, a Praça França, em Altamira.

Embora na manhã deste sábado, dia da marcha governista, a paz parecia ter voltado às ruas de Caracas e de outras cidades, e a maioria das cerca de 200 pessoas detidas durante os distúrbios, incluindo três jornalistas, havia sido solta sob certas condições, a tensão ainda era claramente percebida.

Centenas de estudantes rebeldes e mães de jovens feridos ou detidos se reuniam na Praça Alfredo Sadel, no distrito de Las Mercedes, a sudeste da capital, para combinar novas ações. Muitos outros se mobilizaram na avenida Francisco de Miranda, perto de onde o manifestante Robert Redman, de 31 anos, morreu com um tiro na cabeça. A Guarda Nacional dispersou um grupo de rapazes que tentava se entrincheirar novamente em Altamira.

Enquanto isso, desde a noite de sexta-feira à noite, um contra-ataque de hackers contrários ao governo afetou a conta no Twitter do Partido Socialista Unido da Venezuela, governista, e páginas na Internet de 60 instituições do Estado, no que parecia ser um novo episódio na guerra cibernética venezuelana. Pouco antes disso, a rede social Twitter confirmou que um agente externo estava bloqueando o carregamento de conteúdos fotográficos e de vídeo emitidos a partir da Venezuela.

As autoridades, entretanto, não estavam atrás apenas do paradeiro de Leopoldo López. Também foi decretada a prisão do ex-embaixador venezuelano em Bogotá, Fernando Gerbasi, e do ex-chefe de custódia do falecido presidente Carlos Andrés Pérez, Iván Carratu, que, de acordo com uma conversa telefônica gravada sem autorização judicial e transmitida pela mídia estatal, pareciam saber com antecedência dos planos de um golpe de Estado que, ainda de acordo com a versão oficial, os protestos teriam tentado desencadear. Na sexta-feira à noite, após a busca infrutífera na residência de Gerbasi em Caracas, a polícia política deteve brevemente a filha do diplomata para interrogatório.