Crise no Governo da Itália

Enrico Letta anuncia sua demissão como premiê após a votação de seu partido

O Partido Democrático vota a favor de uma mudança de Governo depois de seu líder, Matteo Renzi, agradecer a Letta pelos "serviços prestados" e apontar o caminho da renúncia

Enrico Letta, durante uma entrevista coletiva na quarta-feira, em Roma.
Enrico Letta, durante uma entrevista coletiva na quarta-feira, em Roma.FILIPPO MONTEFORTE (AFP)

Um minuto depois de o Partido Democrático (PD) aprovar por 136 votos a favor, 16 contrários e 2 abstenções que a Itália necessita um novo Governo, o primeiro-ministro do país, Enrico Letta, anunciou, mediante um comunicado, que apresentará sua renúncia nesta sexta-feira ao presidente da República, Giorgio Napolitano.

A centro-esquerda italiana não precisa de inimigos. Seus dirigentes bastam e sobram para um ajuste de contas de forma apaixonada. Em um momento de relativa calma política, quando a economia parecia se recuperar timidamente e Silvio Berlusconi ia se apagando entre condenações definitivas e julgamentos pendentes, o novo líder do Partido Democrático (PD), Matteo Renzi, mirou nesta tarde no primeiro-ministro, Enrico Letta, a emboscada que vinha preparando faz dois meses. Depois de não conseguir na quarta-feira que Letta saísse pelos próprios pés, o prefeito de Florença aproveitou a reunião da direção do PD para agradecer a Letta pelos serviços prestados e advertir de que é “necessária e urgente” a formação de um novo governo que, de agora até 2018, impulsione a recuperação e promova as reformas pendentes. Não o disse expressamente, porque isso sequer fazia falta: o plano de Renzi era de que Letta se fosse para que ele ocupe o seu lugar.

De fato, Matteo Renzi deu razão a aqueles que o classificam como extremamente ambicioso: “Há uma ambição desmesurada que temos que ter, partindo de mim até o último inscrito no PD, porque a Itália não pode viver em uma situação de incerteza e instabilidade”. Segundo o líder da centro-esquerda, só há duas saídas para isso: “Encontramo-nos em uma encruzilhada. Ou voltamos a eleições antecipadas ou podemos transformar essa legislatura em constituinte”. Renzi descartou em seguida as eleições –como já o fez na quarta-feira o presidente da República, Giorgio Napolitano—porque, entre outras coisas, não asseguram o triunfo de sua formação: “O caminho das eleições tem encanto e atrativo, mas nesses momentos não temos um regulamento eleitoral que garanta a governabilidade. Eleições teriam um valor purificador, mas agora não serviriam para resolver os problemas do país”.

Renzi não deixou de ter graça quando, apesar da pressão midiática a que submeteu Letta nas últimas semanas, disse: “O meu não será um processo contra o Governo; não se trata de culpar o Governo pelo que aconteceu, senão de entender se estamos em condições de virar uma nova página”. Já Enrico Letta, que na quarta-feira à tarde deixou claro que sua intenção é seguir adiante e apresentou um novo projeto de legislatura, decidiu não ir à direção de seu partido e esperar no Palácio Chigi o veredito de seus colegas de legenda.

Não obstante, tem transcendido que o primeiro-ministro havia decidido cancelar a viagem a Londres que tinha previsto para os dias 24 e 25, o que se interpreta como mais um sintoma de que está nas últimas. Isso sim, mas sem perder a compostura. Na quarta-feira disse que as emboscadas que uns e outros prepararam contra ele desde o dia em que chegou à presidência do Governo o obrigaram a aprofundar sua já enorme capacidade de permanecer tranquilo. “Se esse assunto fracassar”, disse, “posso ir dar aulas zen em qualquer escola oriental”.

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