O Irã se reinventa no 35º aniversário da sua revolução

O presidente Rohani tenta reintegrar seu país na comunidade internacional para salvar a República Islâmica

O líder supremo iraniano, Ali Jamanei, no último dia 8 de fevereiro.
O líder supremo iraniano, Ali Jamanei, no último dia 8 de fevereiro.HO (AFP)

Os iranianos comemoram nesta terça-feira o 35º aniversário da revolução que converteu seu país numa república islâmica. Os festejos coincidem este ano com a tentativa do Irã de se reintegrar à comunidade internacional da qual foi afastado por seu enfrentamento com os EUA. Mas pretende fazê-lo sem renunciar, ao menos formalmente, aos valores daquela revolução que muitos consideram fracassada. A chave para consegui-lo é a negociação sobre o programa nuclear que, para uma parte do regime, constitui a garantia da sua perpetuação, mas cuja manutenção a todo custo é responsável pelas sanções que asfixiam a economia.

Em seu primeiro discurso pelas efemérides, o presidente Hassan Rohani qualificou hoje, terça-feira, essas medidas de “brutais, ilegais e equivocadas”. Depois de garantir que os países vizinhos não têm nada que temer do Irã, descartou abandonar o programa nuclear e reclamou negociações “justas” com as grandes potências. “Vamos continuar o caminho (...) em direção ao auge do progresso e da ciência, especialmente a da tecnologia nuclear civil”, garantiu Rohani diante das centenas de milhares de iranianos que acudiram à praça de Azarí (Liberdade, em persa), como todo ano.

Suas palavras buscavam sem dúvida fazer frente às críticas daqueles que o acusam de estar claudicando diante do Ocidente. Desde a sua chegada ao governo no último verão, as tensões e contradições que enfrenta se tornaram evidentes. Há apenas quatro dias, a máxima autoridade do país, o aiatolá Ali Jamenei, voltou a sentir a necessidade de pedir tolerância à oposição conservadora que não para de criticar a negociação nuclear com as grandes potências. Já se tornou habitual que, diante de cada pequeno gestou ou avanço, a ala dura do regime lance ataques ao presidente ou ao chefe das negociações, o ministro de Relações Exteriores Mohammad Javad Zarif.

“Faz só alguns poucos meses que o governo tomou as rédeas. É preciso dar tempo pra que seus membros implementem seus planos”, declarou o líder supremo aos comandos da Força Aérea. A mensagem ia claramente para além dessa audiência militar.

Os rivais políticos de Rohani, que inicialmente silenciaram sobre suas divergências, já começaram a lhe dar descaradas rasteiras. Uma das mais evidentes aconteceu na última quarta-feira quando uma anunciada intervenção televisionada atrasou-se em mais de uma hora, oficialmente por “problemas técnicos”. Entretanto, Rohani acusou o responsável pela televisão estatal (um dos centros de poder controlados pelos conservadores) de obstaculizar seu “debate com as pessoas”. Ao que parece, houve divergências sobre o jornalista que iria entrevista-lo.

Durante essa intervenção, o presidente defendeu o plano de ação assinado com as potências em Genebra e qualificou-o de benéfico para ambas as partes. Seus opositores asseguram que o que Irã ganhou com esse pacto transitório (um levantamento parcial das sanções durante seis meses para a negociação de um acordo definitivo) não compensa aquilo a que teve que se comprometer em troca (o congelamento de seu programa nuclear).

Significativamente, Rohani prestou contas de seus problemas com a televisão iraniana através da sua conta no Twitter, cujo acesso está proibido no Irã. Desbloquear as redes sociais é uma das promessas eleitorais que o presidente ainda não pode cumprir devido à oposição dos ultraconservadores. Esses insistem em que se trata de instrumentos de captação ideológica e cultural do Ocidente.

Da mesma forma, suas tentativas de fechar as feridas abertas pela repressão aos protestos de 2009 estão enfrentando muitos obstáculos. Embora durante a campanha ele tenha prometido libertar os que foram presos por aqueles protestos, incluindo os líderes reformistas, Mehdi Karrubí, Mir Hosein Musaví e a esposa desse, Zahara Rahnavard, apenas uma dúzia de presos políticos foi libertada. Na semana passada, um filho de Karrubí anunciou em seu Facebook que as autoridades haviam permitido que seu pai voltasse da residência oficial onde estava detido para casa, mas ele continua em prisão domiciliar.

O presidente também não conseguiu que os milhares de estudantes expulsos da universidade desde 2009 por suas simpatias reformistas fossem reintegrados a essa instituição. Em setembro, ordenou que fossem readmitidos os afastados entre 2011 e 1013, mas os conservadores bloquearam sua decisão no parlamento. No mês passado três deputados apresentaram uma queixa contra o Ministro de Ciência, Pesquisa e Tecnologia, Reza Faraji Dana, pela decisão de seu departamento de permitir que 400 estudantes marcados com as sinistras estrelas retomassem sua educação. Também ameaçaram apresentar uma moção de censura contra o responsável pela substituição dos reitores mais conservadores.

Assim, Rohaní, um clérigo do sistema com um enfoque político pragmático, parece empenhado em levar adiante o pacto nuclear para garantir a sobrevivência da república islâmica. Ontem, numa reunião com embaixadores e enviados estrangeiros para o 35º aniversário da revolução reiterou que seu país está pronto para um acordo definitivo sobre o tema com as potências. Muitos analistas estão convencidos de que só com essa carta na mão ele poderá levar a cabo as reformas internas que prometeu.