O Vaticano pede paciência

Roma pede que não "apressem o Papa” para fazer as reformas O relatório sobre pedofilia levanta bolhas

O papa Francisco em uma missa em São Pedro.
O papa Francisco em uma missa em São Pedro.TONY GENTILE / Cordon Press

O relatório da ONU sobre a pedofilia  acertou o Vaticano como um tiro. A queima-roupa. Das portas para fora, os porta-vozes autorizados do Vaticano consideram que o relatório que acusa a Igreja de encobrir os abusos a menores cometidos por sacerdotes é exagerado, redigido com ojeriza e sem ter em conta os esforços que, desde o final do pontificado de Bento XVI, vem sendo feito. Das portas para dentro, consideram, além disso, injusto. “Joseph Ratzinger e Jorge Mario Bergoglio”, explica um alto prelado, “foram os primeiros papas que enfrentaram com valentia um problema velho e doloroso. Não é justo que a ONU, invés de entender e ajudar, ataque deste modo”.

Um ataque. Um balde de água gelada ao mesmo tempo em que o Vaticano, após o escândalo provocado pelo roubo e o vazamento dos papéis secretos de Bento XVI, vivia um momento de glória mundial graças ao carisma do papa Francisco, que —lembram no Vaticano—  ordenou criar, há umas duas semanas, um grupo de trabalho para enfrentar, também em relação com os abusos, a reestruturação da Igreja. “O diário L’Osservatore romano”, sublinha o prelado, “dedicou uma capa à iniciativa do Papa deixando claro para os católicos que há de estar sempre do lado das crianças, os protegendo de qualquer um, sacerdote ou não, que tente abusar delas. Como vamos querer ocultar um problema, se dedicamos a capa de nosso meio de difusão por excelência? Eu acho que se o Papa não falou até agora sobre o relatório da ONU é porque vai contestar com fatos”.

Esperando essa resposta, que foi expressada ontem —por meio de um artigo no site da Rádio Vaticana— foi seu porta-voz, Federico Lombardi. O jesuíta, de natural paciência e moderado, não se esforçava em ocultar desta vez certa irritação. Segundo Lombardi, o Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança não levou em conta as respostas escritas e orais enviadas pela Santa Sede e daí sua conclusão de que estava há muito tempo “praticamente escrito ou pelo menos claramente focado”. Para o porta-voz do Vaticano, “é grave que a ONU não compreenda a natureza específica da Santa Sede” e "tenha dado maior atenção às organizações não governamentais (ONG), com preconceitos negativos para a Igreja católica e para a Santa Sede, que à posição desta, assinante da Convenção e que sempre tem estado disponível a um profundo diálogo com o Comitê (…). É típico [destas organizações] não observar tudo o que fez a Santa Sede e a Igreja nos recentes anos, como reconhecer erros, renovar os regulamentos e desenvolver medidas formativas e preventivas”. Em um momento de seu artigo, Lombardi chega a se perguntar: “Não são capazes de entender, ou não quiseram entender?”. O porta-voz do Vaticano também se mostra queixoso com a grande atenção da imprensa, “injustamente nociva”, ao relatório.

Embora sem se referir diretamente ao relatório da ONU sobre a pedofilia na Igreja, o anterior secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, reconheceu ontem em uma televisão italiana que nas últimas décadas, o trabalho da Igreja se encheu de “sombras” por culpa de “comportamentos deploráveis”, mas que já foi iniciado um processo de “limpeza” e de “reorganização administrativa” para reformar a cúria. Isso sim, Bertone diz com tranquilidade: “Faz falta ter paciência e não colocar pressa no Papa”.

Mais informações