EUA acreditam que a CELAC traiu os princípios democráticos da região

O Departamento de Estado reprova os líderes reunidos em Cuba por não terem condenado a repressão do Governo aos manifestantes

Desmontagem da sede da cúpula da CELAC.
Desmontagem da sede da cúpula da CELAC.Ernesto Mastrascusa (EFE)

Os Estados Unidos foram categóricos na hora de censurar o resultado da II cúpula da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), concluída em Havana na quarta-feira. Em um comunicado, o Departamento de Estado acusou os participantes de terem abraçado o castrismo, repreendendo-os pela ausência de críticas ao regime autoritário que governa a ilha e a falta de apoio à liberdade de expressão e de manifestação que o Governo cubano violou – assinala– com sua repressão aos protestos durante o encontro. A dura posição do Governo norte-americano demonstra que Cuba continua sendo o principal polo de fricção política no hemisfério.

“Estamos decepcionados porque a CELAC, com sua declaração final, traiu a dedicação da região aos princípios democráticos ao aceitar o sistema unipartidário de Cuba”, afirma o Departamento de Estado. “Nós nos deparamos com essa circunstância inexplicável para uma organização que se supõe que apoie a democracia e os direitos humanos tal como constou na declaração de Santiago, redigida na primeira cúpula da CELAC.”

Os EUA, que com o Canadá são os dois únicos países do continente americano excluídos da CELAC e nem sequer foram convidados para a cúpula de Havana, reprovam especialmente o fato de os líderes que foram à ilha não terem feito nenhum esforço para reunir-se com membros da dissidência e da sociedade civil – como solicitou o Departamento de Estado por meio de um de seus porta-vozes no começo desta semana – e que não tenham condenado a repressão aos cidadãos cubanos que decidiram aproveitar a cúpula para se manifestar. “Consideramos especialmente desanimador e inconsistente que a CELAC não tenha sequer questionado as ações de seu anfitrião para coibir os cidadãos em seu desejo de expressar de maneira pacífica suas aspirações democráticas.”

Os principais líderes do hemisfério –os presidentes da Argentina, Brasil, México, Uruguai, Equador, Bolívia e Nicarágua- aproveitaram a cúpula para se encontrarem com Fidel Castro. O porta-voz do Departamento de Estado pediu esta semana aos chefes de Estado e aos representantes de outras organizações internacionais que procurassem reunir-se com membros da dissidência para demonstrar-lhes seu apoio na defesa da liberdade de expressão e manifestação.

Todos, no entanto, se ativeram à agenda da CELAC e não previram reuniões com membros da dissidência, com exceção de uma delegação da Costa Rica, encabeçada por seu embaixador na ilha, que visitou Elizardo Sánchez.

O texto do documento final da cúpula se posiciona em favor de “respeitar plenamente o direito inalienável de todo Estado escolher seu sistema político, econômico, social e cultural como condição essencial para garantir a convivência pacífica entre as nações”. Na declaração da CELAC também não há menção aos direitos humanos, salvo para saudar o lançamento, no ano passado, de um satélite na Bolívia, em colaboração com o Governo da China, que facilitará “o acesso à educação e informação, garantirá o exercício dos direitos humanos e facilitará o intercâmbio de conhecimentos científicos entre os diferentes povos da América Latina e do Caribe”. Entretanto, como vem sendo habitual nas resoluções da CELAC, os países membros condenam o embargo dos EUA a Cuba e sua manutenção na lista do Departamento de Estado dos países promotores do terrorismo.

Para os EUA o foro adequado para resolver os assuntos hemisféricos é a Cúpula das Américas, um encontro promovido pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e da qual Cuba foi excluída de todas as reuniões até o momento. A cúpula da CELAC, com a participação de quase todos os chefes de Estado da América Latina, permitiu demonstrar ao Governo da ilha que continua mantendo um importante poder de convocação e um respaldo às suas políticas. O fato de nenhum dos líderes políticos ter questionado a situação de direitos humanos na ilha também pode ser considerado um êxito do regime castrista.

Entre a pluralidade de entidades regionais e sub-regionais do hemisfério, a CELAC se consolidou como o foro de convergência política para a maioria dos dirigentes de seus Estados membros, acima da própria OEA, o único organismo que reúne todos os países do continente americano, mas cujo prestígio está muito desacreditado. A suspensão de Cuba foi removida em 2009, mas o país não solicitou sua readmissão. Os EUA a consideram um cenário incômodo, para o qual contribuem com a maior parte do orçamento, em troca de sofrer críticas de imperialismo por parte de outros países, em especial os do bloco da ALBA, cada vez mais incomodados com as denúncias de que são alvo por parte de seus órgãos de controle dos direitos humanos.