Protestos na Ucrânia

As esperanças de uma resolução política na Ucrânia se mantêm

As ruas de Kiev continuam tranquilas mesmo com a ocupação por parte de grupos radicais do ministério de Agricultura

Imagens dos protestos desta manhã em Kiev, Ucrânia. (atlas)

O ponto depois do qual não há volta não se alcançou ainda. Foi o que disse nesta sexta-feira Leonid Kravchuk, que foi o primeiro presidente da Ucrânia depois da desintegração da União Soviética, enquanto as autoridades davam sinais de que a via política segue ainda aberta, já que a convocação para celebrar uma sessão extraordinária do parlamento no dia 28 de janeiro se mantém.

Em uma entrevista para o canal de televisão Inter, Kravchuk propôs que o primeiro-ministro, Mykola Azárov, se demitisse voluntariamente para desbloquear a crise. O ex-presidente lembrou que durante seu mandato (1990-1994) três primeiros-ministros apresentaram sua demissão voluntariamente, e assinalou que qualquer chefe de Governo ou ministro, diante da situação, poderia sacrificar suas ambições em nome da paz na Ucrânia. Diante da crise, Kravchuk adotou um papel moderador e alternada observações críticas com outras de aprovação, segundo seu critério, a ambas as partes em conflito. O primeiro-ministro da Ucrânia, Mykola Azárov, está participando nesse momento do Fórum de Davos, na Suíça.

Na madrugada da sexta-feira os líderes da oposição, Vitali Klichkó, Oleg Tiagnibok e Arseni Yatseniuk, explicaram de forma confusa e com pouca perícia o resultado da reunião de quase cinco horas que mantinha na quinta-feira com o presidente Víctor Yanukóvich. Os manifestantes que lhes esperavam nos arredores da sede de Governo assobiaram e repreenderam Klichkó e recusaram o trato (proposto pelas autoridades) de retroceder à mudança de que começassem a ser postos em liberdade os detentos na última onda de conflitos. A rejeição deste ponto foi interpretada como o abandono das conversas com Yanukóvich. Não obstante, qualquer que seja o futuro do diálogo mantido na quarta-feira e na quinta-feira, a convocação de uma sessão extraordinária da Rada Suprema (parlamento ucraniano) é um elemento de otimismo. O chefe do Parlamento, Vladímir Ribak, assegurou que o objetivo da sessão é tratar sobre a crise e deu garantias de que a ordem do dia do parlamento não contempla a aprovação do Estado de exceção, tal como muitos temiam. Ribak disse que terá que esperar o começo das sessões ordinárias da Rada, que se iniciam em 4 de fevereiro, para propor o cessar ao governo.Também disse que as polêmicas leis aprovadas no dia 16 de janeiro (que dão mais poder à polícia e restringem as liberdades cívicas) podem ser alteradas.

A tranquilidade se mantém nesta sexta-feira nas ruas de Kiev, mesmo com a ocupação por parte de grupos radicais do ministério de Agricultura durante a madrugada, o que de fato supõe a ampliação da zona de influência do “Euromaidan”. Pelo que se vê, esta ampliação de presença na rua não é por enquanto incompatível com a via política. As autoridades não conseguiram que os líderes da oposição garantissem que controlam os radicais, tal como disse a ministra de Justiça, Elena Lúkash. Yanukóvich desconfia da rua e a rua desconfia de Yanukóvich e os ativistas que construíram barricadas e se fizeram forte nos acessos ao bairro do Governo não estão dispostos a dar passos que possam ser aproveitados para lhes roubar o que acham ter conseguido.

Diante da ameaça de violência incontrolada e da selvageria da “via revolucionária”, tanto o presidente Yanukóvich como os líderes da oposição estão objetivamente interessados em buscar uma via pacífica de saída de um conflito que pode os transbordar de todos os lados. E ambas partes têm motivo para ter medo dos provocadores. As vaias e apitos com os que o motim acolheu Klichkó na madrugada da sexta-feira são um sinal da dificuldade para manter as relações pacíficas e da difícil relação dos líderes com as massas que têm sua própria dinâmica.

Por outra parte, Yanukóvich nomeou como chefe da Administração Presidencial Andréi Kliuyev, quem até agora vinha desempenhando o cargo de secretário do Conselho de Segurança. Um juiz de Kiev ordenou a libertação do último ativista detento pelos confrontos nos acessos à sede da presidência no último dezembro. As acusações contra ele foram retiradas. O ministério do Interior informou à agência UNIAN que está preparando uma provocação na qual haverá uma vítima ferida de bala calibre 5,45 milímetros. O ministério do Interior “encoraja os ativistas radicais a não recorrer a ações extremistas dirigidas a desencadear uma guerra civil”, assinala a informação da agência. O ministério comunicou também que os servidores públicos desta instituição se esforçarão para que sejam detentos e castigados os transgressores de acordo com a lei da legislação da Ucrânia.

Os protestos se estendem para fora de Kiev

Grupos de manifestantes tomaram nesta quinta-feira a sede da delegação do governo da Ucrânia na região ocidental de Lvov, tradicional opositor e pró-europeu, e obrigaram a apresentar a demissão do delegado do Executivo, Oleg Salgo.

"Ao ver as pessoas descontroladas em ausência de um líder e ao entender que não estavam dispostos a dialogar, e como também estava preocupado com a segurança dos servidores públicos da delegação, assine a carta" de demissão", assegurou Salgo aos meios locais.

Uns dois mil partidários da oposição dirigiram-se ao edifício governamental para "tomar o poder e entregá-lo aos deputados da Assembleia regional.

A princípio, os opositores só se propunham a bloquear a sede da delegação, mas então vários manifestaram gritaram "Entremos" e "Revolução", e irromperam em massa no prédio.