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Os inspetores nucleares desligam as centrífugas da usina de Natanz

Assim que for confirmado o cumprimento do acordo, as potências aliviarão as multas do Irã, como parte do combinado

A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, e o ministro de Exteriores iraniano, Mohammad Javad Zarif, em Genebra em novembro do ano passado.
A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, e o ministro de Exteriores iraniano, Mohammad Javad Zarif, em Genebra em novembro do ano passado. AFP

O diretor da Agência da Energia Atômica do Irã, Mohammad Amiri, anunciou nesta segunda-feira a suspensão do programa de enriquecimento de urânio a 20% - a limite que, se ultrapassado, começa ser considerado altamente enriquecido - segundo informou a agência oficial de notícias iraniana Irna. Amiri havia acrescentado que "em aplicação do plano de ação conjunta estabelecido em Genebra" havia iniciado também "o processo de diluição e transformação de 196 quilos de urânio armazenado que já havia sido enriquecido". O diretor da Agência iraniana disse que ambas as operações, que são parte dos compromissos que Teerã assumiu há dois meses em Genebra, foram feitas na presença da equipe de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Os inspetores devem confirmar hoje o cumprimento do pacto nuclear que Teerã selou com as grandes potências de Genebra. Desde o último sábado, um grupo de inspetores da AIEA verifica que Teerã cumpre sua parte do compromisso (isto é, que tem empregado as medidas necessárias para cessar o enriquecimento de urânio acima de 5% e começar a diluir o que está armazenado a 20%). Se o informe que os especialistas vão emitir nesta manhã for positivo, a República Islâmica poderá acessar a 4,2 bilhões de dólares que tem bloqueados em diferentes partes do mundo, para adquirir bens e serviços e, sobretudo, peças para seus aviões.

Essa quantidade é apenas uma fração dos estimados 100 bilhões de dólares que o Irã tem congelado devido a sanções econômicas e financeiras por seu programa atômico. Mas se trata de um primeiro passo que permitirá iniciar a recuperação do produto da venda de seu petróleo, e deve supor um alívio para os cofres nacionais agredidos. Teerã tem que identificar onde quer tirar o dinheiro, mas a União Europeia se apresenta como um de seus lugares-chave para começar a relaxar o castigo internacional.

Os embaixadores dos grupo dos vinte e oito países já pactuaram na quinta-feira passada as modificações jurídicas necessárias para fazer possível essa suavização das multas assim que se conheça o resultado da investigação. Se os inspetores informarem um resultado favorável, a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, que coordena as negociações das potências com o Irã, só terá que fazer uma consulta formal aos seis países (EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha), mas quando for submeter o assunto aos ministros não será necessário maior discussão e poderá ser publicado no diário oficial da UE hoje mesmo.

A vontade de retomar os intercâmbios com o Irã se fez evidente nas últimas semanas. Desde dezembro do ano passado, foram a Teerã mais delegações europeias que em todo o ano de 2013. Além das visitas da ministra italiana de Relações Exteriores, Emma Bonino, e a do ex-chefe do Foreign Office britânico Jack Straw, também se anunciaram as dos primeiros ministros da Itália e Polônia, e delegações comerciais da Itália, Irlanda e França. A própria Ashton tem previsto viajar para a capital iraniana brevemente. Antes que as multas lhes obrigassem a fechar suas operações, a Alemanha e a Itália eram os principais sócios comerciais da República Islâmica e também os que vendiam maquinaria e produtos químicos para a refinaria de petróleo.

Em curto prazo, as oportunidades de negócio sob o acordo provisório limitam-se aos setores da alimentação e bens de consumo, medicamentos, carros e produtos petroquímicos dado que a maioria das multas se mantém à espera de um pacto definitivo. Não obstante, o potencial de um mercado de 80 milhões de pessoas, o último desse calibre que permanece fechado, converte ao Irã, que além disso dispõe de importantíssimas reservas de gás e de petróleo, em um objetivo muito atraente.

“Espero que o início da primeira fase do Plano de Ação de Genebra (…) abra a via a negociações sólidas para uma solução global”, manifestou o ministro iraniano de Relações Exteriores, Mohamed Javad Zarif, em sua página no Facebook.

Zarif quer dizer que, a partir de agora, seu país e as grandes potências dispõem de seis meses para conseguir um acordo mais amplo que ponha fim ao conflito sobre o controvertido programa atômico iraniano. Desde sua descoberta em 2002, Washington e seus aliados suspeitaram que se escondia um objetivo militar. O Irã sempre negou, mas o tom desafiante e a atitude provocadora de seu anterior presidente, Mahmud Ahmadineyad, só reforçaram as suspeitas. A chegada ao Governo de Hasan Rohaní, no ano passado, supôs uma mudança de linguagem e de atitude que acordou esperanças.

Por enquanto, os Estados Unidos mantém a cautela. Por um lado, o presidente Barack Obama se esforçou diante ao Congresso para evitar que seus membros votassem novas multas que ponham em perigo as atuais negociações. No entanto, seu Governo não baixa a guarda e segue fazendo questão de que as multas que as multas que deixaram o Irã fora do sistema de pagamentos internacional continuam de pé. O vice-secretário do Tesouro, David Cohen, visitou várias capitais europeias durante a semana passada com a mensagem de que “O Irã não está aberto para os negócios”. Nas palavras de um de seus acompanhantes, publicadas pela Reuters, “há algumas oportunidades, mas são limitadas”.

Seja como for, os iranianos estão dispostos a explorá-las ao máximo. Assim o prova o anúncio da presença de Rohaní em Davos nesta semana, com o objetivo de cortejar os executivos das grandes multinacionais. Embora ainda faltem meses de árduas negociações antes de que se alcance um acordo definitivo, e nada garante que se vá conseguir, o interesse dessas empresas pode ser convertido em um grande aliado do presidente iraniano, cujo compromisso de resolver o contencioso nuclear depende que seu país se reintegre na comunidade internacional ou ficar de fora para sempre.