O papel político da esposa de Humala reabre uma polêmica no Peru

O presidente nomeia Nadine Heredia como líder do Partido Nacionalista Peruano

Nadine Heredia, em abril em Madri.
Nadine Heredia, em abril em Madri.

O papel político da esposa de Humala desata uma polêmica no Peru. Nadine Heredia, a mulher do mandatário, gera novas suspeitas em seu país ao assumir a presidência do partido do governo.

Cerca de 60 dirigentes do Partido Nacionalista Peruano (PNP), entre eles congressistas e funcionários do Palácio do Governo, participaram na segunda-feira passada, 30 de dezembro, da Terceira Assembleia Nacional Ordinária, realizada num local campestre do sul de Lima. Ali, o chefe de Estado peruano, Ollanta Humala, pediu que sua esposa, Nadine Heredia, fosse nomeada presidenta interina do partido, e a assembleia o respaldou. A primeira-dama – que em julho passado se viu forçada a negar que será candidata nas eleições gerais de 2016 – é também a principal operadora política do Executivo, e os holofotes e críticas estão novamente sobre ela por causa do uso que poderia fazer dos recursos públicos para fins políticos.

A popularidade de Heredia como primeira-dama diminuiu à medida que ela ganhava protagonismo na gestão de seu marido, com mais visibilidade midiática que o primeiro-ministro, e culminou quando o ex-presidente Alan García, em abril passado, cunhou a ideia da reeleição conjugal. Desde a década de noventa, o Peru não permite que a primeira-dama seja candidata à presidência. Por isso, a postulação de Heredia exigiria modificar a lei eleitoral, abrir um processo no Tribunal Constitucional e obter uma sentença favorável.

A preocupação a respeito da nova função da Heredia foi expressa por líderes de opinião de todo o arco político, que duvidam da veracidade de sua negativa. “Parece-me que a primeira-dama é a primeira-dama, não é a presidenta de um partido”, comentou o ex-candidato presidencial conservador Pedro Pablo Kuczynski à imprensa local.

Mauricio Mulder, parlamentar do Partido Aprista, pleiteou que Heredia seja impedida de usar aeronaves presidenciais, “porque significaria que o Governo e o Estado estariam a serviço de um partido político”.

Entretanto, o presidente defendeu a nomeação. “Nadine Heredia, primeira-dama por ser minha esposa, sempre teve um cargo no partido: é cofundadora do PNP. Foi membro pleno das máximas instâncias partidárias, exerceu de maneira permanente a secretaria de Relações Internacionais. Do que estamos falando, senhores?”, replicou Humala à imprensa.

Os porta-vozes do Partido Nacionalista garantem que o gabinete da primeira-dama “não utiliza recursos do Estado”, como assegurou uma congressista do partido governamental.

O presidente descreveu assim as tarefas de sua esposa: “Nadine vem cumprindo as atribuições que lhe dou como presidente da República, no apoio ativo à promoção dos programas sociais e à política social”.

“A primeira-dama é o principal operador político do governo, é a porta-voz, o enlace com alguns ministérios, com o gabinete, além disso é uma operadora do Partido Nacionalista desde antes de ser presidenta. Depois da Ollanta Humala, a pessoa com mais poder é ela”, explica o colunista e cientista político Carlos Meléndez.

Além disso, a primeira dama foi descrita nesta semana pelo jornalista Augusto Alvarez Rodrich como a caça-talentos para os postos-chave do Governo e como a chefa de gabinete. Heredia está acostumada a procurar, pessoalmente ou via chat do Facebook, a opinião de cientistas políticos e analistas a respeito do andamento do Governo, mesmo que poucas vezes coloque em prática os conselhos que recebe. Embora a Controladoria (Tribunal de Contas) não tenha encontrado o lugar no Palácio de Governo onde Heredia despacha, lá ela recebe seus interlocutores.

A esposa de Humala atuou durante 2013 como embaixadora da FAO no Ano Internacional da Quinua, e por isso viajou a Nova York, Roma e Madri, entre outras cidades. Nessas ocasiões, foi acompanhada por uma de seus dois assessores de imprensa – lotada no gabinete de bem-estar e ação social da Presidência – e por sua assessora de protocolo, uma conselheira do serviço diplomático destacada para o Palácio de Governo. Uma equipe do canal de televisão do Estado sempre cobre suas atividades, seja em Lima, fora da capital ou fora do país; seja acompanhando o presidente, algum ministro ou só.

“Dos dois [Humala e Heredia], ela é a mais política”, afirma Meléndez. Por que não deixam o isolamento político? “Ela é muito antiaprista e antifujimorista, tem princípios ideológicos muito fortes contra eles, o que entra em contradição com os conselhos que alguns analistas possam lhe dar. Não tem princípios programáticos, e sim pragmatismo”, afirma o analista, recordando como o casal passou de ser apadrinhado em 2006 pelo então presidente venezuelano, Hugo Chávez, para sê-lo por Mario Vargas Llosa em 2011. A atividade de Heredia reduziu a margem de manobra e o poder dos primeiros-ministros, especialmente nos casos do Juan Jiménez e do atual, César Villanueva.

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