A revolução estéril

Em 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional propôs uma revolução para melhorar a situação dos camponeses do sudeste mexicano. Vinte anos após a revolta, o estado de Chiapas segue tendo os piores números em educação, desenvolvimento e pobreza. A presença indígena na política ainda é anedótica

Prédio na comunidade de Oventic, em Chiapas (México).
Prédio na comunidade de Oventic, em Chiapas (México).Saul Ruiz

Dois homens jovens, com o rosto totalmente coberto por uma balaclava e aparentemente desarmados, vigiam a entrada da comunidade rebelde de Oventic, no município de San Andrés Larráinzar. Conhecido em 1996 por albergar a sede dos diálogos entre o Governo e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) hoje este povoado, com a praça suja e uma escola queimada, só aparece na lista de um dos programas emblemáticos da União para erradicar a pobreza, a Cruzada Nacional Contra a Fome. Assim como San Andrés Larráinzar, outros nove povoados de Chiapas integram o triste ranking dos 15 municípios com maior percentagem de pobreza. A três horas de carro da capital de Chiapas, e no meio de montanhas, o povoado de Oventic é um dos cinco caracoles -comunidades zapatistas- criados depois da revolução de 1994, quando os camponeses do sudeste mexicano declararam a guerra ao Governo do presidente Carlos Salinas. São nove e meia da manhã de um sábado de dezembro, duas semanas antes de que se cumpram vinte anos do aparecimento público do EZLN. O movimento encabeçado pelo subcomandante Marcos reclamava a propriedade das terras e uma maior partilha das riquezas. Nesta zona, a mais pobre entre as pobres, a reforma agrária promovida depois da revolução de 1910 não devolveu a terra aos camponeses. Hoje, duas décadas após a insurgência, o desenvolvimento econômico e social da região, a educação e a presença dos povos indígenas na política estatal e nacional, seguem sendo tarefa pendente.

“Chiapas deve tornar-se um estado moderno, seguimos tendo os piores números do país. O estado com mais analfabetos, os municípios mais pobres. Precisa crescer e deixar de depender do Governo local, um projeto político e econômico que aproveite todo o potencial que tem”, assinala o professor Andrés Fábregas Puig, doutor em antropologia pelo Centro de Investigações e Estudos Superiores em Antropologia Social (CIESAS).

As cifras oficiais dão razão a ele: 55 municípios do Estado estão dentro da Cruzada Contra a Fome. O programa social, no entanto, “não chega às comunidades zapatistas por não cumprir os critérios que pede o Governo, como o pagamento de impostos pela terra”, assegura Víctor Hugo López Rodríguez, diretor do Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de las Casas (Frayba), em San Cristóbal.

Segundo o Conselho Nacional de População, Chiapas é o segundo Estado com mais alto grau de marginalização, onde 78,4% da população vive em situação de pobreza. A Pesquisa Estatal de Renda e Orçamento dos Lares 2011 estabelece que, em média, as famílias vivem com 6.489 pesos mensais (cerca de 1.200 reais), a metade que no restante de México. Além disso, Chiapas tem o índice mais alto de analfabetismo, 18%, três vezes a média nacional.

O diretor do Frayba reconhece que as causas que originaram o conflito zapatista não se resolveram: “A violência estrutural é mais relevante que nunca: a pobreza, impunidade, a criminalização. O que mudou é que o ator se torna visível, criou-se o sentido de dignidade indígena”. No entanto, seu reconhecimento social foi escasso. “aconteceram algumas coisas, mas não o que se esperava”, diz Fábregas Puig. “Continua sendo o setor mais atrasado, que vive em condições mais difíceis”. Ainda que haja uma Secretaria Estatal de Povos e Culturas Indígenas, nenhum membro das etnias tzeltal, tzotzil, tojolabal ou chol ocupa cargos no Governo e a presença no Congresso da União é também escassa: de 19 deputados eleitos, Víctor Hugo López assegura conhecer só um indígena. “Achamos que não se permite que participem ou se incorporem à vida pública porque não se perdoa quem declarou insurgência ao Estado mexicano”. Entre as conquistas da revolução, o diretor do CDH assegura que nas comunidades autônomas “há menos homicídios e não existe a violência contra mulheres por causa do alcoolismo, já que está proibido beber nos caracoles”.

Uma enorme pista de gelo cheia de jovens de jeans cobre toda a praça central de San Cristóbal de Las Casas, um município de 190.000 habitantes a uma hora de Tuxtla Gutiérrez. A atração patrocinada pelo governador do Estado, Manuel Velasco, cujo nome se repete em meia centena de cartazes que estão ao redor da pista. O político apareceu na imprensa em razão de seu truncado relacionamento com a cantora Anahí. A foto dista muito da feita há 20 anos, quando naquele 1o de janeiro de 1994 o EZLN tomou os escritórios do palácio autárquico. Um dos assistentes do pároco de San Andrés, de 54 anos e que nunca foi zapatista, estava ali: “Foi difícil, tivemos medo. Estávamos preparando as celebrações do ano novo quando nos avisaram. Não podemos nos mover por vários dias”.

Apesar dos acordos assinados em 1996, a matança de 45 camponeses na comunidade de Acteal no dia 22 de dezembro de 1997 reavivou o conflito. Também não ajudou a prisão do professor Alberto Patishtán no ano 2000, condenado a 60 anos de detenção por matar –ele sozinho- sete policiais federais, em um processo que estava impregnado de irregularidades. O presidente Enrique Peña Nieto acabou de indulta-lo.

A 16 anos do massacre de Acteal, López Rodríguez é pessimista: “Não há nenhuma esperança com o PRI, que nos relegou ao extermínio. Há maior centralização, mais repressão e nulas possibilidades de estabelecer um diálogo nacional com os atores comunitários”, explica. Após a matança, o então secretário de Governo, Emilio Chuayffet, teve que abandonar o cargo. Hoje é responsável nacional de Educação. “Acreditamos que a paz está com fios muito finos em Chiapas. É possível um retorno do conflito armado”, conclui o diretor do Frayba.

Por enquanto os líderes do movimento se escondem da imprensa, o que complica o acesso às comunidades: nada de câmeras de vídeo, nada de perguntas aos vizinhos e é proibido fazer fotografias onde apareçam pessoas. Um zapatista de 29 anos chamado Yahir acompanha a visita. Leva parte do rosto coberto por um lenço, usa jeans e uma jaqueta. A comunidade começa com uma grande rua asfaltada que segue até a quadra de basquete. A segunda casa é o “centro de mulheres pela dignidade”, hoje fechado. Foi construído com madeira e pintado com imagens de guerrilheiras que seguram armas e flores. Na verdade, os murais cobrem todas as fachadas da comunidade. No pé do morro está a escola, com vários edifícios de um ou dois pisos, construídos com tijolo e teto de zinco. As casas dos moradores estão depois do colégio, mas o acesso não está permitido para quem é de fora. No local só se manipula dinheiro nas lojas de artesanato, onde vendem huipiles –blusas com adornos indígenas- ou bolsas. Menos de 40 minutos após a chegada ao povoado, Yahir se despede na porta.

Já do lado de fora, na estrada, vários cartazes assinalam ao estrangeiro que se encontra em “território zapatista em rebeldia”. “Aqui o povo manda e o Governo obedece”. As mensagens parecem hoje um tanto desgastadas, um paradoxo ao lado da roupa de marca de três visitantes estrangeiros. “A rebelião somos todos”, diz a camiseta regata de uma companhia multinacional.

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