O Mossad treinou Mandela antes da prisão

O serviço secreto de Israel ensinou sobre o uso de armas e a execução de sabotagens

Imagem de Mandela em jantar em Londres pelos seus 90 anos, em 2008.
Imagem de Mandela em jantar em Londres pelos seus 90 anos, em 2008.BENNY GOOL (AP)

Nelson Mandela foi treinado por agentes do Mossad no uso de armas, na execução de sabotagens e nas técnicas do judô, revelou neste sábado o diário Haaretz. O serviço secreto de Israel instruiu o líder sul-africano nos anos 60, quando tinha 44 anos. Mandela vivia então na clandestinidade, buscava uma aliança entre os líderes africanos emergentes e coletava fundos, país a país, para a luta do Conselho Nacional Africano, que se movia pelas sombras, perseguido pela mira poderosa de Pretória.

O jornal teve acesso a uma carta, datada de 11 de outubro de 1962, dois meses depois de Mandela regressar à África do Sul e ser detido –começando, então, sua trajetória de 27 anos na prisão—, na qual os agentes israelenses falam ao Ministério de Assuntos Exteriores em Jerusalém de um "aprendiz" chamado David Mobsari, supostamente vindo do que era então a Rodésia, e cujo expediente foi guardado sob a classificação de "Pimpinela Negra", o nome com o qual os meios de comunicação sul-africanos já começavam a conhecer Mandela.

Na carta se explica que Mandela recebia formação dos "etíopes", isto é, os membros do Mossad da Embaixada israelense na Etiópia, que ocasionalmente ajudavam integrantes dos emergentes movimentos de descolonização e libertação na África.

Mandela, diz o documento, mostrou-se especialmente interessado em conhecer as técnicas utilizadas pelo Haganá, a organização paramilitar judaica criada antes que o próprio Estado, e antecessora do atual Exército, que incluiu sua estratégia contra o mandato britânico na Palestina e a população árabe de atentados à fabricação própria de armas.

'Shalom'

"Saudou nossos homens com um shalom (paz em hebraico, a palavra que se emprega como olá), estava familiarizado com os problemas da comunidade judaica e de Israel e deu a impressão de ser um intelectual", relata o redator do documento. Também deixa claro que o pessoal israelense "tentou torná-lo um sionista", mas não explica que grau de sintonia Mandela teve com a causa durante esse treinamento.

Os analistas trataram de catalogar a ideologia de Mandela e chegaram à conclusão de que, embora a "visão do mundo" que explicasse fosse "socialista", também "às vezes dava a impressão de que se aproximava do comunismo". Uma inclinação que relacionam com as últimas detenções de que era alvo porque, apesar do apelido, o Mossad sabia perfeitamente a quem estavam ensinando.

"Os dois homens são um, o mesmo", diziam, comparando o tal David Mobsari com a pessoa que depois chegaria a ser presidente da república sul-africana. Na resposta que o ministério deu a seus colegas em Addis Abeba, Mandela era assinalado como o homem mais destacado da luta negra na África do Sul, embora ainda não fosse o líder do movimento.

Em 1962, Madiba levava mais de uma década de luta pelos direitos de sua comunidade e havia sido detido e julgado em várias ocasiões, até que decidiu deixar seu país para encontrar apoio para sua causa na Argélia, no Egito, em Gana e na Etiópia, onde se deparou com o Mossad.

Israel hoje mantém um morno relacionamento com a África do Sul, depois dos anos de apartheid, nos quais esteve sempre próximo ao Governo de Pretória. Ao funeral de Mandela, falecido no último dia 5, compareceu como representante do país o presidente do Parlamento (Knesset), Yuli Edelstein, junto com cinco deputados. O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, preferiu não viajar pelo alto custo do deslocamento e a segurança, e o presidente Shimon Peres por estar doente, com gripe.