Para o Brasil, hora de refazer sua identidade internacional

Com a decisão do FED, o país pode enfrentar volatilidade nos mercados. Desafio é eliminar os ruídos na comunicação com investidores num momento em que a economia pede ajustes

Bernanke durante o anúncio.
Bernanke durante o anúncio.Richard Drew (AP)

A decisão do Federal Reserve, o banco central americano, era bastante aguardada no Brasil, que se beneficiou de um cenário favorável às commodities nos últimos anos, enquanto as economias desenvolvidas estavam fragilizadas. Agora, a redução dos incentivos promovidos pelo FED confirmam a recuperação dos Estados Unidos, num momento em que os preços dos produtos básicos recuaram. Nesse cenário, o Brasil tenta recompor sua identidade no mercado internacional, depois de ter passado de cisne a patinho feio nos últimos anos na percepção dos investidores. Um movimento pendular incômodo para um país que depende dos investimentos externos para fechar as suas contas, e de captações no exterior.

A crença de que o país havia achado o caminho das pedras para ir de encontro ao seu potencial de crescimento foi substituída por uma reserva desproporcional. O registro dessa mudança de humor já havia sido evidenciado pelas duas capas da revista britânica Economist, uma de 2009, que colocava o país em decolagem, e outra deste ano, que perguntava se o Brasil havia estragado tudo.

Das duas, a que verdadeiramente surpreendeu os brasileiros foi a primeira, pois nem mesmo os mais otimistas tinham uma leitura tão ufanista sobre si mesmo. Com ou sem torcida, o país evolui a passos lentos, o que frustra quem esperava aqui um ritmo chinês de expansão. Mas, quando se olham alguns indicadores, a realidade não é nem tão negra como se possa supor, nem tão fantástica como se acreditava em 2009. Embora esse mau humor tenha castigado o país, inclusive com a revisão da nota de risco em junho deste ano, pela agência Standard&Poors, de BBB estável para BBB negativa (ainda como grau de investimento), a atração de investimento estrangeiro se mantém alta.

A expectativa para 2013 é de atrair mais de 60 bilhões de dólares, um pouco menos do que no ano passado, mas ainda assim, bem mais do que em 2010, quando o país recebeu 48 bilhões de dólares. Não que isso seja motivo para estourar champanhe, mas não chega a configurar uma crise iminente, como muitas vezes o excesso de críticas faz supor. “Hoje há uma leitura muita mais negativa do que é a vida real”, diz o empresário Marco Stefanini, da empresa de tecnologia Stefanini IT Solutions, companhia brasileira que está presente em vários países, e que emprega 17 mil funcionários.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, da Quest Investimentos, que foi ministro das Comunicações no Governo de Fernando Henrique Cardoso, também vê exageros na avaliação que é feita do país. “Colocam o Brasil como se ele estivesse à beira do precipício, o que não é verdade”, diz Barros.

Para ele, o país está numa fase de transição, entre um período de grande crescimento de renda, e o início de um ciclo de ajuste. “Entre 1993 e 2010, a renda média do brasileiro cresceu 4,7% ao ano, uma expansão que mudou a cara da sociedade brasileira”, explica. “Saímos de um terço de economia formal para dois terços de formalização, uma transformação estrutural, que criou um mercado de massa para a venda de TVs, carros, viagens etc.”

O país vive, segundo ele, um problema conjuntural clássico que demanda também uma terapia clássica, que é reduzir os estímulos ao consumo, crescimento menor da renda, e estímulo aos investimentos. “E para isso são necessários pelo menos uns quatro anos”, prevê Barros.

Ruídos no mercado

Enquanto essa leitura não é universal, os ruídos do mercado continuam incomodando o dia a dia da economia. Embora esteja fechando o ano com um faturamento de 2,1 bilhões de reais, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior, o empresário Marco Stefanini reconhece que os dilemas sobre os fundamentos econômicos no Brasil atrapalham as empresas em alguma medida. “Nós não sentimos pontualmente as questões macros como metas de superávit que são alteradas, ou mudanças na política de preços da Petrobras em nosso dia a dia”, afirma o empresário. “Mas isso gera uma percepção negativa sobre o país, e a economia não vive só de números, ou seja, existe um componente emocional que ajuda ou atrapalha”, diz ele.

É esse sentimento negativo, num comportamento de manada, que persegue hoje o Brasil e o Governo atual. Reportagem do jornal brasileiro Valor Econômico, publicado nesta segunda-feira, aponta que as captações de empresas brasileiras estão abaixo da de seus vizinhos latinos em novembro. É exatamente o mau humor do mercado que estaria retendo as emissões de bônus brasileiras.

Os desencontros de expectativas, entre o que a equipe econômica da presidenta Dilma Rousseff promete e o que realidade entrega, já lhe renderam críticas severas, inclusive comparando a condução da sua administração à de nações vizinhas mais instáveis. A “argentinização” ou “venezualização” da economia é sempre um argumento do discurso de seus desafetos.

O comparativo, entretanto, vai somente até a página 15. O risco país do Brasil ainda está na casa dos 230 pontos – chegou a 4 mil pontos às vésperas da eleição de Lula, em 2002 – enquanto a Argentina soma um risco de pouco mais de 800 pontos e a Venezuela, de mais de 1000. Alex Agustini, economista da agência Austin Rating, lembra, em todo caso, que o país já esteve melhor no ano passado, quando esse indicador estava em 180 pontos. O país ainda tinha um capital de credibilidade que levou a Austin Rating a elevar a sua nota de risco de BBB- para BBB, em moeda estrangeira, em agosto de 2012.

“Hoje, a confiança está de novo em xeque”, alerta Agustini, embora não haja nenhuma revisão à vista, por parte da Austin, no curto prazo. Às vésperas de um ano eleitoral, que pode definir a sua continuidade, Rousseff só tem um caminho a tomar para romper com esse clima de desconfiança: aparar as arestas que lhe faltam para manter uma avaliação mais moderada perante o mercado, principalmente depois da decisão oficial do FED.

O anúncio de que o banco central americano começará a reduzir os estímulos financeiros, que vinham dando suporte aos EUA para atenuar os efeitos da crise de 2009, fez o dólar subir no mercado brasileiro, uma volatilidade que pode continuar nos próximos dias. Mas, nada de outro mundo, acredita Mendonça de Barros. “Essa ideia de que os juros vão subir e de que todo o dinheiro do mundo vai para os Estados Unidos agora é uma histeria”, ironiza. Para Joaquim Levy, diretor geral do Bradesco Asset Management, esse custo já está precificado, até porque no longo prazo o país só tem a ganhar. “Se os Estados Unidos voltarem a crescer, é muito positivo para o Brasil que volta a crescer junto”, avalia.

Joga a favor do Brasil o avanço das concessões em infraestrutura neste ano, em aeroportos, e principalmente em rodovias, que vão garantir um incremento de produtividade para a economia como um todo. Nesta terça, por exemplo, foi a leilão mais um trecho da rodovia BR-163, no Mato Grosso do Sul, centro-oeste do país, onde a fronteira agrícola avança.

Nos últimos 20 anos a área plantada no Brasil cresceu 40% e a produção, 220%, um desempenho invejável para qualquer país. Espera-se que a partir do ano que vem haja ênfase na privatização de portos e ferrovias, o que desatará de vez o nó da logística brasileira, beneficiando também a indústria.

Falta, ainda, garantir a expansão de instrumentos para financiar a infraestrutura, que hoje tem forte dependência do banco de fomento brasileiro, o BNDES. O Bradesco, por exemplo, lançou um fundo, com papeis de obras de infraestrutura que, segundo Levy, “vendeu como pão quente”. O banco espera novas emissões para montar um novo fundo.

As oportunidades para o Brasil ainda são muitas, e quem assumir a presidência em janeiro de 2015, terá de investir como nunca para manter essa toada. Mais do que isso, terá de avançar num padrão de transparência num país que não suporta ruídos na comunicação. O Brasil, dizem os mais otimistas, está mesmo fadado ao sucesso, ainda que a passos muito lentos. Quem quiser participar dessa realidade precisa respeitar o seu ritmo.

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