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O Federal Reserve começa a retirar os estímulos à economia

O banco central dos EUA faz um corte simbólico de 10 bilhões de dólares dos incentivos, mas que confirma a retomada econômica

Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal
Ben Bernanke, presidente da Reserva Federal Bloomberg

Após cinco anos de maciças injeções de liquidez, o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) decidiu levantar o pé do acelerador dos estímulos, ao reduzir a 75 bilhões de dólares (176 bilhões de reais) o volume de dívida a ser adquirida. São 10 bilhões de dólares (23,5 bilhões de reais) a menos do que o Fed vinha adquirindo há um ano, uma redução ainda modesta e acima de tudo simbólica, já que na prática não afetará o incentivo dado à economia. O Fed manteve a taxa de juros em 0%.

O desemprego é de  7%, referência que Bernanke citou para deixar de comprar bônus.

Os operadores de Wall Street estão obcecados com esse assunto desde maio, quando o presidente do Fed, Ben Bernanke, indicou que ainda em 2013 o BC dos EUA começaria a reduzir a compra de ativos. É sabido que o chefe da instituição queria iniciar esse movimento antes de entregar o cargo a Janet Yellen, em fevereiro. Portanto, a outra opção era esperar a reunião de janeiro, a última dele à frente do Fed.

Sete meses depois daquela declaração, a credibilidade do Fed estava em jogo. Ele já havia tido em setembro uma oportunidade de dar o primeiro passo, mas só agora dispunha de todos os ingredientes para levantar um pouco o pé do acelerador e lançar a mensagem ao mercado de que há nada a temer. O desemprego está em 7%, nível que Bernanke havia citado como ponto de referência para que o Fed deixasse de adquirir títulos da dívida.

Além disso, o Congresso dos EUA chegou na semana passada a um acordo orçamentário para os próximos dois anos, evitando assim que se repita o caos vivido em outubro, quando as atividades do Governo federal ficaram parcialmente paralisadas durante 16 dias. A distorção dos dados forçou o banco central a esperar um pouco mais em outubro. Assim, esta era uma reunião para o tudo ou nada.

Os participantes da reunião optaram pelo corte em vez do status quo. O Fed estava comprando desde dezembro de 2012 o equivalente a 40 bilhões de dólares (quase 94 bilhões de reais) em títulos do Tesouro, valor que fica reduzido com esse primeiro corte a 35 bilhões de dólares (82,1 bilhões de reais). Atinge também os 45 bilhões de dólares (105 bilhões de reais) adquiridos em ativos da dívida hipotecária desde setembro deste ano, valor que será reduzido em 5 bilhões de dólares (11,7 bilhões de reais).

Dessa maneira, se busca que a economia e o mercado comecem a se guiar mais pelos juros do que pela compra de bônus. Em todo caso, a ata estabelece um claro vínculo entre programa de compra de títulos e a evolução dos dados econômicos. Ou seja, se a economia progredir como se espera, poderá haver uma maior redução. Mas se, pelo contrário, ela se moderar, não está descartada a possibilidade de uma nova elevação na injeção de liquidez.

Bernanke prevê que haverá apoios artificiais à economia durante todo o ano de 2014

Trata-se, portanto, de um gesto acima de tudo simbólico, porque o Fed continuará estimulando a economia durante pelo menos o ano de 2014 inteiro. Mas não há um calendário estabelecido. Por isso, o mais importante não é a quantidade, e sim os sinais. Bernanke insiste que, quando parar de comprar dívida, os juros estarão excepcionalmente baixos já há um bom tempo. Há cinco anos a taxa está fixada em 0%.

James Bullard, do Fed de St. Louis, disse dias antes da reunião que é possível haver uma pausa depois de um primeiro pequeno corte, caso a inflação permita. O mercado de trabalho, explicou, continua frágil, apesar da criação de uma média de 190.000 empregos por mês. O Fed sustenta que não haverá alta de juros enquanto o desemprego não cair a menos de 6,5%. Poderia esperar inclusive mais tempo depois disso.

O programa de compra de bônus, o terceiro a ser ativado desde o colapso do Lehman Brothers, é uma grande experiência, e por isso o Fed tem tanta dificuldade para se comunicar. Yellen será realmente a encarregada de desmontar uma estrutura que fez disparar o balanço do banco central, com um valor de 4 trilhões de dólares em ativos acumulados. Antes da crise, não chegava a 1 trilhão.

Wall Street está agora mais receptiva do que em maio. A redução gradual na compra dos bônus também se justifica com outro argumento. A massa de liquidez injetada pode ter efeitos negativos caso se prolongue, e ela não está demonstrando ser tão decisiva para acelerar a geração de empregos. Em suas projeções, o Fed antevê um crescimento médio de 3% em 2014 e um desemprego em torno de 6,5%, para então cair a menos de 6% em 2015. Não se prevê um repique da inflação, que se manterá em 1,5% no ano que vem.

Os juros dos títulos com vencimento em dez anos estão próximos de 3%, refletindo o fato de os investidores esperarem menos liquidez do Fed. Bernanke garante que a saída acontecerá de forma gradual. Tenta assim manter as expectativas reduzidas, para que o custo do crédito não suba mais rapidamente do que se deseja. Mas o que ele não pode conter é o fato de haver uma maior esperança na recuperação.

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