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A sonda chinesa 'Chang E 3' chega ao solo da Lua

A potência asiática se transforma no terceiro país a realizar uma descida controlada na superfície lunar

Sonda lunar chinesa 'Chang E3'.
Sonda lunar chinesa 'Chang E3'.

A China tornou realidade um sonho que guardava havia décadas: chegar à Lua. O país asiático entrou neste sábado para o seleto clube das potências que alcançaram o satélite terrestre e depositaram de forma controlada um veículo de exploração em sua superfície. Antes do pouso suave da sonda não tripulada Chang E3, só os Estados Unidos e a extinta União Soviética haviam conseguido isso.

O contato da sonda com o solo lunar, na planície chamada Sinus Iridum, ocorreu neste sábado às 21h12 (hora da China; 11h12 em Brasília), para orgulho de muitos cidadãos e do Governo, que considera o programa espacial, gerido por militares, como uma prova da capacidade tecnológica, do poderio econômico e do alcance global da China – em suma, do sucesso do Partido Comunista Chinês à frente do desenvolvimento do país.

Imagem do chão lunar captada pela sonda 'Chang' E3 durante seu descenso.
Imagem do chão lunar captada pela sonda 'Chang' E3 durante seu descenso. AFP

A rede estatal CCTV transmitiu a delicada operação ao vivo. Na tela, uma cartela dizia “Viagem à Lua”. Uma imagem gerada por computador, representando a sonda, reproduziu a descida no centro de controle espacial em Pequim.

Durante o pouso – a parte mais difícil da viagem –, o módulo começou a desacelerar quando se encontrava a 15 quilômetros da superfície, até que sua velocidade orbital se reduziu de 1,7 quilômetro por segundo a quase zero. Ao chegar a 100 metros da superfície, a Chang’e 3 ficou suspensa para analisar o solo e escolher o lugar de contato, evitando possíveis obstáculos. Nos últimos metros, a câmera do módulo mostrou a superfície da Lua se aproximando. O tempo planejado de descida suave era de 12 minutos. Quando a Chang’e 3 tocou o solo, os cientistas e engenheiros na sala de controle explodiram em aplausos e abraços.

Os últimos 15 quilômetros eram a parte difícil da viagem, e o risco de ocorrer uma colisão era muito alto, segundo os técnicos. A sonda utilizou sensores e imagens em três dimensões para identificar uma superfície plaina, e propulsores foram acionados quando o módulo estava a 100 metros de altura para conduzi-lo com cuidado até que chegasse ao chão. As patas têm amortecedores para absorver o impacto na aterrissagem. Os últimos metros foram em queda livre.

Trata-se do primeiro pouso suave a ser feito na Lua em 37 anos. A última vez havia sido em 1976, quando a União Soviética realizou a missão Luna 24. A última alunissagem suave dos EUA ocorreu na missão tripulada Apolo 17, em 1972.

O presidente chinês, Xi Jinping, já manifestou o desejo de que a China se transforme em uma superpotência espacial.

O local de descida da Chang’e 3 na Lua, o Sinus Iridum (“baía do arco-íris”), é uma planície de origem basáltica. Várias horas depois da alunissagem, o principal veículo móvel da missão, chamado Yutu (“coelho de jade”), irá se separar do módulo principal. Esse robô lembra os jipes que a Nasa, agência espacial norte-americana, vem usando no solo de Marte.

O Yutu pode se deslocar a 200 metros por hora, subir aclives de 30 graus e tem um alcance em torno de 10 quilômetros. Foi desenhado para funcionar durante três meses no solo lunar, e pode suportar as baixas temperaturas noturnas graças a um aquecedor de radioisótopos. Esse robô tem seis rodas e pesa 120 quilos. Carrega câmeras de navegação e de visão para evitar obstáculos – uma panorâmica, e outra de ultravioleta, para ver a Terra –, um radar que sondará o subsolo lunar e um espectrômetro. Se tudo correr conforme o previsto, o veículo realizará inspeções geológicas e procurará recursos naturais. O módulo de descida realizará estudos a partir da sua posição fixa.

A Chang’e 3 foi lançada em 2 de dezembro passado, à 1h30 da madrugada (15h30 da véspera em Brasília), com um foguete Longa Marcha 3B – o mais potente da China –, no Centro de Lançamento de Satélites de Xinchang, na província central de Sichuan. Ele entrou na órbita lunar em 6 de dezembro.

O nome da sonda de exploração e do veículo robotizado procede de um mito chinês sobre a deusa Chang’e e seu mascote Yutu, um coelho branco que vive com ela na Lua.

A China já havia realizado em 2007 a sua primeira missão orbital lunar, a Chang’e 1, que fez fotos da superfície do satélite e analisou a composição química. A segunda teve lugar em 2010-2011. Em 2017, o país quer enviar uma nova sonda de exploração ao satélite terrestre, com um veículo, e fazer a sonda regressar à Terra.

A alunissagem bem-sucedida da Chang’e 3 foi o último passo do ambicioso programa espacial chinês. O país asiático enviou a seu primeiro astronauta ao espaço em 2003. Desde então, os marcos se sucedem. Foram quatro missões tripuladas, além do lançamento de um protótipo de laboratório espacial. Na última missão tripulada, em junho passado, três astronautas passaram 15 dias na órbita terrestre. Seu módulo se acoplou ao laboratório experimental Tiangong 1 (Palácio Celestial 1), passo prévio à estação espacial permanente que a China prevê para 2020. A partir desse ano, quer enviar também em algum momento uma missão tripulada à Lua.

O programa espacial chinês reflete o rápido progresso econômico e tecnológico que o país experimentou nas últimas décadas, e o desejo das autoridades de situar a China entre as grandes potências mundiais em todos os campos.