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A solidão da viúva de Pinochet

Aos 90 anos, Lucía Hiriart vive só e enclausurada e não se sabe quase nada sobre ela

Um livro revela a influência política que exerceu sobre o ditador, morto há sete anos

A viúva de Pinochet, Lucía Hiriart, em 2011.
A viúva de Pinochet, Lucía Hiriart, em 2011.

Lucía Hiriart de Pinochet sentiu uma profunda tristeza no dia 8 de abril deste ano, quando soube da morte de Margaret Thatcher. Como nunca pôde dominar o inglês, chamou um médico amigo para que ele escrevesse uma carta de condolências. A viúva do ditador chileno admirava a ex-primeira-ministra do Reino Unido, que cultivou uma amizade estreita com seu marido, que morreu no dia 10 de dezembro de 2006.

“Nunca esquecerei sua visita histórica no dia 26 de março de 1999 a Virgínia Water. Esse segue sendo o único momento luminoso na lembrança daqueles dias escuros que passamos em Wentworth, esperando poder regressar ao Chile”, dizia a carta. A mulher se referia aos encontros entre a Dama de Ferro e Pinochet quando o general teve que aguardar em Londres o pedido de extradição, por delitos contra a humanidade, feita pelo juiz Baltazar Garzón. "Sou muito consciente de que foi você quem levou a democracia ao Chile”, disse a inglesa ao general, nessa oportunidade em frente às câmeras de televisão.

Lucía Hiriart redigiu a carta em um obituário para Margaret Thatcher e o envio ao endereço 10 Downing Street. O destinatário era o primeiro-ministro britânico David Cameron.

Quase nada se sabe no Chile sobre Lucía Hiriart de Pinochet, que, aos 90 anos, vive quase enclausurada em sua residência da Dehesa, uma das zonas mais caras de Santiago. Desde que seu marido faleceu, a viúva mergulhou em seu mundo privado e os chilenos parecem ter esquecido dela. Uma biografia não autorizada que acaba de ser publicada no Chile revela sua rotina, faces desconhecidas de sua vida e a influência política que exerceu sobre o ditador. O livro intitulado Doña Lucía, da jornalista Alejandra Matus, tira a poeira da figura de mulher forte da ditadura militar chilena que durou de 1973 a 1990.

A investigação relata que ela está lúcida, que passa a maior parte do tempo em sua casa e que segue vivendo um luto longo pelo falecimento de seu marido e pelo fim dos privilégios e do poder. Só um de seus cinco filhos – Marco Antonio - a visita com regularidade e está atento ao seu estado de saúde. “Depois da morte do patriarca, a família tem se desintegrado, as visitas são escassas e Lucía se sente imensamente só”, diz o livro que acaba de ser publicado no Chile e está entre os mais vendidos.

Os confortos que o Exército lhe proporciona não são os mesmos de antes, revela Doña Lucía. Cozinheiros, motoristas e escolta transitavam pela residência antes da morte de seu marido. Desde 2006, no entanto, a equipe foi reduzida a três colaboradores: uma pessoa para sua assistência pessoal, um auxiliar de serviço e um motorista que pode ser chamado de acordo a suas necessidades de transporte. Os processos judiciais que embargaram os bens de Pinochet – um caso conhecido como Riggs- parecem ter afetado muito as finanças domésticas.

Os incondicionais à família são escassos e menos ainda são os que se atrevem a defender a figura do ditador em público. A viúva ressente este afastamento e está zangada com a direita. Também não desfrutou de boa saúde: no dia 25 de maio desse ano, teve que ser levada ao Hospital Militar por causa de uma dor aguda no peito. Lucía Hiriart, definitivamente, não é nem a sombra daquela mulher de caráter forte, amante dos chapéus e sapatos, que sempre empurrou Pinochet. Ela o estimulou para que ascendesse em sua carreira militar, lhe deu forças para dar o golpe contra Allende e alimentou constantemente seu desejo de perpetuar no poder.

De ascendência basco-francesa, Lucía Hiriart proveniente de uma família democrática e antimilitarista que formou a elite política no início do século XX. Filha de um senador, aos 16 anos conheceu Pinochet, que na ocasião tinha 23 anos. Era um simples soldado, que ficou encantado com a moça. O relacionamento não agradou à família da jovem e, segundo relata a jornalista, a mulher não foi feliz durante os primeiros anos de casamento, pelas aberturas econômicas - tão distantes de seus anseios de infância - e pelas infidelidades de seu marido, que inclusive esteve a ponto da deixá-la quando os filhos eram pequenos. No final dos anos 50, enquanto a família estava em Quito, o militar se apaixonou pela equatoriana Piedade Noé, uma mulher separada, liberal e artista.

“Ela não foi feliz com Pinochet até que chegou a ditadura e seu marido pôde lhe dar tudo o que ela sempre sonhou”, relata a autora de Doña Lucía.

O próprio Pinochet escreveu em suas memórias que foi sua esposa quem o empurrou a participar do Golpe. “Uma noite, minha mulher me levou à casa onde dormiam meus netos e me disse: “Eles serão escravos porque você não foi capaz de tomar uma decisão’”, escreveu o general em suas memórias Caminho recorrido. Lucía não teve compaixão, relata Alejandra Matus. A biografia não autorizada revela que a ditadura afetou diretamente os membros de sua família: seu próprio pai esteve na contramão do regime e uma de suas primas foi vítima da repressão.

De especial talento político - bem mais fino que o de seu marido - Lucía também fez notar sua influência na ditadura. “Temos que fazê-lo sem hesitações!”, dizia toda vez que se via envolvida nas decisões que Pinochet devia tomar, sem se importar de questioná-lo na frente de seus colegas. Explica Matus: “Os ministros tentavam fazer com que Pinochet resolvesse tudo antes de ir para casa porque, se falava com Lucía pela noite, voltava no dia seguinte com tudo mudado”.

A Primeira Dama do regime imprimiu seu olhar pessoal do que deveria ser o Chile através de CEMA, uma rede de centros de mães onde as mulheres pobres eram instruídas em diferentes ofícios. Lucía Hiriart presidia a fundação e as esposas dos altos generais estavam nos cargos da direção nacional. Com o passar dos anos, transformou-se em seu exército feminino próprio e sua principal ferramenta para dar à ditadura um caráter de integralismo moral. “Ela foi fortemente influenciada por grupos de vertentes franquistas”, conta a autora.

Em setembro deste ano, o Chile relembrou os 40 anos do golpe de Estado de 1973, e foi produzido um revisionismo inédito por parte dos cidadãos e da classe política, mas não se soube nada da família Pinochet. A viúva, na solidão de sua mansão, trata de passar despercebida em seu luto eterno. Só se  escuta ela dizer: “Se Augusto estivesse aqui…”.