Matteo Renzi, um heterodoxo vislumbra o poder na Itália

Sem papas na língua, o prefeito de Florença pode se tornar o líder da centro-esquerda italiana Crítico da velha guarda dirigente, o governante não costuma se evadir de polêmicas

Há alguns dias, durante um comício, Matteo Renzi contou que recebia uma mensagem em seu celular de uma jornalista que propunha: “Conte-me algo sobre Renzi, que tenho que escrever um artigo contra ele". A repórter, explicou o prefeito de Florença entre o regozijo de seus partidários, tinha se equivocado de número e estava perguntando pelos deslizes de Renzi ao próprio Renzi, que encerrou o episódio entre risos e aplausos: “Amigos jornalistas, acho que têm um problema. Enquanto as inundações da Sardenha acabam dois dias depois na página 19 de vossos diários e da tragédia de Lampedusa já não escreve ninguém, que importância tem o que Renzi faça!?”.

Após as críticas ao jornalismo italiano, a Matteo Renzi já não resta nenhum fantoche ainda com a cabeça. Sua fulgurante ascensão à cúpula da política italiana tem muito que ver com dois fatores muito bem combinados. O primeiro é seu descaramento, sua absoluta falta de papas na língua para, uma vez identificado o inimigo, tirá-lo de sua zona de conforto. A primeira e mais celebrada vítima do político foi a velha guarda da centro-esquerda italiana, os guardiães das essências de um frasco vazio. O secretário-geral do Partido Democrático (PD), Pier Luigi Bersani, ou os ex-primeiros-ministros Massimo D’Alema e Romano Prodi não foram capazes de dissimular sua raiva ao verem que de sua própria bancada se apostava —publicamente, o que dói mais— por agradecer os serviços prestados e os mandarem diretamente... à sucata. O que teria se achado aquele jovem...!

Porque este é o segundo fator. Não há artigo sobre Matteo Renzi na imprensa italiana que não acrescente algo sobre sua idade. As mais habituais são “o jovem líder da centro-esquerda” ou “o jovem prefeito de Florença”. Como ele mesmo se encarrega de sublinhar, “só na Itália se é ainda jovem com 38 anos”. Não há de se esquecer que a gerontocracia ainda domina os principais órgãos de poder e que o último líder político indiscutível foi expulso do Senado aos 77 anos, nos braços de uma noiva de 29 e prometendo vingança. Um líder, Silvio Berlusconi, que respirou tranquilo quando, nas primárias realizadas pelo Partido Democrático para eleger seu candidato nas últimas eleições, o aparelho do partido se impôs e saiu eleito Pier Luigi Bersani, um senhor muito sério e muito da esquerda de toda uma vida, em prejuízo do heterodoxo Matteo Renzi, a quem —por seu jeito franco de falar, por sua forma desenvolta de se vestir— muitos achavam enxergar um infiltrado da direita, talvez um impostor... Um Berlusconi de centro-esquerda? Um Renzisconi?

“Só na Itália se é ainda jovem com 38 anos”, diz aos que apontam a sua idade para se chegar a postos de poder

O que aconteceu depois já se sabe. A centro-esquerda dormiu nos louros da complacência —“a esquerda tem o vício”, diz Renzi, “de achar que os demais são estúpidos”—, Berlusconi conservou uma boa parte de sua incondicionalidade e o cômico Beppe Grillo, líder do Movimento 5 Estrelas, fez eco da raiva e do descontentamento. Ante a confusão geral, o presidente da República, Giorgio Napolitano, decidiu intervir e obrigar a centro-direita e a centro-esquerda a aceitarem o candidato que ele nomeasse...

Este correspondente teve a oportunidade de conhecer Matteo Renzi durante as horas em que o presidente Napolitano decidia no final de setembro quem propor para primeiro-ministro. Foi durante uma entrevista —seguida de um almoço informal em seu despacho do palácio Vecchio de Florença— sobre o qual sobrevoou o tempo todo a possibilidade de que o telefone soasse e fosse Napolitano. Renzi, a quem os jornais daquele dia davam como possível candidato, não aparentou nervosismo. Entregou-se à entrevista e utilizou cada detalhe —os maravilhosos afrescos pintados no teto do palácio, o iPad sobre a mesa com seus mais de 600.000 seguidores em seu perfil no Twitter, as obras em frente à varanda paralisadas pela infinita burocracia italiana ou “a água da torneira do prefeito” servida durante o almoço— para fazer política. Ao final, o telefone que soou foi o de seu colega de partido Enrico Letta, o colaborador mais próximo deBersani, ou o que é o mesmo: um social-democrata, um democrata-cristão, um ortodoxo. Todo o contrário do prefeito da cidade de Florença.

Desde então, Renzi se manteve em um evidente segundo plano. Não foi desleal ao Governo, mas também não foi o contrário. Em cada momento deixou patente ante a opinião pública que essa conspiração da esquerda e a direita para se manter no poder era pão para hoje e fome para manhã. E ao final decidiu jogar suas cartas e organizar o assalto ao poder. 

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