“Você está de preto, no lugar errado e com as pessoas erradas”

A polícia intensifica as revistas baseada nas roupas escuras de adolescentes e registra em vídeo as abordagens

- Quem é o líder aqui? quem é o líder?, perguntaram dois agentes.

- A gente não tem líder, responderam os jovens, a maioria menores.

Apesar da perda de fôlego dos atos convocados pelo movimento Black Bloc, ainda há jovens, atraídos pela estética e o discurso anti-corrupção e anti-polícia, que saem nas ruas prontos para ficar na linha de frente dos protestos. O único grupo de adolescentes que apareceu no dia 15 no vão do Museu de Artes de São Paulo contava com menos dois meses de experiência como adeptos à tática Black Bloc. 

Decepcionados pela suspensão do ato resolveram ir ao supermercado e beber no estacionamento - alguns, refrigerante, e outros, cerveja. Ao saírem, mais de 15 policiais militares aguardavam para abordá-los.

Entre o grupo, que ficou encostado contra a grade do supermercado, havia duas meninas de 16 anos que apenas foram comprar iogurte. Um policial com uma câmera pendurada no peito gravou cada um dos abordados pedindo para eles se identificarem com nome e sobrenome.

- O que eu fiz? A gente só veio comprar. Nem sequer estou vestida de preto, questionou uma delas.

Uma policial olhou para ela e apontou com o dedo a calça, efetivamente preta, e a camiseta da amiga, colorida, mas de fundo preto também.

- Vocês estavam no lugar errado com as pessoas erradas.

Uma delas começou a chorar e dois policias da Força Tática questionaram o porquê do choro. “Estou frustrada, não entendo por que eu tenho que estar aqui se não fiz nada”.

- Você está sendo abordada, é uma coisa normal, respondeu a oficial.

- Este é o Brasil, onde você sai do supermercado e é abordado. Não sei o que é pior, se a polícia ou o bandido, disse a jovem.

Um dos agentes da Força Tática não gostou do comentário e começou a provocar a menina. “Vamos levar você à delegacia e aí vai chorar com razão, até que seu papai venha te procurar, mal-educada”.

O saldo da abordagem foi a detenção de um dos meninos que portava um canivete. Ninguém da turma ficou muito preocupado. “A gente apenas o conhece”.