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O último sonho

O cineasta Pedro Almodóvar fala sobre a relação especial com a mãe,

Ela foi "um personagem especial" em sua vida, que inspirou seu cinema

O diretor com as protagonistas de 'Volver': Carmen Maura, Penélope Cruz, Johana Cobo, Blanca Portillo e Lola Dueñas.
O diretor com as protagonistas de 'Volver': Carmen Maura, Penélope Cruz, Johana Cobo, Blanca Portillo e Lola Dueñas.

Quando saio para a rua, no sábado, descubro que faz um dia ensolarado. É o primeiro dia com sol e sem minha mãe. Choro por trás dos óculos. Ao longo do dia o farei muitas vezes. Depois de não ter dormido na noite anterior, caminho como um órfão até encontrar o táxi que me levará para o Velório Sul. Ainda que eu não seja esse tipo de filho, generoso em visitas e afagos, minha mãe é um personagem especial na minha vida. Não incluí seu sobrenome em meu nome público, como ela teria gostado. Você se chama Pedro Almodóvar Caballero. Que história é essa de só Almodóvar! Me disse em uma ocasião, quase aborrecida.

"As pessoas pensam que os filhos são coisa de um dia. Mas demora muito. Muito". Dizia Lorca. As mães também não são coisa de um dia. E não precisam fazer nada especial para serem essenciais, importantes, inesquecíveis, didáticas. As mães sempre pisam em chão firme.

Eu aprendi muito sobre minha mãe, sem que nem ela e eu nos déssemos conta. Aprendi algo essencial para meu trabalho, a diferença entre ficção e realidade, e como a realidade precisa ser complementada pela ficção para tornar a vida mais fácil.

Lembro de minha mãe em todos os momentos de sua vida. A parte mais épica, talvez, foi aquela transcorrida em um povoado de Badajoz, Orellana la Vieja, ponte entre os dois grandes universos nos quais vivi antes de ser engolido por Madri: Mancha e a Estremadura.

Mesmo que minhas irmãs não gostem que eu relembre isso, nos primeiros passos na Estremadura a situação familiar era precária. Minha mãe sempre foi muito criativa, a pessoa com mais iniciativa que conheci. Na Mancha se diz: "É capaz de tirar leite de pedra".

A rua onde vivíamos não tinha luz, o solo era de adobe, não havia jeito de parecer limpo, com água ficava enlameado. A rua estava na periferia do povoado, tinha surgido sobre um terreno rochoso. Não acredito que as meninas pudessem caminhar com saltos pelas rochas escarpadas. Para mim aquilo não era uma rua, me lembrava mais um povoado de algum filme faroeste.

Viver ali era difícil, mas barato. Em compensação, nossos vizinhos eram pessoas maravilhosas e muito hospitaleiras. Eram também analfabetos.

Como complemento ao salário do meu pai, minha mãe começou com o negócio de leitura e escrita de cartas, como no filme Central do Brasil. Eu tinha oito anos; normalmente era eu quem escrevia as cartas e ela quem lia as cartas que nossos vizinhos recebiam. Em mais de uma ocasião eu prestava atenção no texto que minha mãe lia e descobria com espanto que não correspondia exatamente com o que estava escrito no papel: minha mãe inventava algumas partes. As vizinhas não sabiam, porque o inventado era sempre um prolongamento de suas vidas, e ficavam encantadas depois da leitura.

Depois de comprovar que minha mãe nunca se atinha ao texto original, um dia a repreendi no caminho de volta para casa: "Por que leu que ela lembra tanto da avó, e que sente falta de quando a penteava na porta de casa, com a bacia cheia de água? A carta nem sequer menciona a avó", eu disse para ela. "Mas você viu como ela ficou contente!", ela me disse.

Tinha razão. Minha mãe preenchia as lacunas da carta, lia para as vizinhas o que elas queriam ouvir, às vezes coisas que o autor provavelmente tinha esquecido e que teria feito com gosto.

Essas improvisações eram para mim uma grande lição. Estabeleciam a diferença entre ficção e realidade, e mostravam como a realidade precisa da ficção para ser completa, mais agradável, mais fácil de se viver. Minha mãe se despediu desse mundo exatamente como teria gostado. E não foi por casualidade, ela tinha decidido assim, fiquei sabendo hoje mesmo, no velório. Há 20 anos minha mãe disse para minha irmã mais velha, Antonia, que havia chegado o momento de deixar a mortalha pronta.

Fomos para a rua Postas – me contava minha irmã diante do cadáver amortalhado de nossa mãe –  para comprar o hábito marrom de Santo Antônio, e o cordão. Minha mãe também disse que queria a insígnia do mesmo santo presa no peito. E os escapulários da Dolorosa. E a Medalha de Santo Isidoro. E um rosário entre as mãos. Um dos velhos, especificou para minha irmã; vocês fiquem com os bons (incluía minha irmã María Jesús). Compraram também uma espécie de xale negro, para cobrir a cabeça e que agora chega até a cintura, pelos lados.

Perguntei para minha irmã o significado do xale negro. Antigamente, as viúvas colocavam um manto de pano negro espesso, para indicar seu luto e sua perda. Conforme o tempo passava e seu luto diminuía, o manto ia sendo cortado. No começo chegava quase na cintura, e no final chegava somente até os ombros.

Essa explicação me fez pensar que minha mãe queria ir oficialmente vestida de viúva. Meu pai morreu há vinte anos, mas naturalmente não existiu outro homem nem marido para ela. Também disse que queria estar descalça, sem meias, nem sapatos. Se me amarrarem os pés, disse para minha irmã, que os desamarrem quando me colocarem dentro do caixão. Para onde vou tenho de entrar leve. Também pediu uma missa completa, não somente o responsório. Assim o fizemos e todo o povoado (Calzada de Calatrava) compareceu para nos dar a "cabezada", como chamamos os pêsames ali.

Minha mãe teria gostado da quantidade de ramos de flores que havia no altar, e com a presença de todo o povoado. "Todo o povoado veio" é a qualificação máxima para esse tipo de ato. E assim foi. Daqui, agradeço: obrigado, Calzada.

Também teria ficado orgulhosa do papel de perfeitos anfitriões que meus irmãos – Antonia, María Jesús e Agustín – desempenharam tanto em Madri como em Calzada. Eu me limitei a me deixar arrastar, com o olhar borrado e com tudo desfocado ao meu redor. Apesar do marasmo das viagens promocionais em que vivo (Tudo sobre minha mãe estreia agora quase no mundo todo. Por sorte, decidi dedicar o filme para ela, como mãe e como atriz. Tive muitas dúvidas, porque nunca estive seguro de que gostava de meus filmes), por sorte eu estava em Madri, e ao seu lado. Os quatro filhos sempre estivemos com ela. Duas horas antes que "tudo" ocorresse, Agustín e eu entramos para vê-la na meia hora de visita permitida na UTI, enquanto minhas irmãs aguardavam na sala de espera.

Minha mãe estava dormindo. Nós a acordamos. O sonho devia ser muito bom, e tão absorvente que não a abandonou ainda que falasse com a gente perfeitamente desperta. Perguntou para nós dois se estava chovendo, e dissemos que não. Quisemos saber como ela estava, e nos disse que muito bem. Para meu irmão Agustín, perguntou sobre seus filhos, que acabavam de chegar de férias. Agustín lhe disse que estava com eles no final de semana e que almoçariam juntos. Minha mãe lhe perguntou se já havia comprado a comida, e meu irmão disse que sim. Eu lhe disse que dois dias depois precisava ir para a Itália, para promover o filme, mas que se ela quisesse eu ficaria em Madri. Ela disse para que eu viajasse, e que fizesse tudo o que tinha para fazer. Sobre a viagem, estava preocupada com os filhos de Tinín. E as crianças, com quem ficarão?, perguntou. Tinín lhe disse que ele não iria comigo, ele ficaria. Ela ficou satisfeita.

Veio uma enfermeira e, além de nos dizer que o tempo da visita tinha terminado, informou minha mãe que traria sua refeição. Mamãe comentou: "A comida não vai mudar muita coisa no meu corpo". Achei o comentário bonito e diferente. Três horas depois, morria. De tudo o que ela disse na última visita, para mim ficou gravado quando nos perguntou se chovia. A sexta-feira foi um dia ensolarado, e parte de sua luz entrava pela janela. Sobre qual tempestade falava minha mãe em seu último sonho?

Pedro Almodóvar Caballero é cineasta.

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