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Trump bloqueia os grandes acordos do G7

Grupo de sete países fracassa na tentativa de fechar pactos sobre a mudança climática

cumbre del G7
Polícia italiana entra em confronto com manifestantes contrários à cúpula do G-7.

O G7 mais complicado dos últimos anos acabou sendo um exercício de equilibrismo diplomático. Após dois dias buscando espaços de consenso para não prejudicar as frágeis relações com os Estados Unidos, não foi possível alcançar grandes acordos além da luta contra o terrorismo e as sanções à Rússia. A cúpula poderia ser resumida assim: o Governo Trump precisa de mais tempo para decidir sobre temas cruciais, como o clima e o comércio, sem romper os compromissos. Os outros seis países, que formaram um bloco durante os dois dias, aceitam transitar por um período de incerteza até a próxima reunião do G20, marcada para 7 de julho em Hamburgo. Foi "difícil e insatisfatório", definiu a chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel.

As discussões produziram um comunicado final notavelmente diluído. Mais curto que o habitual – seis páginas e 39 pontos –, o documento foi elaborado suprimindo ideias, não acrescentando-as. Em assuntos como o comércio, segundo fontes do G7 que participaram dos encontros, foi necessário abordar com extremo cuidado tudo o que se referia à luta contra o protecionismo, cuja menção foi finalmente incluída. Os redatores do documento tiveram de recorrer a uma série de nuances, como "combater as práticas injustas", para satisfazer as suspeitas do presidente dos EUA em relação a alguns países da União Europeia (UE). Ainda mais após ele ter reclamado do recorde no superávit comercial alemão, de cerca de 250 bilhões de euros (900 bilhões de reais). "Trump tem uma política comercial diferente da do antecessor", admitiu o presidente francês, Emmanuel Macron. Um dos pontos que mais chamam a atenção é a nula menção à América Latina. Inclusive no capítulo comercial.

No final da reunião, porém, todos os líderes quiseram ressaltar os pontos de concordância sobre temas como Líbia, Coreia do Norte e luta contra o terrorismo na internet. Macron enfatizou esses pontos, sem querer culpar diretamente Trump pelo bloqueio. "Dias atrás, pensávamos que os EUA se retirariam dos Acordos de Paris e não haveria discussão. Portanto, acredito que houve um avanço e uma boa troca de ideias", disse Macron. "Isso permitirá que Trump tome consciência da importância do que está em jogo, inclusive para a sua economia." Mas foi complicado esconder a sensação de fracasso nos grandes temas. O primeiro-ministro da Itália, Paolo Gentiloni, anfitrião do encontro, não negou as dificuldades enfrentadas nos debates. "Foi uma discussão de verdade, mais autêntica que em outras ocasiões", afirmou. "Um momento de confrontação entre líderes, como nesse caso, para mostrar as posições, embora sejam distintas."

A questão climática, sobre a qual havia sido exercida toda a pressão possível para convencer Trump, ficou para depois. A declaração conjunta especifica que seis países se mantêm firmes ante os compromissos adquiridos em 2015 em Paris, esperando agora o resultado da reflexão interna do Governo Trump. Não havia jeito de pedir mais. Como disse Merkel, a negociação foi "difícil e insatisfatória". E a reunião pôde ser simbolizada da forma "seis países mais um". "Devemos ter paciência com ele [Trump]", disseram fontes do G7.

Um dos eixos temáticos do dia foi a crise migratória, cujos desembarques foram desviados da Sicília para a Calábria para não perturbar a ordem na cúpula de Taormina. A Itália, o país europeu mais afetado atualmente pelo fenômeno, gostaria de ter redigido um anexo ao comunicado final para tratar da questão com mais detalhes e definir o rumo a seguir. O G7 se reuniu neste sábado com os líderes de Tunísia, Nigéria, Níger, Quênia e Etiópia com a intenção de obter acordos. Também compareceram o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, e a diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. Mas o comunicado não aborda muito mais do que as habituais boas intenções e os acordos salomônicos, de pouca importância para qualquer iniciativa. O documento diferencia entre "imigrantes e refugiados" e reconhece, com um aceno a Trump, o direito dos Estados de controlar suas fronteiras e realizar suas próprias políticas de imigração.

Além do verniz diplomático que caracteriza o texto final, os pontos de acordo reais são sobre assuntos como Coreia do Norte, Líbia, Síria e a luta antiterrorista. Ou seja, a maioria dos conflitos bélicos que ameaçam a estabilidade global. Não é pouco. Mas, de novo, os participantes não especificam de que forma pensam preservar esse equilíbrio, sobretudo em lugares como a Coreia do Norte, onde diminui o vigor da via diplomática.

A falta de uma posição concreta dos EUA sobre os grandes temas que seriam discutidos na cúpula surpreendeu as outras seis delegações. Do mesmo jeito que as mudanças de opinião, como na questão das sanções contra a Rússia – houve um recuo de última hora, e Gary Cohn, assessor econômico de Trump, confirmou que o país seguiria na mesma linha. Alarmados pela possível fratura, os países optaram por baixar o tom, buscar acordos e dar mais tempo – já pensando na próxima cúpula do G20, marcada para 7 de julho em Hamburgo. "Há seis membros com posições muito claras e um sétimo que precisa de tempo para pensar. Podemos tomar esse encontro como um aprendizado", dizia uma alta fonte entre os participantes.

Certo é que a falta de empatia – pessoal e política – de Trump fez com que os demais líderes se unissem, em especial os da UE. Suas maneiras, seus gestos, os comentários sobre suas empresas cada vez que se aproximava de algum mandatário para se referir a seu país, o desencontro sobre o comércio alemão, o empurrão ao primeiro-ministro de Montenegro e seu evidente desconhecimento sobre os temas mais importantes da agenda funcionaram como um estupendo estímulo para a fragmentada UE.

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